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Custo para manter carro chega a quase R$ 1.500 mensais


Por FLÁVIA LOPES

14/08/2011 às 07h00

 Na hora de adquirir um veículo próprio, a maioria dos consumidores avalia questões como conforto, praticidade e agilidade nos deslocamentos. Muitos, no entanto, se esquecem de colocar no papel os custos mensais para manter um carro e ignoram os gastos que vão além do simples fato de abastecer o veículo. Estudo realizado pela Tribuna, a partir de dados fornecidos pelo especialista em trânsito e mobilidade urbana, José Ricardo Daibert, mostra que itens como lavagem, depreciação do veículo, estacionamentos e lubrificantes, além de impostos e seguros, contribuem, e muito, para onerar os gastos com o carro (ver quadro). A partir desses indicadores, manter um veículo popular (com custo médio de R$ 27 mil), rodando uma média de 30km diários, pode custar quase R$ 1.500 no fim do mês. Já em relação a um carro mais valorizado (custo de R$ 60 mil), o custo mensal pode chegar a R$ 2.500 se utilizada a mesma quilometragem diária.

Apesar dos gastos elevados com o carro, a frota local cresce em ritmo acelerado. Entre o ano passado e julho deste ano – segundo dados do Detran-MG levantados pelo Sincodiv-MG – Juiz de Fora recebeu mais 17.451 novos carros. Somente nos últimos sete meses, sem benefícios do Governo (como a redução de IPI), foram adquiridos 6.242 carros zero quilômetro. Ao todo, são 191.656 veículos nas ruas.

Ainda com base no levantamento, a partir do custo por quilômetro rodado, percorrer algumas distâncias de táxi pode ficar mais barato que de carro. No caso dos veículos de luxo, cujo valor do quilômetro é mais oneroso, o táxi é vantajoso para distâncias acima de cinco quilômetros. Para um carro avaliado em R$ 40 mil, utilizar o táxi será mais econômico para distâncias superiores a 20 quilômetros por dia. Já para quem tem um carro na faixa de R$ 27 mil, andar de táxi fica mais caro. Vale lembrar que o estudo leva em conta preços médios, e que o consumo de combustível varia de acordo com a potência do veículo, assim como o valor do seguro varia de acordo com o sinistro.

Se levado em consideração o gasto de uma família com quatro pessoas e quatro deslocamentos diários cada com transporte coletivo público, o carro só será vantajoso quando a distância diária percorrida for inferior a 20 quilômetros e para veículos na faixa de R$ 27 mil. Já a moto será vantajosa na maior parte dos casos (ver quadro).

 

Decisão emocional

 Para o professor do curso de Economia das Faculdades Integradas Vianna Júnior, Fernando Souza, é difícil avaliar qual meio de transporte é mais interessante para cada pessoa. "Comparar o uso de veículo próprio para se deslocar na cidade, com a opção de uso de táxi e transporte público é complexo, visto que a malha viária não contribui para facilitar o deslocamento e a lotação do transporte público."

Nesse contexto, ele destaca que poucos são os que realmente avaliam com critério a necessidade do carro. "A decisão de adquirir ou não um veículo passa, antes de uma análise financeira e racional, por uma análise subjetiva emocional. Ter um veículo para uso da família, muitas das vezes, é uma meta perseguida pelo grupo como um prêmio pelo esforço do trabalho e dificuldades do dia a dia, sendo então desconsiderado ou não bem avaliado o impacto desta aquisição no orçamento familiar."

Segundo o professor, antes de adquirir um veículo, a família deve ponderar de forma racional e de olho no orçamento se terá condição financeira de manter os gastos mensais do veículo. "Também deve estar ciente de que a taxa de depreciação do veículo, dependendo do modelo, pode chegar a 30% no primeiro ano, e se a compra não for bem planejada e houver a necessidade de se desfazer do veículo em um curto espaço de tempo, o prejuízo será ainda maior, porque atualmente a liquidez deste tipo de patrimônio é muito pequena."

Souza também aponta a necessidade de se estabelecer limites de gastos com o veículo. De acordo com ele, o valor comprometido com a aquisição do novo veículo, somado à prestação e aos gastos com manutenção e impostos, não deve ultrapassar de 15% a 20% da renda total. "Para um gasto com veículo de R$ 700 por mês por exemplo, a renda da família sugerida seria de R$ 3.500. O gasto com alimentação, moradia, educação, saúde e demais custos fixos não deve ultrapassar R$ 2.500 por mês, deixando uma reserva para contingência de R$ 300", exemplifica.

 

Falta investimento em transporte

 

Para o especialista em trânsito e mobilidade urbana, José Ricardo Daibert, um maior investimento em transporte coletivo público poderia mudar a escolha de alguns motoristas pelo veículo próprio. "Não temos como falar em soluções significativas sem investimento no transporte público." Para ele, é necessário planejar alternativas para garantir uma mobilidade sustentável. "Para isso, é necessário pensar em políticas voltadas para o transporte público de qualidade e quantidade, não colocando o ônus disso somente para o usuário. "

Ainda de acordo com Daibert, o carro popular, se comparado ao custo de táxi, sempre será mais vantajoso. Porém, o especialista pondera o impacto do veículo no trânsito da cidade. "Um táxi transporta por dia uma média de 30 passageiros, ocupando muito menos espaço que o veículo particular. Se avaliados esses carros no Centro, por exemplo, seriam 30 vagas de estacionamento ocupadas, 30 manobras de entradas e saídas das vagas, e muito mais espaço ocupado."

A falta de táxis na cidade, sobretudo nos horários de pico, é outro ponto levantado por Daibert. Ele também contesta a frota atual da cidade, de 491 veículos. "Nos anos 80, inventaram uma regra de um táxi para cada mil habitantes, que era uma referência, pois as placas eram dadas de favor. Mas não existe um número correto. São Paulo tem um táxi para cada 300 habitantes, e no Rio é um para cada 200 habitantes. Mas isso varia muito."

Reavaliação

A Secretaria de Transportes e Trânsito, por meio de sua assessoria, informa que a Prefeitura está contratando a Universidade Federal de Juiz de Fora para reavaliar o sistema, identificando se a oferta por táxis está de acordo com a demanda na cidade. O posicionamento da Settra é que só este estudo pode apontar se é preciso aumentar a frota e em qual número.

Sobre o sistema de transporte coletivo, a secretaria destaca que sua melhoria passa necessariamente por eliminação ou diminuição dos ônibus convencionais nos principais trechos cortados por avenidas, substituindo-os por tecnologias de maior capacidade; diminuição da poluição sonora e da emissão de poluentes atmosféricos na área central e em outros corredores viários, entre outros pontos. Diz também que aguarda novo posicionamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE) sobre licitação para a contratação do estudo visando à reestruturação do sistema de transporte coletivo urbano que serviria de base para a licitação da concessão do serviço de ônibus.

 

Juiz-forano troca carro por moto

 

Apesar de ser um transporte praticamente individual, muitos juiz-foranos estão optando pelas motocicletas. De janeiro a julho deste ano a cidade recebeu 2.260 novas motos. Durante todo o ano de 2010, foram 3.576, segundo dados do Detran-MG, levantados pelo Sincodiv-MG. Com custo médio praticamente quatro vezes menor do que o do carro, os gastos mensais reduzidos são o principal atrativo: o custo médio do quilômetro na moto (R$ 0,54) é quase um terço do valor do veículo popular (R$ 1,56).

O maior risco de acidentes e desconforto em determinadas situações, sobretudo em dias de chuva e frio, não impediram o estudante Rodrigo Freitas de escolher a moto como seu meio de transporte. Ele comprou o veículo há seis meses e diz que fez a opção após colocar no papel os gastos com ônibus. "Estava gastando mais de R$ 150 por mês com o ônibus. Com a moto, não chego a gastar R$ 30. O valor que economizo dá para pagar a prestação."

O vendedor Leonardo Santiago Bontempo possui carro, mas quase não o tira da garagem devido à utilização da moto no dia a dia. Ele diz que, com o carro, gastava uma média de R$ 150 por mês. Já com a moto, o custo com combustível é de R$ 15. "Só não desfiz do carro por conta de viagens. Mas tem semana que nem pego no carro." Ele, que possui moto há dez anos, diz que não troca o veículo no uso diário pelo carro. "O trânsito de Juiz de Fora está cada vez mais complicado, e moto agiliza muito nos trajetos. Sem contar os outros custos de manutenção, que são infinitamente menores."

 

Alívio

 

A facilidade de se deslocar em sua hora e tempo próprios, sem depender do transporte público, foi o fator que atraiu a farmacêutica Priscila Alvim na hora de comprar seu carro. Porém, meses depois, ela fez as contas e concluiu que não era vantajoso continuar pagando as prestações do veículo, que chegavam a mais de R$ 600 por mês. Depois de conseguir um apartamento próximo à escola dos filhos, ela, que também trabalha perto de casa, decidiu vender o carro. No início, segundo ela, o veículo fazia muita falta. Hoje, ela diz que consegue equilibrar o uso de táxi, ônibus e também caronas, gastando muito menos. "O carro, que era para trazer facilidade, estava dificultando. Deixava de fazer várias coisas para pagar a prestação e acabava não aproveitando o carro como poderia. Quando vendi, foi um alívio."