Consumidor evita endividamento Demanda por crédito recua 7,4%

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Gisele Nepomuceno fez uma reserva de dinheiro há um ano para gastos com a aquisição de apartamento
Essa nova leva de consumidores, mesmo quando disposta a investir em bens de alto valor agregado, se prepara para fugir do risco de endividamento. O professor Javer Volpini, 32 anos, esperou dois anos para comprar o primeiro carro, zero e completo, à vista. "Tenho pavor de dívidas", conta. "Tinha o dinheiro todo. Porém, quis fazer uma reserva para pagar sem parcelas o IPVA e o seguro. Portanto, financiei apenas R$ 5 mil, em dez vezes, com uma taxa de 0,83%." Segundo ele, o financiamento compromete menos de 10% da renda mensal. "Tenho o hábito de guardar metade do que ganho para conseguir bons descontos em compras à vista", diz.
Já a supervisora de compras Gisele Nepomuceno, 28, abriu mão de parte dos gastos com vestuário e calçados para fazer as parcelas do primeiro imóvel próprio caberem no orçamento. "Hoje, me pergunto para onde ia esse dinheiro, porque não estou sentindo falta", diz, afirmando que destina 25% de sua renda para o apartamento no Marilândia que receberá em 2014. "Há um ano e meio faço uma pequena reserva de dinheiro, com a qual já paguei toda a documentação do imóvel. Agora ainda concilio as prestações com o aluguel, mas, como as parcelas são regressivas, quando o apartamento for entregue, terei uma folga para pagar IPTU e condomínio, sem perigo de me endividar."
Para o vice-diretor da Faculdade de Administração da UFJF e pesquisador do comportamento do consumidor, José Humberto Viana Lima Júnior, o atual momento de retração econômica é posterior a uma fase de deslocamento dos investimentos. "O brasileiro comprou bens caros, como imóveis e carros novos, e, com isso, o endividamento da família brasileira se exacerbou esse ano em função de consumos realizados no ano passado. Isso provocou o desaquecimento e a restrição ao crédito", explica.
Segundo o professor, os altos índices de inadimplência têm suscitado cautela também nos bancos, que começam a dificultar a liberação de empréstimos e financiamentos, ao contrário do que vinha acontecendo nos últimos dois anos. "É temerário emprestar dinheiro agora, pois não se pode deixar que a inadimplência chegue a um nível que comprometa a saúde financeira dessas instituições, como estamos vendo acontecer na Europa."
A demanda do consumidor por crédito caiu 7,4% no primeiro semestre deste ano, em relação ao ano passado, de acordo com a empresa de consultoria Serasa Experian. A queda é a maior registrada desde 2008, quando o índice começou a ser medido, mesmo com as reduções dos juros e demais medidas de estímulo ao consumo adotadas pelo Governo. O ritmo do crédito imobiliário também começa a apresentar desaceleração, de acordo com dados da Caixa Econômica Federal (CEF), responsável por 73% do mercado. Embora o volume de novas contratações entre janeiro e junho tenha superado em 25% o do período no ano passado, o banco admite que o setor está entrando em processo de menor crescimento.
"Há um conservadorismo claro do crédito nesse momento, porque, mesmo com as taxas de juros baixas, não está havendo o consumo esperado pelo Governo. O cenário atual é pessimista, mas o Brasil, pela própria característica de se reinventar, deve conseguir um volume de negócios expressivos mais para o final do segundo semestre, com as festas de final de ano", acredita José Humberto. Porém, a reação positiva da economia deve chegar, efetivamente, apenas a partir de 2013.









