Cauteloso, consumidor freia consumo

Gisele Nepomuceno fez uma reserva de dinheiro há um ano para gastos com a aquisição de um apartament
Depois de um período de quase dois anos de farta concessão de crédito, compras desenfreadas e muito otimismo econômico, o consumidor brasileiro tem, aos poucos, retomado o comportamento cauteloso quanto a seus gastos. Frente ao avanço da crise internacional e ao temor de que seus impactos sejam cada vez mais fortes no Brasil, a palavra de ordem agora é poupar. Conforme dados do Banco Central, a captação líquida da poupança chegou a R$ 8,25 bilhões em julho, o maior montante para o mês em 17 anos. Na outra ponta, pesquisas da Serasa Experian mostram que, no primeiro semestre de 2012, na comparação com mesmo período do ano anterior, houve crescimento da inadimplência e desaceleração do consumo, fatores intrinsecamente ligados, segundo especialistas, que demonstram um esgotamento da capacidade de compra. Em Juiz de Fora, clientes começam a evitar parcelamentos longos e a optar pelo pagamento à vista mesmo para bens de alto valor agregado.
Para o professor de economia e finanças do Ibmec Rio, Gilberto Braga, a principal explicação para o desempenho é a continuidade do crescimento – ainda que em ritmo menor – do emprego e da renda. "Mesmo com o juro menor, a mudança de regras foi bem explicada e há tranquilidade entre os poupadores. Não há o temor de calote", diz.
Em entrevista à Agência Estado, o professor do Ibmec diz também que outro fator influencia os planos de investir: o noticiário. "Em momentos de incerteza e notícias ruins como atualmente, o consumidor tende a ser cauteloso e poupa mais. Por isso, mesmo com as férias e a antecipação do 13º salário, famílias viajaram menos e foram mais conservadoras nos gastos nas últimas semanas."
Mesmo nos casos em que consumidores saíram às compras, diz o economista, o endividamento parece ser "mais saudável" que o visto em outras épocas. "Muito da demanda via crédito tem sido direcionada para operações mais seguras, como o financiamento de veículos e da casa própria, onde o bem é a garantia do empréstimo. Do ponto de vista financeiro, é melhor que um financiamento de um celular", cita.
"Existe um pessimismo econômico que tem feito com que a população esteja mais cautelosa", concorda o vice-diretor da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFJF, José Humberto Viana Lima Júnior. "As pessoas estão poupando, pois já existe uma parcela da renda comprometida com compras feitas no passado, a necessidade de quitar as contas atrasadas e, ainda, a restrição atual ao crédito. A inadimplência nunca esteve tão alta", completa.
As dívidas em atraso no país cresceram 19,1%, nos seis primeiros meses deste ano, em relação a 2011, segundo a Serasa. Os economistas do órgão de proteção ao crédito atribuem o descontrole do consumidor às dívidas de alto valor para a compra de carros e imóveis e ao uso do cheque especial e do cartão de crédito. Já o movimento no comércio varejista este ano cresceu 7,6%, ritmo menor que o registrado em 2011 e 2010 – 9,6% e 10,7% , respectivamente.
"O motivo de não estarmos indo bem não é só a cautela do consumidor, mas o endividamento prévio", concorda o presidente do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomérico), Emerson Beloti. No primeiro semestre, a retração do setor na cidade chegou a 40%, frente ao ano passado. Para Beloti, o cliente juiz-forano está se acostumando a lidar com o cartão de crédito e pensando mais antes de mergulhar em dívidas altas. "As pessoas parcelavam as compras em dez vezes. Agora, querem dividir em três, evitando o endividamento a longo prazo. Antes, o consumidor observava se a parcela cabia no orçamento mensal e, agora, analisa o valor total do produto e o percentual da renda que será comprometido", explica.
Juiz-foranos evitam endividamento
Essa nova leva de consumidores, mesmo quando disposta a investir em bens de alto valor agregado, se prepara para fugir do risco de endividamento. O professor Javer Volpini, 32 anos, esperou dois anos para comprar o primeiro carro, zero e completo, à vista. "Tenho pavor de dívidas", conta. "Tinha o dinheiro todo. Porém, quis fazer uma reserva para pagar sem parcelas o IPVA e o seguro. Portanto, financiei apenas R$ 5 mil, em dez vezes, com uma taxa de 0,83%." Segundo ele, o financiamento compromete menos de 10% da renda mensal. "Tenho o hábito de guardar metade do que ganho para conseguir bons descontos em compras à vista", diz.
Já a supervisora de compras Gisele Nepomuceno, 28, abriu mão de parte dos gastos com vestuário e calçados para fazer as parcelas do primeiro imóvel próprio caberem no orçamento. "Hoje, me pergunto para onde ia esse dinheiro, porque não estou sentindo falta", diz, afirmando que destina 25% de sua renda para o apartamento no Marilândia que receberá em 2014. "Há um ano e meio faço uma pequena reserva de dinheiro, com a qual já paguei toda a documentação do imóvel. Agora ainda concilio as prestações com o aluguel, mas, como as parcelas são regressivas, quando o apartamento for entregue, terei uma folga para pagar IPTU e condomínio, sem perigo de me endividar."
Demanda por crédito recua 7,4% no semestre
Para o vice-diretor da Faculdade de Administração da UFJF e pesquisador do comportamento do consumidor, José Humberto Viana Lima Júnior, o atual momento de retração econômica é posterior a uma fase de deslocamento dos investimentos. "O brasileiro comprou bens caros, como imóveis e carros novos, e, com isso, o endividamento da família brasileira se exacerbou esse ano em função de consumos realizados no ano passado. Isso provocou o desaquecimento e a restrição ao crédito", explica.
Segundo o professor, os altos índices de inadimplência têm suscitado cautela também nos bancos, que começam a dificultar a liberação de empréstimos e financiamentos, ao contrário do que vinha acontecendo nos últimos dois anos. "É temerário emprestar dinheiro agora, pois não se pode deixar que a inadimplência chegue a um nível que comprometa a saúde financeira dessas instituições, como estamos vendo acontecer na Europa."
A demanda do consumidor por crédito caiu 7,4% no primeiro semestre deste ano, em relação ao ano passado, de acordo com a empresa de consultoria Serasa Experian. A queda é a maior registrada desde 2008, quando o índice começou a ser medido, mesmo com as reduções dos juros e demais medidas de estímulo ao consumo adotadas pelo Governo. O ritmo do crédito imobiliário também começa a apresentar desaceleração, de acordo com dados da Caixa Econômica Federal (CEF), responsável por 73% do mercado. Embora o volume de novas contratações entre janeiro e junho tenha superado em 25% o do período no ano passado, o banco admite que o setor está entrando em processo de menor crescimento.
"Há um conservadorismo claro do crédito nesse momento, porque, mesmo com as taxas de juros baixas, não está havendo o consumo esperado pelo Governo. O cenário atual é pessimista, mas o Brasil, pela própria característica de se reinventar, deve conseguir um volume de negócios expressivos mais para o final do segundo semestre, com as festas de final de ano", acredita José Humberto. Porém, a reação positiva da economia deve chegar, efetivamente, apenas a partir de 2013.









