14 anos, R$ 77 mi e pouco resultado


Por GRACIELLE NOCELLI Repórter

05/05/2013 às 07h00

Juiz de Fora e a Zona da Mata iniciam a quarta semana convivendo com a dúvida sobre o futuro do Aeroporto Presidente Itamar Franco, localizado entre Rio Novo e Goianá. Desde o dia 10 de abril, quando a Azul Linhas Aéreas Brasileiras, única companhia aérea que opera no local, solicitou a transferência dos voos para o aeroporto Francisco Álvares de Assis (Serrinha), a região passou a temer a possibilidade de ver o fim das operações comerciais do terminal, apontado como ferramenta essencial para o desenvolvimento econômico regional.

Sendo o segundo maior aeroporto do estado de Minas Gerais em extensão de pista e com dois milhões de usuários em potencial, conforme estimativa da própria Azul, o aeroporto possui número menor de conexões do que terminais de menor porte do interior do estado, como os de Uberlândia e Montes Claros. Enquanto no primeiro operam quatro companhias aéreas (Gol, Tam, Trip/Azul e Passaredo), o segundo possui duas empresas (Gol e Azul/Trip). Ambos os aeroportos fazem conexões diárias para Confins e Pampulha, em Belo Horizonte.

A incerteza vivida pelo aeroporto Itamar Franco é contraditória à crescente demanda de usuários. Segundo dados da Multiterminais, empresa que administra o local, no primeiro trimestre deste ano mais de 14 mil passageiros voaram pelo aeroporto. O número representa 78% do total de embarques e desembarques realizados em 2012. Além disso, a conclusão da remoção do morro que estava localizado na cabeceira sul da pista, apresentado como obstáculo para a internacionalização do terminal, e o início das obras para a construção da estrada de acesso ligando a BR-040, próximo à Barreira do Triunfo, na Zona Norte de Juiz de Fora, ao entroncamento com a MG-353, na localidade de João Ferreira, em Coronel Pacheco, trouxeram expectativas de que, finalmente, o terminal estivesse pronto para a expansão de suas atividades e para avançar em seu projeto de internacionalização, inicialmente previsto para 2012. Ainda assim, a Azul mantém seu plano de deixar o local. Esta semana, ela anunciou a intenção de alterar a data da mudança – do próximo dia 15 para 4 de junho – e reiterou que trata-se de uma estratégia para "otimizar a malha aérea".

A situação também vai na contramão da realidade vivida pelo país, que neste momento assiste às seguidas declarações de apoio do Governo federal à expansão dos aeroportos regionais. O projeto, defendido ao longo da semana pela presidente Dilma Rousseff, prevê subsídio para passagens aéreas, de forma que os preços se tornem mais competitivos, e a isenção de tarifas aeroportuárias e aeronáuticas em terminais com movimentação anual inferior a um milhão de passageiros.

O prefeito de Juiz de Fora, Bruno Siqueira, relembra que o aeroporto foi pensado como agente de integração e desenvolvimento da região. "O terminal tem a vocação de promover esse crescimento econômico, seja através da destinação para transporte de cargas ou mesmo de passageiros. Hoje ele está adaptado às condições mais modernas para a aviação e possui grande potencial que não pode ser desperdiçado."

 

R$ 77 milhões

Idealizado em 1999, pelo então governador Itamar Franco, o terminal teve investimento de R$ 77 milhões, sendo mais de 86% provenientes do Governo do Estado. Foram mais de dez anos para ver decolar o primeiro voo comercial, em 22 de agosto de 2011, pela Azul. A Tribuna entrou em contato com as assessorias do governador e da secretaria estadual de Desenvolvimento para saber o posicionamento do Estado em relação à possibilidade do fim dos voos comerciais e as linhas de ação a serem seguidas. Ambas informaram que o assunto é de competência exclusiva da secretaria estadual de Transporte e Obras Públicas (Setop). A assessoria da pasta informou apenas que "a decisão foi unilateral por parte da empresa" e que "desde 2006, o Governo vem realizando, por meio do Programa Proaero, um conjunto de ações para ampliar, adequar e melhorar a malha aeroportuária do estado."

Desde que a Azul informou a intenção de transferir os voos do Itamar Franco, autoridades, empresários e a comunidade da Zona da Mata tem se mobilizado. A assessoria da Anac informou que a agência não pode interferir na interrupção das conexões da companhia. "A decisão da empresa é feita de acordo com a liberdade econômica", afirmou em nota. Para a prefeita de Goianá, Maria Elena Lalini, o fim dos voos comerciais no Itamar Franco será um retrocesso. "O nosso desenvolvimento econômico passa por este terminal." A prefeita de Rio Novo, Virgínia Ferraz, ressalta que a região esperou por muito tempo para vê-lo em atividade. "Não é justo frear esse crescimento."

 

 

Multiterminais promete cargas ainda este ano

 

Em entrevista à Tribuna, o diretor da Multiterminais Ricardo Vega afirmou que aguarda decisões de terceiros para tomar qualquer medida. "Administramos um terminal público, tenho que esperar as coisas acontecerem para termos um posicionamento." Apesar de também estar na expectativa sobre o futuro do terminal, ele garante que o transporte de cargas, prometido para 2012 e postergado para 2013, acontecerá esse ano. No entanto, ele não comenta se as negociações com outras companhias aéreas já começaram.

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) da Zona da Mata, Francisco Campolina, a concretização da possibilidade de fim dos voos comerciais do aeroporto é extremamente prejudicial. Ele cita que os principais atingidos serão os empresários que possuem negócios em torno do local. "Há muitos bares, restaurantes, padarias e outros estabelecimentos que têm como principais clientes os passageiros do Itamar Franco." Mas Campolina acredita que a situação será provisória. "Muito em breve, a região poderá contar com novos voos e, também teremos o transporte de cargas", diz.

O otimismo do empresário é explicado, segundo ele, pela união da comunidade da Zona da Mata, de representantes do empresariado e da política nas esferas municipais e estaduais para manter as atividades no aeroporto. "Estão todos trabalhando juntos porque sabemos que trata-se de uma ferramenta imprescindível para o nosso desenvolvimento", destaca. "Após a remoção total do morro, a pista completa deverá ser homologada pela Anac. O movimento político é muito importante para agilizar esse processo", declara.

Campolina afirma que após a homologação total da pista, outras companhias aéreas terão interesse em atuar no aeroporto. "Já temos empresas que procuraram o escritório da Fiemg em Brasília para manifestar o interesse em atuar no terminal." Na semana passada, o empresário Paulo Almada, sócio da Pop Linhas Aéreas, confirmou à Tribuna que a empresa se interessa em operar no local. Informações de bastidores afirmam que outras três companhias também estudam a possibilidade.