Cofrinho deixa comércio sem troco
Juntar moedas em casa é um exercício de aprendizado para poupar dinheiro. A prática é incentivada por especialistas, que garantem que os brasileiros ainda não criaram o hábito de economizar. A afirmativa é confirmada pela última pesquisa do Ibope sobre o assunto, realizada no ano passado, que mostrou que apenas três em cada dez pessoas reservam dinheiro no país. Entre aqueles que estão preocupados em poupar, 16% o fazem guardando quantias em casa. Segundo estimativas do Banco Central (BC), no Brasil há 21,6 bilhões de unidades de moedas, mas 27% estão entesouradas. Enquanto os cofrinhos engordam, o comércio sente falta das moedas que estão fora de circulação na hora de dar o troco ao consumidor. Em Juiz de Fora, padarias e supermercados são os estabelecimentos mais afetados.
De acordo com o Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF), as moedas de R$ 0,01, R$ 0,05 e R$ 0,10 são as mais escassas. É uma reclamação recorrente, principalmente, entre supermercados, que trabalham mais com valores que não são inteiros, relata o presidente da entidade, Emerson Beloti. A situação reflete o cenário nacional. Dados do BC mostram que as maiores taxas de entesouramento são das moedas de R$ 0,01 (7,4%), R$ 0,05 (5,3%), R$ 0,10 (4,5%), R$ 1 (3,3%), R$ 0,25 (2,6%) e R$ 0,50 (2,5%).
Diante da dificuldade com o troco, a rede de supermercado Bahamas iniciou campanha de incentivo à troca de moedas. Com o slogan Troque suas moedinhas no Bahamas, elas têm muito valor, o grupo espera que a medida aumente a circulação das pratas que estão guardadas. Queremos fomentar essa prática para facilitar o troco. No final do ano, as vendas aumentam, e a situação tende a piorar, pois os consumidores estão com dinheiro graúdo por causa do décimo terceiro, explica o gerente financeiro da rede, Luiz Otávio Guarnieri Galil. O proprietário da padaria Pão Melhor, Osnir Pessamílio, também diz que relembra os consumidores de esvaziarem os cofrinhos nesta época do ano. A dificuldade com o troco aumentou muito nos últimos meses, toda ajuda é bem vinda.
Para Beloti, o motivo da dificuldade enfrentada pelo comércio não se restringe aos consumidores que juntam dinheiro em cofrinhos. O maior problema está com as pessoas que esquecem de usar as moedas, opina. Para o presidente do Sindicato das Indústrias da Panificação e Confeitaria de Juiz de Fora (Sindipan/JF), Heveraldo Lima de Castro, além do esquecimento, alguns consumidores não gostam de carregar moedas. Em comparação com as cédulas, é mais incômodo. Ele destaca que as padarias do Centro sofrem mais com a falta de troco. Nos bairros há maior costume do consumidor em ajudar o comerciante neste sentido, trocando moedas de diferentes valores.
Especialistas orientam como economizar
Para que o hábito de guardar moedas não prejudique a dinâmica econômica, especialistas defendem que a prática deve ser realizada com algumas condições. É importante que o poupador torne a experiência cíclica, de forma que de tempos em tempos retorne com as moedas em circulação, explica o especialista em educação financeira, Álvaro Modernell. Na hora de trocar as moedas, ele orienta que a pessoa dê preferência ao comércio. Já o economista e professor da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), Luís Carlos Ewald, destaca que o dinheiro economizado deve ter destino certo, que pode ser a aplicação em poupança ou o investimento em algo desejado.
Na análise de ambos os especialistas, juntar as moedas em cofrinhos é uma atividade lúdica que contribui para a educação financeira. A ideia cria a percepção de valor do dinheiro, da importância de poupar, do planejamento para o consumo, enumera Modernell. É um exercício extremamente saudável, só requer algumas orientações. O ideal, por exemplo, é que os cofres não sejam grandes e tenham fundo transparente para que se possa acompanhar o aumento das reservas. Este simbolismo é muito importante para inserir nas crianças as primeiras noções de planejamento financeiro.
Foi com o propósito de ensinar o filho a poupar, que, em 2011, a supervisora administrativa Rosiane Assis Lacerda, 32 anos, começou a guardar moedas. O João Victor estava com 7 anos, e eu queria que ele entendesse a importância de economizar, relembra. Juntando moedas de R$ 1 e R$ 0,50, ela conta que chega a uma quantia média de R$ 300 por ano. Combinamos antes como o dinheiro do cofrinho será usado. No primeiro ano, gastamos em uma viagem ao Rio de Janeiro. Em 2012, na compra de um brinquedo para ele. Esse ano ainda não decidimos. Segundo ela, a prática ajudou o garoto com o aprendizado em matemática e deu a ele noção de planejamento a longo prazo. Na visão de Modernell, a infância é a melhor fase para começar a poupar. Na verdade, nunca é tarde. Mas ensinar a criança a economizar é a garantia de formar adultos mais conscientes e menos propensos ao consumo desenfreado, destaca.
Jovens são os que mais poupam
Pesquisa do Ibope realizada em 2012 revelou que os jovens entre 16 e 24 anos são os que mais reservam dinheiro no país (37%). De acordo com o estudo, o percentual reduz com o aumento da faixa etária. Entre os brasileiros com 50 anos ou mais, por exemplo, apenas 26% têm o hábito de poupar.
Integrando as estatísticas, o universitário Fabrício Andrade, 21 anos, conta que aprendeu em família a economizar. Há alguns anos, meu pai ganhou um cofre e começou a juntar moedas de R$ 1. Minha irmã e eu passamos a fazer o mesmo com moedas de outros valores. Ele conta que o dinheiro é sempre utilizado em viagens. Já fomos para Cabo Frio, Guarapari e outros lugares. No período de um ano, o pai de Fabrício consegue juntar, em média, R$ 1.000. Minha irmã e eu alcançamos em torno de R$ 200 cada um. No somatório, rende uma boa quantia, avalia. Reflexo da prática, o estudante se descreve como uma pessoa regrada e que tem controle de consumo.
Para o economista e professor da Faculdade Getúlio Vargas (FGV) Luís Carlos Ewald, uma boa opção para os jovens poupadores é a aplicação do dinheiro economizado. É uma boa oportunidade para pensar o futuro. A poupança ainda é a melhor forma de investimento, garante. No entanto, ele reconhece que a prática é pouco difundida entre os brasileiros.
De acordo com a gerente de atendimento da Caixa Econômica Federal, Maristela de Paula, entre os juiz-foranos que juntam moedas, a realização de aplicações em poupança não é um hábito. Recebemos, em média, dois depósitos por mês de pessoas com grande quantidade de moedas. Ela destaca que a aplicação é uma alternativa interessante por fazer o dinheiro render.











