Política de estímulo já eleva inadimplência
A comercialização de imóveis no primeiro dia da Expocasa e Feirão da Casa Própria da Caixa Econômica Federal movimentou R$ 35 milhões, superando as expectativas da organização do evento, que esperava negociar R$ 50 milhões em dois dias. Com os contratos fechados hoje, o valor deve chegar à casa dos R$ 80 milhões. Ontem foram vendidos 238 imóveis dos mais de cinco mil – sendo 2.600 novos ou ainda na planta – colocados à disposição dos visitantes. Com entrada gratuita, o evento prossegue hoje, das 9h às 17h, no Clube Tupynambás.
A facilitação de obtenção de crédito e a redução das taxas de juros atraíram milhares de pessoas em busca da realização do sonho da casa própria. O guarda municipal Gilberto Chandrete, 25, aproveitou o feirão para financiar o primeiro imóvel próprio, em um novo condomínio residencial no Bairro Borboleta. "Vi que as condições cabem no meu orçamento. Mesmo ficando com as contas um pouco apertadas, vai valer a pena", avalia. Já o aposentado Sérgio Negri, 60, e a esposa, a psicóloga Ana Rita Negri, 58, analisavam as condições para investir na aquisição de imóveis para os filhos. "Temos quatro filhos, e agora é hora de pensar na casa própria para eles", explica Ana.
Foram montados sessenta estandes de empresas que compõem a cadeia da construção civil, como construtoras, imobiliárias e corretoras. Apenas na manhã de ontem, a Inter Construtora havia fechado 50% dos negócios esperados para os dois dias. "Os incentivos do Governo, com crédito facilitado e baixa de juros, contaram com a ampla divulgação na mídia e aqueceram o mercado", diz o proprietário da empresa. A opinião é compartilhada pelo proprietário da Casa Nova Empreendimentos Imobiliários, Aloysio José de Oliveira. Dos 280 apartamentos colocados à venda no feirão, 56 foram negociados somente na manhã de ontem. "As pessoas estão mais informadas e têm maior poder de decisão, o que facilita o atendimento e o fechamento do negócio", acrescenta.
Imóveis que custam até R$ 500 mil, financiados dentro do Sistema Financeiro de Habitação (SFH), terão a taxa reduzida de 10% para 9% ao ano. Clientes que tiverem conta-salário na Caixa pagarão taxa ainda mais baixa, de 7,9% ao ano. Já para os imóveis acima de R$ 500 mil, as taxas de juros para todos os clientes passam de 11% ao ano para 10%, caindo para 9% para os clientes do banco. Além da diminuição das taxas de juros, o cliente ainda pode, em determinados casos, financiar até 100% do imóvel, em até 30 anos, além de utilizar o fundo de garantia.
A estratégia adotada pelo Governo federal, de levar as famílias às compras, aquecer o mercado interno e alavancar o crescimento econômico para além dos 2,5% a 3% previstos este ano, é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, injeta ânimo nos setores produtivos, por outro apresenta uma ameaça real: o aumento, ainda maior, do endividamento dos brasileiros. Em Juiz de Fora, a alta de 14% na inadimplência em abril ante o mesmo mês de 2011 já reflete, segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), a política de estímulo ao consumo reeditada neste primeiro semestre. No país, o índice chegou a 23,7% tendo a mesma base de comparação, conforme o Serasa Experian (ver quadro).
Depois do incentivo a aquisição de eletrodomésticos e troca de móveis, com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) prorrogada até junho, os consumidores foram chamados, este mês, a comprarem carro zero com a revisão do IPI e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nos financiamentos para pessoas físicas. Primeiro em abril, e depois na semana passada, o estímulo foi direcionado à contratação de linhas de crédito, com a redução nas taxas de juros pelas principais instituições financeiras públicas e privadas, acompanhando os sucessivos cortes na taxa básica de juros, a Selic. Na última quarta-feira, o corte baixou os juros para 8,5% ao ano, o menor nível da história.
Segundo o professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rogério Mori, as medidas foram motivadas pela perda de impulso econômico verificada desde o segundo semestre do ano passado e pela constatação de que a economia brasileira tem desacelerado de forma recorrente. "O Governo tem procurado estimular o consumo das famílias e a situação do crédito para tentar recuperar o dinamismo da economia." A questão, segundo Mori, é que os consumidores se endividaram "consideravelmente" nos últimos anos, principalmente os de menor renda. Por este motivo, ele acredita na possibilidade de o ciclo de expansão do consumo ter perdido potência em 2011, sendo reeditado este ano na busca de algum crescimento até o final de 2012.
Dívida ‘come’ 22% da renda do brasileiro
Conforme o Banco Central, o endividamento das famílias com o Sistema Financeiro Nacional chegou a quase 43% em março deste ano. O comprometimento de renda do brasileiro hoje é de 22%. O teto aceito pelo mercado gira em torno de 30%. O coordenador de Ciências Contábeis da Faculdade Santa Marcelina (SP), Reginaldo Gonçalves, preocupa-se com os consumidores de menor poder aquisitivo. "Estimula-se o crédito de maneira agressiva. Com isso, cria-se uma grande bolha, em virtude do aumento da inadimplência que vem ocorrendo. Isso prejudicará o sistema financeiro, e o Governo será o principal responsável pela falência das pessoas físicas altamente endividadas e à mercê dos bancos. Se o povo não abrir o olho, ficaremos em situação pior do que os norte-americanos quando estourou a bolha do crédito imobiliário."
Para o economista Antônio Flávio Luca do Nascimento, a redução dos juros, a expansão do crédito e o aumento do prazo de financiamento são em níveis "nunca antes vistos no país" e devem resultar em reaquecimento da economia e reindustrialização do país, minimizando os efeitos persistentes da crise mundial. O risco de aumento da inadimplência, para ele, é real, mesmo que a intenção inicial seja reduzi-la. "Isso deve-se à cultura do brasileiro, que viveu períodos altamente inflacionários e, quando há reversão, corre às compras." Para o economista, a intenção do Governo é também dar oportunidade a quem está inadimplente a renegociar as dívidas em condições mais favoráveis, mas a falta de educação e disciplina financeiras pode contrariar esta expectativa. Antônio Flávio adverte para o risco de aparecimento da inflação de demanda, provocada pela alta dos preços em função do aumento da procura e da redução da oferta à médio prazo. "O Governo deverá ficar atento aos fatos, o que chamamos de risco calculado."
Comércio vive um paradigma, diz CDL
"Queremos vender correndo risco ou não?" questiona o presidente da CDL, Vandir Domingos. Para ele, ao mesmo tempo em que os empresários precisam do incentivo ao crédito, para alavancar as vendas, há a certeza de que essas medidas podem aumentar a inadimplência. "Vivemos um paradigma a ser quebrado." Para Vandir, os lojistas precisam ser mais cautelosos na concessão do crédito, e o consumidor deve realizar suas compras dentro das possibilidades orçamentárias, não observando apenas o limite do cartão de crédito. O comportamento da inadimplência, este ano, está atípico, avalia. Em vez de queda a partir de abril, com o fim das penduras do Natal, observa-se alta de 2,88% ante março. "Compra-se na oportunidade, não por necessidade."
No primeiro quadrimestre deste ano, a inadimplência do consumidor cresceu 19,6%, sendo 4,8% só em abril na comparação com março. Para o assessor econômico do Serasa Experian, Carlos Henrique de Almeida, mesmo com a política de estímulo ao crédito, a expectativa é que exista redução gradual no segundo semestre. A inadimplência junto ao sistema financeiro, que está em 7,5% deve chegar a 6,5%, avalia. "Esperamos que o consumidor endividado se segure um pouco mais e renegocie seus débitos e que os concedentes de crédito sejam um pouco mais prudentes." Para Carlos Henrique, não deve haver descontrole por parte do consumidor. "Não vamos ter uma onda de consumismo", aposta. Quanto a um percentual ideal de comprometimento de renda, o assessor econômico avalia que não há uma regra a ser seguida. "Esse limite varia de família para família. Um solteiro que ganha bem pode comprometer 50% da renda com o pagamento de dívidas. Para quem tem três filhos, fica complicado utilizar mais de 30% dos vencimentos para este fim. Só o consumidor sabe quando está endividado."
Setor automotivo
Na falta de dados para dimensionar a dificuldade de arcar com os financiamentos automotivos em nível local e estadual, o presidente do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG), Mauro Pinto de Moraes, comenta que o índice no país chega perto de 6%, "bem elevado", considera. Segundo ele, se não fosse o apuro na aprovação pelas financeiras, o volume seria ainda maior. Se, por um lado, o rigor na concessão de crédito para aquisição de automóveis restringe a falta de pagamento, por outro, limita as vendas. "O nosso maior problema não era o IPI, mas a aprovação de crédito." Por isso, considera que a redução do IOF nos financiamentos para pessoas físicas deve provocar maior impacto em vendas do que a redução tributária.









