Mais de 70% das startups nunca tiveram investimento

Para especialistas, uma das razões para o gargalo na captação é o fato de o empreendedor buscar investimento na hora errada


Por Agência Estado

03/01/2021 às 07h00

À primeira vista, empreender em negócios de tecnologia parece ser uma aposta certa em tempos de digitalização obrigatória dos negócios e recordes do setor, como na aquisição de empresas e no volume de aportes. Mas um dado obtido pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups) em seu Mapeamento 2020 mostrou que a jornada do empreendedor de tecnologia não é tão simples: 73,8% das startups nunca receberam nenhum tipo de investimento.

Entre as que conseguiram (26,2%), 41,5% receberam aportes de investidor-anjo; 28,4%, seed; e 21,6% de aceleradoras. O restante é dividido por investimentos séries A, B e C. A pesquisa foi realizada entre maio e setembro deste ano com três mil empreendedores do ecossistema nacional de startups e também teve como apoio os dados do Startupbase (com cinco mil startups), da ABStartups. Hoje, há mais de 13 mil startups no país.

O gargalo na captação de investimentos não pareceu surpreender os especialistas ouvidos pela reportagem. No entanto, cada um apresentou um olhar diferente sobre o tema. De acordo com as análises, há três pontos-chave para entender a questão: o empreendedor está buscando investimento na hora errada; o investidor não diversifica seu portfólio, buscando empresas que fazem a mesma coisa; e o investidor aposta no empreendedor mais do que na sua ideia. Em comum, os especialistas são categóricos: nunca se teve tanto dinheiro no Brasil para investir em startups

Para Amure Pinho, presidente da ABStartups, empreendedor e também investidor profissional que já fez aportes em 29 startups, há um desequilíbrio claro entre o volume de startups e o de investidores ou fundos. “Há mais startups buscando investimento do que investidores dispostos a aportar capital. O problema é que, quando essa equação pende para o lado do investidor, a tendência é que ele suba a régua na hora de decidir em quem investir”, afirma.

De acordo com Amure, a maioria das startups buscam investimento na fase de ideação do negócio, quando ainda está pensando como resolver um problema. “E nessa hora, erroneamente, ele vai em busca de capital. Quando declara que não conseguiu investimento, não é pela falta do dinheiro. É que provavelmente ele não conseguiu provar tração para o investidor.”

O presidente da entidade ressalta que, na corrida por investimento, o empreendedor que já conseguiu gerar receita é visto de outra forma pelo mercado. “Sua empresa está rodando e já tem um cliente? Comece a mandar o seu report para os investidores.”

Segundo a pesquisa da ABStartups, 41,9% das startups não têm faturamento, 13,5% faturam entre R$ 50 mil e R$ 250 mil por ano e 11,8% faturam entre R$ 10 mil e R$ 50 mil por ano.

Base tecnológica que tenha tração

Validar a solução no mercado e aumentar o número de clientes são os principais fatores para os investidores prestarem atenção na startup? Depende. Segundo Daniel Ibri, professor do Insper e presidente executivo do fundo Mindset Ventures, o investidor que existe no Brasil é muito único”. “Quando você olha para os Estados Unidos, você vê que eles têm investidores especializados em todo tipo de coisa: em várias verticais (setores), em vários estágios, em vários modelos de empresas. A maioria dos investidores no Brasil, principalmente de venture capital, olha para a mesma coisa.

Daniel apresenta um exemplo claro de como alguns tipos de negócios não são vistos como ‘fundable’ no Brasil: a startup de tênis Allbirds, que se tornou sensação no Vale do Silício. “Um negócio desse nunca iria decolar no Brasil. Não é que falta dinheiro, mas falta dinheiro com carimbo para esse tipo de negócio.”

O especialista acredita que essa é uma característica de um ecossistema que ainda busca maturidade e alerta que o excesso de capital não significa oportunidade para criar uma startup. “Tem gente que fala ‘vou empreender porque agora todo mundo virou unicórnio’. É muito mais difícil do que parece.”

Gabriel Novais compreende bem o cenário. Formado em administração e com mais de dez anos de carreira, ele fundou ao lado de Rafael Papa (formado em marketing, com 13 anos de carreira e especialização em Stanford) o marketplace de bicicletas e esportes outdoor Semexe, em janeiro de 2019.

A empresa acaba de receber o primeiro aporte de um investidor institucional, o fundo OutField Capital. E já teve aporte de um investidor-anjo, e os dois aportes somam R$ 2 milhões. “O que eu vejo é que o fato de ser uma ideia inovadora não significa que ela consegue se tornar uma empresa bilionária. A gente ouviu de alguns fundos: a gente gostou de vocês como fundadores, a gente acredita no business, mas a gente não acredita que consiga valer X bilhões de dólares e é só assim que a conta fecha para a gente”, conta Gabriel.

Outro ponto, destaca ele, é o relacionamento que o empreendedor deve construir com o investidor. “No final, os fundos investem muito mais nas pessoas do que nas ideias. A gente vem trabalhando também em criar esse laço com quem tem esse poder de decisão. ”