Diplomado em vaga de nível médio
Depois de dedicar seis anos de estudos e investimentos numa faculdade de comunicação social e outros dois em pós-graduação, Ana Paula Figueiredo Guedes, 26 anos, trocou a profissão de jornalista pelo cargo de assistente administrativo de uma companhia. "Ainda na faculdade, percebi a dificuldade para trabalhar na minha área." Ana Paula recebeu o diploma em agosto. Três meses depois, exercia a nova função. Na balança, avalia, pesou a constatação de que o salário acrescido dos benefícios indiretos da função de nível médio se aproximam do vencimento pago no nível superior na cidade. "Em Juiz de Fora, os salários são muito baixos."
Ana Paula não está sozinha. Cerca de 50% dos profissionais com curso superior no país atuam em ocupações que exigem, no máximo, nível médio, conforme estudo desenvolvido pelo diretor do Instituto de Economia (IE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), João Sabóia. Na falta de dados para dimensionar a realidade juiz-forana, alguns indicadores apontam que a cidade segue a tendência nacional. Só a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) injeta no mercado cerca de 2.600 recém-formados por ano. Em julho, foram 1.077, o equivalente a 70% dos empregos com carteira assinada criados na cidade no acumulado dos sete primeiros meses do ano (1.522), conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Outro dado que aponta nesse sentido vem do cadastro anual do Sindicato do Comércio (Sindicomércio): 40% dos 1.300 candidatos a uma oportunidade no comércio (prioritariamente com exigência de segundo grau) são graduados.
Em entrevista à Tribuna, Sabóia explica que chegou ao percentual de 50% a partir dos dados do Caged 2010. O resultado o surpreendeu. "O fato de uma pessoa fazer grande esforço para pagar seus estudos durante vários anos e depois não conseguir um bom emprego em sua área de formação cria grande frustração, além de representar desperdício de dinheiro e de horas dedicadas ao estudo." Na sua opinião, há descompasso entre oferta e demanda. Sabóia cita a vasta oferta de cursos em áreas, como direito e administração, sem a devida contrapartida em oportunidades de emprego. Em compensação, identifica falta de mão de obra em carreiras como engenharia, física, química, matemática e saúde. "É claro que o fato de se possuir um diploma universitário é melhor do que apenas ter o segundo grau. Mas não faz sentido a pessoa se formar, por exemplo, em letras para trabalhar como vendedor, escriturário ou chofer de táxi. Isso me parece um desperdício."
A dificuldade de conseguir uma colocação levou José Severino Ramos, 50, a enviar uma carta à redação da Tribuna, na última semana. Ele é bacharel em ciências contábeis e tem 25 anos de experiência no comércio. Ramos e a esposa, que é graduada em Biologia, chegaram à Juiz de Fora em março, vindos de Penápolis, São Paulo. "Já mandei uns 80 currículos, mas não tenho resposta, por isso mandei a carta para pedir ajuda." Segundo ele, nas poucas oportunidades disponíveis, o salário oferecido é muito baixo, considerado insuficiente para manter a família. "O seguro-desemprego acabou há dois meses, e estamos sobrevivendo com a ajuda de parentes."
Especialistas: cidade tem ‘fuga de cérebros’
"A impressão que tenho é que a maioria que se forma vai embora", comenta o pró-reitor de Graduação da UFJF, Eduardo Magrone. Para ele, o problema de Juiz de Fora são as poucas oportunidades para os graduados, incentivando a migração para os grandes centros. Segundo Magrone, em setores desenvolvidos na cidade, como saúde e construção civil, é possível encontrar empregos na área de formação. O pró-reitor identifica, ainda, a prevalência de serviços e comércio e a necessidade de diversificação da economia local. Ele destaca a importância das micro e pequenas empresas na criação de empregos e considera que, na medida em que forma e exporta seus talentos, Juiz de Fora perde riqueza.
Para o professor da Faculdade de Economia da UFJF, Ricardo Freguglia, a migração de trabalhadores da cidade é uma realidade, já que muitos que se formam aqui encontram oportunidades de trabalho nos grandes centros. "Trata-se do fenômeno da fuga de cérebros." Freguglia realiza pesquisa sobre o tema, cuja meta é identificar os determinantes da mobilidade dos trabalhadores com, pelo menos, curso superior entre os estados. "Os resultados mostram que os profissionais mais educados (com curso superior ou mais) têm a possibilidade de mudar de emprego com ganhos salariais."
De acordo com o economista, estes profissionais se dirigem para os estados com maior prosperidade econômica e dinamismo no mercado de trabalho. "Isto pode explicar a não absorção dos profissionais mais qualificados no mercado de trabalho de Juiz de Fora." Na sua opinião, a escolaridade é diretamente proporcional à probabilidade de se inserir no mercado de trabalho e à remuneração. "O trabalhador mais escolarizado também encontra empregos de maior estabilidade, podendo se manter no vínculo por um tempo maior."
O analista de sistemas Jamil Dias, 27, é um dos que saíram de Juiz de Fora. Ele foi para Belo Horizonte há cinco meses e conta que a mudança foi motivada pela oportunidade de aprender novas tecnologias e pela constatação de que a média salarial na capital é mais alta do que na cidade. "O mercado de tecnologia da informação (TI) de Juiz de Fora é restrito, existem poucas empresas de médio e grande porte." Jamil não descarta a possibilidade de voltar para cá, de acordo com a oportunidade profissional e a contrapartida financeira. Segundo dados do Relatório Anual de Informações Sociais 2010 (Rais), o salário médio do juiz-forano é de R$ R$ 1.346,96.
Para o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico, André Zuchi, Juiz de Fora tem mercado para profissionais com nível superior, "sempre teve". Na sua opinião, com a chegada de novas empresas e a expansão das já existentes, estas possibilidades podem ser ampliadas, com elevação da média salarial. "A indústria paga salário melhor." Zuchi considera, no entanto, que o "boom" será percebido com a concretização do Parque Científico e Tecnológico de Juiz de Fora e Região, previsto para ser inaugurado em 2012. "O parque vai atrair negócios com base tecnológica, absorvendo mais o profissional com curso superior e qualificado, oferecendo salário maior." O secretário de Desenvolvimento Tecnológico da UFJF, Paulo Nepomuceno, foi procurado para falar sobre o parque, mas não se posicionou sobre o assunto.
Mercado exige mais requisitos
O presidente do Sindicomércio, Emerson Beloti, identifica o crescimento da oferta de mão de obra graduada para funções de nível médio. Na sua opinião, o canudo já foi um grande diferencial, mas hoje os requisitos exigidos pelo mercado são inovação, atitude e compromisso. "As pessoas se formam, mas não têm essas qualidades que o empresário procura." Para ele, o diploma ajuda, mas não garante a contratação, mesmo quando a exigência por escolaridade é menor.
No Grupo Let em Juiz de Fora cerca de 55% das oportunidades abertas são para diplomados. "O percentual está bem diferente em relação a alguns meses, em que a maior demanda era na área operacional, com requisito até ensino médio", afirmam as analistas de Recursos Humanos (RH) Céres Cristina Poggiali Gasparoni e Maria Carolina Araujo Pedroso. Dentre os setores com maior procura por estes profissionais estão: administrativo, vendas e gerencial.
Para as analistas, apesar de haver muitos candidatos graduados no mercado, há certa dificuldade no preenchimento de algumas vagas. Elas explicam que as empresas exigem competências e experiências que nem sempre estão desenvolvidas nos candidatos, mesmo após a faculdade. "Alguns contratantes desejam certa experiência na área, outros procuram perfis gerenciais, em que a liderança é almejada", avalia Maria Carolina. Céres analisa que, por vezes, o perfil comportamental dos candidatos não é compatível com as exigências do cargo. "Isso pode ser visto na dificuldade de se encontrar candidatos maduros para assumir cargos de gestão, por exemplo."
Com frequência, avaliam, o que se vê, na prática, é o preenchimento de vagas de ensino médio pelos que possuem graduação. Além do diploma, comenta Maria Carolina, são exigidos especialização na área de atuação, experiência, fluência em um outro idioma, conhecimento de informática e características, como proatividade. "O candidato poderá ocupar cargos que exijam ensino médio quando forem compatíveis com suas competências e quando é possível se realizar profissionalmente dentre as condições de trabalho oferecidas", considera Céres.
Já no Sistema Nacional de Emprego (Sine) Juiz de Fora, cerca de 80% da procura e da oferta por vagas concentram-se no nível fundamental. Os 20% restantes dividem-se entre demanda por ensino médio e superior, conforme a coordenadora regional Maria Elizabeth Garcia. "O curso superior não tem uma procura significativa, por enquanto." Com a implantação do Sistema Mais Emprego e a unificação das informações, a tendência é que se abra mercado para este profissional, avalia.









