Beth Goulart traz Clarice Lispector para o palco do Cine-Theatro Central
Peça premiada ‘Simplesmente eu, Clarice Lispector’ volta a cartaz após uma década e usa depoimentos, entrevistas e correspondências da escritora

Em “Perto do coração selvagem”, Clarice Lispector escreveu: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. É dessa frase que a atriz Beth Goulart se lembra quando vai falar da escritora — o que sente ao interpretar “Simplesmente eu, Clarice Lispector” também ainda há de ser nomeado. A peça, que chega aos palcos do Cine-Theatro Central neste sábado (1º), às 20h, para apresentação única em Juiz de Fora, foi responsável por trazer à atriz o status de criadora e por incentivar mais de 1 milhão de pessoas a se aprofundarem na obra da escritora, quando foi a cartaz pela primeira vez entre 2009 e 2014. Uma década depois, quando Beth completa 50 anos de carreira, ela volta para os palcos para interpretar o monólogo, que lhe rendeu o Prêmio Shell de melhor atriz, dessa vez com novos contornos e interpretações. “Enquanto houver um público querendo ver esse trabalho, tenho esse compromisso”, revela a atriz.
Toda a peça usa de depoimentos, entrevistas e correspondências de Lispector, além de fragmentos de algumas de suas obras mais emblemáticas, como os romances “Perto do coração selvagem” e “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” e os contos “Amor” e “Perdoando Deus”. “Passei por dois anos de pesquisa me aprofundando nesse material, lendo tudo que eu podia sobre a Clarice. Eu ia abrindo a minha percepção para adentrar nesse universo tão especial e maravilhoso de Clarice Lispector”, conta. Nesse caminho, também foram importantes para entender a mulher por trás da autora materiais como a correspondência dela para as irmãs, por exemplo, e o depoimento para a posteridade que ela deixou para o Museu da Imagem e Som do Rio de Janeiro, além da entrevista que deu para a TV Cultura. “Fui costurando, com todo esse material na mão, uma grande colcha de retalhos, construindo essa figura narrativa para apresentar para o público”, explica.
A narrativa concebida e dirigida por Beth entrelaça a autora e as vozes de quatro personagens femininas: Joana (que representa o impulso criativo de “Perto do Coração Selvagem”), Lori (uma professora primária que se prepara para descobrir e se entregar ao amor na obra “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres), Ana (uma personagem dedicada ao marido e aos filhos, no conto “Amor” ) e a mulher sem nome (com sua ironia, inteligência e humor, de “Perdoando Deus”), que representam diferentes momentos da vida e do pensamento de Clarice. É essa presença da autora que quis marcar na obra: “Esse lugar de gênese da obra, do pensamento por trás da ação dos personagens é o que eu quis traduzir no espetáculo. Faço ela falar dos personagens para depois voltar a ser ela mesma. Quando fazemos isso à frente do público, propomos essa percepção de que ela estará sempre presente por trás de seus personagens. Quis corporificar essa ideia de que ela está imersa na própria obra, faz parte da própria obra.”
Toda a linguagem do espetáculo foi pensada a partir de um jogo cênico que se centra na figura do ator, “quase como uma partitura escrita pelos gestos”. Para isso, foi preciso também de um trabalho de seis meses com o texto e o próprio corpo, e entender como incorporar os silêncios e os vazios da obra de Clarice na dramaturgia. “Trazendo todo esse material artístico para dentro de mim, saiu uma figura híbrida, meio ela, meio eu, que se conecta com o público todos os dias”, explica. E é uma figura que, dez anos após o primeiro encontro com seus espectadores, continua em permanente mudança. “Cada dia que eu entro em contato com esse texto, que eu falo esse texto, que eu sinto essas palavras, descubro coisas novas. É difícil definir em uma única palavra ou frase tudo que eu descubro sobre a Clarice. Talvez o que seja mais importante nessa relação dela comigo é o que ela me revela a cada noite”, diz. A peça faz parte da 24ª edição do Teatro em Movimento em Juiz de Fora, que tem patrocínio master da Cemig, via Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais.
50 anos de carreira

O primeiro encontro de Goulart com Lispector foi ainda bem jovem — e, como costuma acontecer, completamente marcante. “A adolescência é um momento muito introspectivo e doloroso, porque estamos querendo descobrir quem somos, e para isso tentamos nos distanciar das referências que conhecemos. Nesse mergulho do desconhecido, Clarice segurou minha mão”, relembra Beth. Ela conta que uma amiga a disse que a leitura da escritora é sempre uma “leitura de trabalho”, o que fez muito sentido em relação a como se sentiu. “Aquelas palavras vão entrando em você, e quando percebemos estamos lendo a si mesmos. (…) É sempre um encontro comigo mesma, com a minha alma, e com a descoberta do mundo.” Por isso mesmo, o encontro continuou acontecendo.
Esse entendimento de quem ela era, na adolescência, teve um significado forte. Mas aos 64 anos, e com 50 anos de carreira, já passa a ter outro que, em sua visão, passou a ser ainda mais importante, e que foi passando a ser incorporado por ela a cada leitura de Lispector. “Esse olhar da maturidade me traz a sabedoria maior de viver”, diz. Também foi essa percepção que fez com que a atriz decidisse de vez voltar com o espetáculo, depois de dez anos, dessa vez sabendo que é outra mulher: nesse tempo, perdeu seu pai, Paulo Goulart, e sua mãe, Nicette Bruno, figuras centrais em sua vida, além de ter passado pela pandemia de Covid-19. “Todos nós fomos transformados nessa década. Fico muito feliz que, passado esses 10 anos e todas essas experiências de vida que vivenciamos, eu, pessoalmente e nós, enquanto sociedade, que a força do teatro continue tendo essa potência de comunicação.’
Apesar das perdas, o que não passou, para ela, foi justamente essa força da relação com a arte, que transborda para o teatro, cinema e televisão. “Cada dia é uma descoberta nova, um novo desafio, uma nova entrega. Isso me alimenta e me faz ter vontade de continuar, de conquistar novas e realizar novos trabalhos, sempre em busca desse novo”, conta sobre o que considera melhor na passagem do tempo. É também por isso que, como revela, quase não percebeu o aniversário de profissão. “Estava tão envolvida em cada um desses trabalhos, que o caminhar foi um processo natural. O tempo existe se contamos ele, se não contamos, só passa.”
‘É o mistério’

“Clarice é o mistério”, diz Beth. Talvez seja a única forma que a atriz encontrou de chegar a alguma definição próxima da autora. E é esse mistério que entende que vale a pena perseguir. “Me dá uma alegria imensa saber que há uma geração nova descobrindo a obra de Clarice, e que o espetáculo dialoga diretamente com essa nova geração. Isso faz com que a nossa arte tenha tido uma comprovação. Significa que você encontrou um lugar de diálogo, de conexões de almas e de pensamentos que continuam ecoando”, conta. O que nasceu, para ela, como uma escolha para o incentivo à leitura, segue sendo uma possibilidade de promover “vários olhares e compreensões”.
O que a define como uma artista única, para Goulart, é justamente isso. “Em ‘A aprendizagem ou o livro dos prazeres’ ela começa com uma vírgula e termina com reticências, é de uma ousadia incrível. Faz a gente entender que tudo que está sendo contado ali é um fragmento de uma vida”, diz. Vivenciar parte desse mistério, dessa vez em cena, é o que busca fazer — mas, diferentemente da leitura, não quer que a caminhada seja sozinha. E convida desde os amantes de Clarice aos futuros leitores para comparecerem. “O teatro talvez seja a arte que mais nos proporciona essa experiência coletivamente. Cada uma das pessoas ali é impactada pela presença do outro.”









