O álbum do feliz acaso

Milton Nascimento e Dudu Lima voltam a fazer shows do projeto ainda este ano
Uma boa causa (a preservação das tartarugas marinhas) resultou na gravação de um álbum que reúne mais do que amigos musicais, visto que são representantes do jeito mineiro de fazer música. “Tamarear” (Som Livre/MP,B) é a união de um dos mais relevantes nomes da Música Popular Brasileira das últimas cinco décadas, Milton Nascimento, com um dos mais respeitados grupos das Geraes, o Dudu Lima Trio. Parte da renda obtida com os discos vendidos será revertida para o Projeto Tamar, que tem por objetivo a preservação de quelônios de água salgada sob risco de extinção.
Reunindo 11 composições em nove faixas, o disco apresenta releituras de canções de Milton criadas pelo trio (que, além de Dudu no contrabaixo e arranjos, conta com Ricardo Itaborahy, nos teclados e piano, e Leandro Scio, na bateria e percussão) na voz do próprio Bituca (“Clube da Esquina Nº 2”, “Fé cega, faca amolada”, “Gran Circo”), além de músicas do Dudu Lima Trio (“Nascimento”, “Belafonte”), uma nova roupagem para “Meditação”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, e a inédita “Tamarear”, escrita por Guy Marcovaldi.
Segundo Dudu Lima, o álbum surgiu de uma série quase que inacreditável de eventos que, ao se desenrolarem, resultaram em mais uma iniciativa que une cultura e preservação de uma parte da fauna marinha brasileira. Entre 2008 e 2010, quando participou de um festival de jazz perto da base do Tamar, em Sauípe, Dudu teve a oportunidade de conhecer e manter contato com Guy Marcovaldi, criador do projeto. Foi dessa proximidade que as afinidades musicais começaram a desenhar a trilha que resultaria em “Tamarear”.
“Fui passar férias com a minha esposa na região, tempos depois, e resolvi visitar o Guy, que propôs que eu fosse ao estúdio para gravar, de forma caseira, o baixo para uma música que ele havia composto, ‘Tamarear’. Meses depois, ele me chamou para ir lá novamente e conversar sobre a música e a ofereceu para que eu fizesse o arranjo, a harmonia, o que eu quisesse. Disse ainda que só não podia mudar a letra e que o plano era poder convidar o Stanley Jordan para tocar guitarra”, conta Dudu.
O contrabaixista aceitou a proposta e gravou “Tamarear” com o trio, tendo Ricardo Itaborahy nos vocais. “Ele adorou, mandou uma mensagem, emocionado, mas ainda não tinha plano.” Como estava em turnê justamente com Stanley Jordan, Dudu mostrou a composição para o guitarrista americano, que aprovou a música e aceitou o convite para participar da canção, com a gravação sendo feita em Florianópolis. Guy Marcovaldi sugeriu que eles aproveitassem a ocasião para gravar uma segunda música, e Dudu Lima tirou do baú a instrumental “Belafonte”, de 1995, que também recebeu a guitarra de Jordan.
Como há momentos em que o universo parece conspirar a favor, não importa o que o sujeito faça, Dudu lembra que foi terminarem a gravação para o seu telefone tocar. “Um amigo em comum meu e do Milton Nascimento, Ricardo Campello, disse que o Milton estava indo para a casa dele e queria encontrar comigo. Eu disse que estava com uma música que havia acabado de gravar (‘Tamarear’) e que gostaria de mostrar para ele, a fim de saber se gostaria de cantar conosco. O Milton ouviu a canção e disse que estava linda, pronta, e não tinha nada mais para acrescentar. Sugerimos então que ele colocasse a voz junto à do Ricardo, e dessa música veio a ideia de fazer a turnê do trio com o Milton para o Projeto Tamar”, diz Dudu. No total, foram cerca de dez shows entre 2013 e 2014, que passaram por locais onde o Tamar tem marcado sua atuação, como Ubatuba (SP), Fernando de Noronha (PE) e Sauípe (BA).
Com a turnê encerrada, aí sim veio a ideia de se fazer um álbum a partir do repertório da turnê. O Dudu Lima Trio gravou em Juiz de Fora, em 2014, no esquema “ao vivo no estúdio”, as demais composições que entraram em “Tamarear”, com Milton registrando as vozes no Rio de Janeiro graças ao estúdio móvel de Ricardo Itaborahy. Das duas composições que originaram todo o projeto, “Belafonte” ganhou a voz do Bituca declamando uma poesia escrita por Guy Marcovaldi. “Quando o disco já estava gravado, o empresário sugeriu que o álbum entrasse na discografia do Milton, pois ele havia gostado muito do resultado e já estava envolvido no projeto. E pensar que nada disso foi pensado, de um telefonema casual toda essa história surgiu.”
Após o show realizado em Aracaju (SE) em agosto, para lançar o álbum, Dudu Lima Trio e Milton Nascimento voltam a se encontrar entre o final deste ano e o início de 2016 para a turnê de divulgação do disco. Se depender dos quatro artistas, as tartarugas brasileiras terão vida boa por muito tempo.









