Para além do Paraibuna
Laços dos mais estreitos prendem a identidade de Juiz de Fora a sua memória. E é por meio da literatura que, em muitas vezes, tal memória vem à tona, intacta. Dando continuidade a um trabalho cultivado dia a dia, há anos, as escritoras, professoras e pesquisadoras Leila Barbosa e Marisa Timponi lançam, na noite de hoje, no Museu de Arte Murilo Mendes, Um olhar poético sobre Juiz de Fora. A obra, que tem apoio da Lei Murilo Mendes, reúne textos literários de 58 autores juiz-foranos e trata de espaços e eventos referenciais da cidade, que se mostra única, a mesma ou outras tantas, a partir da visão de seus poetas, escritores e jornalistas.
Tendo como cerne o trabalho de pesquisa História literária de Juiz de Fora – que já rendeu outras publicações, dentre elas, Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos (2009), livro indicado para o Prêmio Jabuti de 2010 -, o livro reafirma a vocação juiz-forana para a cultura e para o pioneirismo, resgatando seu dom de representá-los pelas letras. Foi quando iniciamos o trabalho de pesquisa, nos anos 1980, que descobrimos como Juiz de Fora era extremamente rica em cultura, e poucos conheciam e valorizavam isso, conta Leila, lembrando-se que, tempos depois, quando a margem veio para o centro, a literatura então menor da cidade começa a assumir sua real importância. Temos uma gama muito importante de escritores, poetas, o que nos permitiu ir mais fundo e dar continuidade nesse trabalho de resgate, levando Juiz de Fora para além do Paraibuna, avalia Leila, gratificada por saber que alunos e novos pesquisadores também se enveredam pelo mesmo caminho.
Como ressalta Marisa, Murilo Mendes, um dos grandes memorialistas da cidade, definiu Juiz de Fora como um trecho de terra cercado de pianos por todos os lados. A literatura local tem como traço o memorialismo, com dois grandes expoentes, Murilo Mendes e Pedro Nava. Ao falar da cidade, os autores ressaltam esse apreço pelo cultura, buscando seus emblemas, lugares que se destacam e simbolizam Juiz de Fora, prossegue Marisa.
Mais que reunir fragmentos de obras, em sua maioria, já publicadas, de autores e artistas locais, como Belmiro Braga, Dnar Rocha, Arlindo Daibert, assim como de contemporâneos como Rodrigo Barbosa e Iacyr Anderson Freitas, o livro apresenta-se como um álbum de arte, um cartão-postal, ilustrado por Valéria Faria. Fotografias antigas, cedidas pelo site Maria do Resguardo, sofrem modificações, recortes, ganham novos símbolos. Há uma quebra das imagens no sentido de construir, avalia Marisa. Imagens que dialogam a todo tempo com o texto, interferem no passado com sua modernidade, destacando também outros tipos de cultura que não a literária, mas da dança, da música, do carnaval, da história, como acrescenta Leila.
Um casarão, Pedro Nava, a chancela dos Correios para que uma correspondência siga o seu destino, arabescos, desenhos marginais, um quadrúpede voador. Parecem coisas impossíveis de comporem uma mesma ilustração. Mas essa é apenas uma das improváveis, mas geniais, ilustrações de Valéria Faria para este livro, define o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, que assina o prefácio da publicação. Há momentos em que as ilustrações parecem bricolagens aleatórias, como se tudo que existisse na cabeça da artista sobre a cidade tivesse sido chacoalhado e depois as imagens fossem sendo liberadas para se fixarem sobre folhas de papel, mas em ordem e por vontade própria, para então aparecerem maravilhosas, completa ele.
Adjetivos em imagens
Em uma mistura na qual se destacam e se completam crônicas, poesias e reportagens jornalísticas, são reviradas memórias que arquivam nosso histórico Morro do Imperador, com o Cristo a nos proteger; o Parque Halfeld, no coração da cidade; a rua convergente dos encontros e desencontros, a Halfeld; o Rio Paraibuna, de águas pardas; o Museu Mariano Procópio, o segundo mais importante do Brasil, pela referência à história do imperador dom Pedro II; seus saudosos bondes; os bares aconchegantes, espaço-origem da cultura musical e literária da cidade; o folclore que faz de Juiz de Fora um traço a mais na mineiridade; e, por fim, seus célebres carnavais com escolas de samba, comprovando o pioneirismo que reina nesta terra propensa a ser o coração de Minas Gerais, como enumeram as autoras.
O trabalho alcança, lembra Dutra, um feito pouco comum ao ser, ao mesmo tempo, belo e acadêmico. Somos professoras da comunicação, por isso tentamos aplicar uma linguagem informativa e agradável, que tenta atingir o maior número de pessoas, ressalta Leila. Para ela, é essencial abdicar, em certos momentos, de olhar a cidade com olhos de realidade, que acusarão as crueldades, as feiuras e a sujeira da urbe. É uma necessidade do homem acessar seu imaginário para ver a beleza representativa a cada um. O ‘olhar poético’ é uma tentativa de permitir que as pessoas olhem a cidade com o coração, diz. Ao falar com emoção e com uma linguagem direta, o adjetivo está na própria imagem que a linguagem traz, reafirma Marisa.
Ao habitar o imaginário de seus moradores, a cidade se revela plural, mesmo espaço urbano no qual é possível identificar cidades distintas. Embora muitas vezes se perca seu brilho por esbarrarmos em intempéries e outras circunstâncias, há muito encantamento aqui. É a cidade que me adotou, da qual sou cidadã honorária. Tenho um olhar de quem consegue enxergar além da marquise, vendo e valorizando esse mosaico que vai sendo moldado pelo antes, o agora e o depois, diz Marisa.
Cada um tem a sua cidade, mas acredito que uma forte característica de Juiz de Fora seja a facilidade de atrair quem a visita para que, de alguma forma, queira voltar ou falar daqui, elucida Leila. Um dos exemplos citados por ela é o doutor em psicologia, escritor e advogado Jacob Golberg, que em suas poesias de Rua Halfeld, Ostroviec, mergulha em sua infância e adolescência vividas na pioneira e industrial Juiz de Fora para compará-la às lembranças familiares no mapa da Polônia. A memória de Juiz de Fora, da Rua Halfeld, no coração da cidade, permeia diversos escritos de Goldberg, assim como desponta em obras de tantos outros que por aqui nasceram ou passaram.
Juiz de Fora é uma cidade acolhedora, que ainda é, e espero que continue sendo, boa de se viver, em sua intelectualidade sempre presente. Se não é das mais ricas financeira ou economicamente, é uma das mais ricas em cultura do país, uma cultura democrática, que se espalha por toda parte, diz Leila. A cultura é nosso carro-chefe, o que nos permite ser reconhecidos como grande cidade, finaliza Marisa.
UM OLHAR POÉTICO SOBRE JUIZ DE FORA
Lançamento hoje, às 19h
Mamm
(Rua Benjamin Constant 790)









