Andrea Portela tem obras selecionadas para Grande Salão de Arte Anual de Paraty

Artista que mora em Juiz de Fora foi uma das 30 selecionadas para compor exibição na Galeria Platô 18


Por Elisabetta Mazocoli

31/03/2026 às 06h00

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Andrea Portela e Bruno Portella (curador da exposição) durante estreia em Paraty (Foto: Divulgação)

A artista Andrea Portela foi selecionada para participar de exposição no Grande Salão de Arte Anual de Paraty, que ocorre na maior galeria da cidade e conta com a presença de 30 nomes de todo o país. Desde 2023, ela está traçando uma trajetória que usa pinturas com tinta acrílica e gravuras para abordar a relação das pessoas com o mundo moderno que vivem, a forma que se deslocam e o que buscam nesse espaço. Essa conexão também envolve uma mescla bastante forte entre arte e natureza, dois aspectos do mundo que ela enxerga com muita relação. Foram escolhidas quatro obras de sua autoria para compor a Galeria Platô 18, incluindo “Simbiose” (2024), “Eji Alaketo“ (2024), “Matéria composta” (2026) e “Subterrâneos” (2026). A exposição segue até 30 de abril na cidade histórica.

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‘Eji Alaketo’ é uma das obras exibidas em Paraty (Foto: Divulgação)

Apesar dos quadros selecionados terem sido produzidos em momentos diferentes, ela entende que há muitos elementos em comum entre eles, a começar pela temática. Isso porque, à sua maneira, como ela explica, todos apresentam uma reflexão sobre o meio ambiente. Em “Simbiose”, por exemplo, esse olhar está presente por meio do verde e das folhas, enquanto em “Eji Alaketo” ocorre pela representação de um jogo de búzios de forma que sinalizasse respostas positivas do universo. Já “Matéria composta” e “Subterrâneos” foram consequência de um projeto artístico que começou em 2025, quando começou a pintar a partir de paisagens de suas viagens. 

Ela, então, entendeu que suas pinturas também tinham um traço forte do abstrato — e desenvolveu paisagens que se conectam mais com os sentidos. “Me encontrei muito nesse tipo de trabalho, porque são paisagens de lugares específicos, do Brasil, mas também abstratas, que falam de emoções e da minha história”, explica ela, que conta que se baseou em anotações que tinha dos lugares que já passou e onde também morou. Nascida em Miraí, ela revela que também já se mudou bastante, o que afetou sua noção de deslocamento e até de uma vida mais “nômade”, além de uma visão diversa sobre o Brasil. Nessas duas obras, então, ela usou um trabalho inspirado na encáustica fria (que é feita com cera de abelha ou carnaúba) mas usando a tinta acrílica para esse efeito.

Ter encarado a arte como sua principal ocupação foi algo que, como conta, levou tempo, mas que foi cada vez sentindo mais necessidade, inclusive quando estava na área de Pedagogia e Moda. “Eu sempre desenhei, pintei e criei coisas, mas em alguns momentos da vida a gente acaba afastado dessa possibilidade. A gente cresce e nem sempre encontra abertura na arte”, relembra. Desde que passou a se dedicar integralmente a esse trabalho, em 2023, ela vem desenvolvendo várias obras que dialogam com essa temática, que já foi também explorada nas exposições individuais “Subjacente” (2024) e “Quase presença” (2025). “Parece que estou sempre continuando como se fosse uma única história”, conta ela, que também estuda pintura e processos com Roberto Tavares, no Centro de Artes Calouste Gulbenkian.

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'Matéria composta' (2026) (Foto: Divulgação)

Entre arte e natureza

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‘Simbiose’ foi pintada em 2024 e também foi selecionada para exposição (Foto: Divulgação)

Levar suas obras para Paraty, um lugar que por si só já une arte e natureza, traz mais uma camada a esse trabalho. Para ela, é a chance do encontro com outros artistas que também estão criando e explorando materialidades diferentes da sua, assim como um público disposto a interpretar suas obras de diferentes maneiras. “A oportunidade de mostrar o nosso trabalho é o que dá sentido à arte. Não adianta fazer e ninguém ver. Precisamos desse olhar do outro”, destaca. Andrea também ressalta que, após a tragédia que a cidade vivenciou com as chuvas em fevereiro, movimentos como esse ajudam a reconstruir a autoestima da cidade.

Até porque ela entende que, na arte, a relação das com territórios e os espaços que se vive está sempre presente. Ela comenta que as discussões contemporâneas sempre podem encontrar ecos na arte, e que também acredita que a cultura possa servir como ferramentas de cura social, acolhimento e reconhecimento do outro. Reflete, por exemplo, sobre esse movimento constante e a busca de um horizonte. ”É um sentimento de fuga que o homem contemporâneo tem vivido. Nada é o suficiente, nada nos prende. Estamos sempre querendo escapar. Nunca vivemos esse sentimento como temos vivido”, explica ela. 

Andrea também conta que, quando começou a trabalhar com paisagens, viu que estava dialogando com uma vontade maior, do homem, de plenitude que é vivenciado tanto na observação da natureza quanto na observação da arte. “Tanto na arte quanto na natureza, vivemos um momento único e diferente, que é um contraponto ao nosso cotidiano de pressa, confusão e superficialidade. Quando paramos para observar um quadro ou uma paisagem, nos assentamos, temos tempo. É como se fosse uma oportunidade de parar o tempo”, reflete. Para ela, estar de frente com uma paisagem ou com um quadro provoca mudanças. “Pendurar um quadro na parede não é um ato banal. A arte nos faz refletir, pensar, indagar”, diz.