A vitória da independência
Tiradentes – O longa "A cidade é uma só?", de Adirley Queirós, do Distrito Federal, e o documentário "HU", de Pedro Urano e Joana Traub Cseko, foram os grandes vencedores da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que teve os premiados anunciados na noite de sábado. As duas produções receberam o troféu Barroco de melhor filme, pelos júris da crítica e jovem, respectivamente. A cerimônia, que marcou o encerramento do evento na tenda armada no Centro Histórico, também terminou com o longa "O mineiro e o queijo", de Helvécio Ratton, eleito como o melhor pelo júri popular. Entre os curtas, "Quando morremos à noite", de Eduardo Morotó, do Rio de Janeiro, foi o preferido da crítica, enquanto o paulista "L", de Thais Fujinaga, foi o escolhido pelo júri jovem.
Iniciada no último dia 20, a mostra recebeu um público de mais de 35 mil pessoas, segundo a organização, que assistiu a 116 filmes ao longo de nove dias de programação. Como tem sido reforçado a cada edição, o evento tem um olhar especial sobre o circuito independente. De acordo com a coordenadora-geral, Raquel Hallak, essa preocupação se desdobra em diálogos conceituais, que auxiliam na compreensão do panorama atual do cinema brasileiro.
Ao refletir sobre a trajetória de uma década e meia de festival, a coordenadora destacou a mudança no perfil da audiência, cada vez mais ajustado com a proposta. "Percebemos que não é um público somente turístico. As pessoas cada vez mais acompanham a mostra e se programam para isso."
O crítico José Carlos Avellar elogiou o que classificou como uma "constante da mostra" mantida nessa edição. "Tiradentes permite que se tenha uma relação profunda com os amplos perfis da produção brasileira, trabalhando uma nova geração, formada por pessoas que estão fazendo seu primeiro e segundo filme. E isso é muito estimulante, porque você está em contato com propostas narrativas novas, ou de um ponto de vista novo."
A dinâmica alinhada entre cidade e evento também foi apontada como um dos pontos altos pelo crítico. Na visão dele, há uma ação dupla enriquecedora em que o público pode assistir aos filmes e, em seguida, dialogar com os responsáveis pela produção. E dessa troca, como pontua, é possível que saiam boas ideias para novos trabalhos.
Aplausos
Ovacionado pelo público na Mostra de Tiradentes e vencedor do prêmio de melhor longa pela crítica, o filme "A cidade é uma só?", de Adirley Queirós, mostrou-se arrebatador pelo carisma e força de seus personagens. A produção apresenta a situação atual da cidade-satélite de Ceilândia, criada como solução para a favelização de Brasília, no início da década de 1970. Cerca de 40 anos depois, o local segue imerso em problemas, que vão da falta de infraestrutura à especulação imobiliária que ameaça os moradores de uma nova expulsão.
Em um festival que teve como tema "O ator em expansão", o personagem Dildu, interpretado por Dilmar Durães, saiu como um dos mais queridos pelo público. Morador de Ceilândia, Dildu vê na candidatura para deputado distrital a possibilidade de mudar a realidade do local. Sua trajetória na construção da campanha, desprovida de dinheiro e marcada pela revolta que explode em tiradas irreverentes, comoveu os espectadores que lotaram a sessão. Tanto que o jingle criado pelo personagem e um amigo ex-rapper foi entoado pelo público ao final da sessão, com ecos no momento da premiação, no sábado, mostrando que a música ficou na cabeça.
Visceral e direto
No encontro entre crítica e diretor, que aconteceu no dia seguinte à exibição, Queirós, que é morador de Ceilândia, lançou mão de argumentos simples para explicar a boa recepção obtida pelo filme. "A intenção era fazer um trabalho que a gente pudesse curtir", disse, sobre a fórmula adotada na criação do roteiro executado por meio de um edital comemorativo aos 50 anos de Brasília. E assim chegou-se até a criação de Dildu. "No projeto, prevíamos um personagem que seria o provocador", explica. Foi então que o diretor buscou o velho conhecido Dilmar, vinculado à cena rapper de Ceilândia, com quem já havia trabalhado anteriormente. "Perguntei o que ele queria ter como papel e ele respondeu que queria ser político." Pronto. Nascia Dildu.
Dispensando qualquer pretensão, Queirós foi sucinto ao expor a proposta de seu filme. "Acho que vivemos cercados por muito moralismo, do tipo ‘salvem as baleias, salvem o meio ambiente’… Mas e a gente?", disse, emendando que sua grande intenção era que o longa circulasse pelas ruas, mesmo que pelas mãos de maloqueiros. "O grande lance é criar um personagem que possa se comunicar com aquele espaço. Queria me comunicar da maneira mais visceral e objetiva."
Ao falar sobre a produção, o crítico mineiro André Brasil destacou que, no filme, a cidade não é meramente contexto, mas sim questão. E com essa constatação, André comparou a situação apresentada com questões atuais, como o caso de Belo Monte, pontuando a potência universal do longa. "São questões do homem, de sobrevivência."
A ocupação espacial também foi o mote de outro longa vencedor. Eleito pelo júri jovem, o documentário "HU", de Pedro Urano e Joana Traub, mostra o edifício dividido entre ruínas e instalações do Hospital Universitário da UFRJ. A narrativa, como propõe a sinopse do filme, assume o papel de uma metáfora para a esfera pública brasileira. E, nesse sentido, Joana disse ter ficado especialmente tocada ao receber o prêmio do júri jovem. "Que bom que essa nova geração entendeu e se interessa por essas questões", disse, ao agradecer pelo troféu.









