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Autêntico e maldito


Por BRUNO CALIXTO

30/12/2011 às 07h00

Ao contrário do que dizem alguns meios de comunicação na Espanha, o longa "A pele que habito" ("La piel que habito"), segundo informações do portal Filme B, foi bem recebido pela crítica nos EUA e no Brasil. O cineasta Pedro Almodóvar, inclusive, reconheceu, há uma semana, que recebeu com "mais esperança que nunca" sua sétima indicação ao Globo de Ouro, prêmio que define como "mais humano que o Oscar" e ao qual concorre na categoria de melhor filme em língua estrangeira. Uma espécie de ficção científica sinistra, a obra entra na terceira semana de exibição na cidade e é considerada por muitos um thriller.

Evidentemente, o mergulho do espanhol pelos gêneros malditos – sendo "A pele que habito" um pouco mais sombrio – vem intrigando a opinião pública, tanto por manter a essência de tocar nas feridas expostas e nos recalques da sociedade contemporânea quanto pelo seu profundo estudo sobre o desejo e a psicopatia. "Recorrentes em sua obra, no entanto, as implicações do desejo, nesse caso, chamam a atenção, especialmente, por apresentar esse quadro contemporâneo de múltiplas construções de sujeitos e corpos. Corpos não no sentido do transgênico, mas da identidade", destaca a psicóloga Marília Xavier, convidada pela Tribuna e assistir ao filme na última terça.

O cineasta Aleques Eiterer considera "A pele que habito" a mistura perfeita entre esse Almodóvar maldito e sua versão mais comercial. "Almodóvar e Woody Allen sofrem um mal. Quando seguem seu estilo, dizem que continuam o mesmo, quando se reinventam, dizem que perderam a essência", comenta a respeito da jogada de marketing que foi vender o filme como um thriller.

Para o professor da Faculdade de Comunicação (UFJF) Cristiano Rodrigues, em primeiro lugar, não se deve tratar a obra como ficção. "O que ele mostra no filme já é tecnicamente possível", avalia. "Os avanços da medicina, o afã do nosso tempo pelas cirurgias plásticas, o cambiar de gênero, as identidades sexuais que não são opção sexual e nem identificação sexual. Tudo isso já é manchete nos jornais, e o que ele faz é exacerbar todos esses conceitos para potencializar as discussões e as questões que envolvem de trans-identidades a ética médica", completa Rodrigues, ao argumentar ainda a favor da experimentação do diretor, embora seja recorrente sua opção por caminhos já conhecidos. "No fundo, ele está sempre falando das mesmas coisas: pessoas loucamente movidas pelo amor", finaliza.

 

Planeta Almodóvar

Publicamente homossexual, Pedro Almodóvar traz filmes cuja temática da sexualidade é abordada de maneira sublime. Obras cujas feições e inquietações são gestadas no feminino, antes de ganharem universalidade unissex. Este é o universo com que o cineasta dialoga, não economizando gêneros como o policial, ambiguidades, brutalidades e voracidades masculinas. É a essa porção mais viril – e plasticamente requintada – de sua obra que "A pele que habito" parece se filiar. "O filme paira sobre qualquer conceito de masculino, feminino ou unissex. Nos faz refletir sobre o que é a sexualidade humana", ressalta Aleques Eiterer, autor de texto publicado no catálogo da mostra "El deseo" sobre Almodóvar realizada no Rio em junho deste ano.

Em "A pele que habito", Antonio Banderas interpreta Dr. Robert Ledgard, um cirurgião plástico nascido no Brasil que se tornou um dos mais respeitáveis nomes de sua área, obcecado em criar uma nova pele artificial transgênica dentro de El Cigarral, um misto de mansão e laboratório. Para tanto, Ledgard mistura DNA humano com o de suíno.

Mas qual seria a fronteira que separa um médico de ser um visionário ou um maníaco? "O cinema está repleto de exemplos de pessoas que, em nome de um suposto avanço para a humanidade, tentaram, sem conhecer limites, levar a cabo seus experimentos", responde, por e-mail, o crítico Marcio Claesen ("O Estado de S. Paulo"). "Em ‘A pele que habito’, Pedro Almodóvar, um dos maiores especialistas em criar mulheres descompensadas, concebe o seu primeiro ‘cientista maluco’."

Despido de qualquer estigma, a última obra-prima de Almodóvar não decepciona e choca, não só pela maneira com que o diretor lida com o sexo, mas pelo fato de o ritmo diferenciado realçar a atuação dos personagens, sempre intensos. "O choque maior é primeiro deixar você admirar o corpo feminino, vibrar com ele e depois submeter esse encantamento ao processo de transformação", acrescenta Cristiano Rodrigues. "Como Hitchcock fazia, Almodóvar choca mais pela forma de manipular o espectador, fazendo surgir de dentro dele sentimentos complexos e contraditórios", arremata Aleques Eiterer.

 

A PELE QUE HABITO

 

Palace 2: 21h30

 

Classificação: 16 anos