Sobre perdas e encontros
Da junção de todas as cores, resulta o reflexo de nenhuma. A união de todas as cores – ou a falta delas – remete a experiências diferentes. Para uns, o branco reflete paz, tranquilidade, harmonia. Mas coloque-se diante de um quadro todo branco, de um papel em branco antes de escrever um trabalho, de um fundo infinito em um estúdio fotográfico. O branco acaba causando certa angústia, exatamente por ser tudo e coisa nenhuma ao mesmo tempo, explica o músico Tiago Sarmento, que explora essas e outras tantas dualidades no seu recém-lançado álbum Quando as cores acabarem, que tem apoio da Lei Murilo Mendes.
Composto de 12 faixas autorais, o segundo CD do músico traz uma pegada mais leve, sem deixar de lado a escola do rock’n’roll, com composições escritas sob influências diversas. Estava ouvindo muito The Who, Secos e Molhados e Blind Melon quando comecei a compor. Mas acho que foi no Neil Young e no ‘The division bell’, disco do Pink Floyd, que encontrei mais referência para o que eu queria fazer, conta. As inspirações vão ainda de Almir Sater – o músico utiliza em uma das faixas, Leila, a viola caipira herdada do bisavô datada de 1910/1920 – a Simon & Garfunkel.
Além do single que dá nome ao álbum, outras faixas de destaque são As maravilhas de não ter consciência de onde está, exemplo de rock progressivo e teatralidade envolvida no meio da música, O mundo inteiro à parte, primeira composição instrumental do artista, e ainda Perfeição, que traz o primeiro riff de guitarra composto, há anos, por Sarmento.
A escolha de se enveredar por melodias mais leves – ou mais resignadas, como denomina o músico – foi natural. Depois de um tempo, comecei a perceber que não tinha mais aquela raiva adolescente e incoerente para colocar para fora. Uma estética mais melancólica estava mais de acordo. A minha falta de compreensão do mundo – ou compreensão extrema, não sei – estava de acordo com essa questão nostálgica, menos irada e mais resignada. A levada folk também se reflete nos shows do músico, que retorna aos palcos após dois anos sem se apresentar, com o projeto Folk it!.
Sarmento assume, além dos vocais, alguns dos instrumentos na gravação do álbum, produzido por ele e por Fred Fonseca (baixo). Também fazem parte do trabalho João Cordeiro (bateria), Ruy Alhadas (teclado), Louise Gracielle (back vocals), além de participações de Luciano Baptista (gaita), Thiago Salomão (baixo), Rick Vargas (percussão) e Danniel Goulart (guitarra).
A cartola, as pétalas de flores, o narguilé, as xícaras e outros objetos não integram a composição gráfica de Quando as cores acabarem por mera opção estética. O disco, embora não seja uma referência direta à célebre obra Alice no País das Maravilhas, dialoga com os mesmos dilemas da história de Lewis Carroll. ‘Alice’ nunca foi uma história infantil, isso é fato. É uma viagem onírica, trabalha com uma linguagem igual à dos sonhos. O livro é cheio de metáforas sobre uma pessoa se encontrando e se perdendo, esquecendo quem é, sobre o tempo, sobre influência de outras pessoas na vida, avalia.
É na abordagem da fuga da realidade que as obras se encontram. Essa fuga é o ponto central, e toda a falta de coerência que o mundo ao seu redor te oferece quando você está fugindo ou quando você se acostuma a uma realidade mesquinha, esvaziada de sentido pelo cotidiano.
Apesar de compartilhar algumas canções pela rede (www.soundcloud.com/tiagosarmento), o músico acredita que o contato com o trabalho completo é essencial a sua apreensão. É um disco conceitual, com início, meio e fim, que acompanha um certo pensamento linear. O roteiro conta com uma abertura musical de meio minuto, acompanhada de uma inserção de atuação, que faz as vezes de prefácio. Seguem-se à proposta as composições e seus dilemas, que tocam em temas como autenticidade, loucura, amor, medos, morte e sonhos.









