Brasil perde um dos seus principais cronistas: Luis Fernando Veríssimo

Luis Fernando Veríssimo fez história como escritor assim como o pai, Erico Veríssimo


Por Estadão Conteúdo

30/08/2025 às 12h27- Atualizada 30/08/2025 às 16h02

O corpo do escritor Luis Fernando Veríssimo, morto neste sábado (30), após complicações de uma pneumonia, começou a ser velado no início da tarde. A cerimônia de despedida acontece no Salão Nobre Júlio de Castilhos, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, localizada no Centro de Porto Alegre.

O governador Eduardo Leite decretou três dias de luto oficial no Rio Grande do Sul em razão do falecimento do escritor.

O corpo do cronista chegou ao local por volta das 11h30, e a despedida pública acontece até por volta das 18h45, encerrando com a cerimônia aberta de despedida. Um ato mais íntimo, apenas com a presença de amigos e familiares acontece depois.

A família decidiu não divulgar horário e local do enterro, previsto também para este sábado. A despedida pública conta com a presença de familiares, amigos e autoridades gaúchas. Artistas famosos e políticos do Brasil todo também manifestaram-se nas redes sociais para lamentar a morte do autor.

Veríssimo tinha 88 anos e estava internado no Hospital Moinhos de Vento desde o dia 17 de agosto. O escritor enfrentava complicações decorrentes de acidente vascular cerebral (AVC) e da progressão da Doença de Parkinson. Segundo o boletim médico, o escritor faleceu em decorrência de uma pneumonia.

Veríssimo seguiu a carreira do pai, o romancista Erico, e também traçou uma carreira literária, mas com cores bastante diferentes das do pai, bem distantes do romance histórico e realismo fantástico. Dono de um texto afiado e carregado de ironias, Luis Fernando ficou conhecido nacionalmente por narrar o cotidiano da classe média brasileira com muito humor.

Romancista, cartunista, além de roteirista, Veríssimo integrou a redação do Pasquim, jornal que ficou célebre por atuar contra a ditadura militar. Mas foi na crônica que o gaúcho de Porto Alegre teve seus maiores destaques, escrevendo para grandes jornais do Brasil, como o Estadão, onde iniciou o trabalho como cronista em 1988.

Legado

Veríssimo construiu uma carreira consolidada como escritor entre as décadas de 1960 e 2010. O talento parece ter vindo de família, já que seu pai, Erico Veríssimo (1905-1975) também é considerado como um dos grandes autores do Brasil.
Brasil perde um dos seus principais cronistas: Luis Fernando Veríssimo
Foto: Divulgação/Unesp

Curiosamente, porém, o filho afirmou que nunca teve o costume de conversar com o pai sobre literatura, o que teria sido um dos motivos para ter começado a escrever seus textos tão tarde, já com mais de 30 anos. Mas isso não significa que o contato com os livros do pai não estivesse presente de alguma forma.

Em entrevista ao Zero Hora, em 2012, Luis Fernando relembrou: “Muitas vezes eu sentava do lado dele à mesa e já lia quando a página saía da máquina de escrever. Ele escrevia muito rapidamente, deixando espaço entre as linhas. Depois ele mesmo corrigia, acrescentava coisas. Ele mesmo passava a limpo. E eu acompanhava esse processo.”

Questionado sobre o que destacaria na obra do pai, respondeu: “Como todo mundo, eu prefiro O Continente. Acho que é o grande livro do pai, da obra inteira dele. E eu gosto muito desse personagem, a Luzia, justamente por ser um personagem completamente deslocado”.

Já ao Conversa Com Bial, da TV Globo, anos depois, foi questionado pelo apresentador Pedro Bial: “Você chegou a ler originais de seu pai antes de serem [publicados]?”. “Sim, quando ele começou a escrever O Tempo e o Vento, que é uma trilogia romanceada da história do Rio Grande do Sul, eu acompanhei os primeiros escritos”, disse Luis Fernando Veríssimo.

O autor também revelou um fator de ‘discórdia’ entre pai e filho: gaúchos, um torcia para o Grêmio e o outro para o Internacional. “Ele era torcedor de um time chamado Cruzeiro, porque tinha escutado muito na escola, o ‘Cruzeiro do Sul’. Quando o Cruzeiro acabou, ele, por alguma razão inexplicável e misteriosa, preferiu o Grêmio em vez do Internacional. A gente não fala disso em casa”, relatou.

Quem foi Erico Veríssimo

Erico Veríssimo morreu em 28 de novembro de 1975, após sofrer um enfarte em sua casa, em Porto Alegre, aos 70 anos de idade. Entre suas principais obras estavam Os Fantoches, seu primeiro livro, Clarissa, seu primeiro romance, Olhai Os Lírios do Campo, a trilogia O Tempo e o Vento, O Continente, O Retrato e O Arquipélago. Em 1954, recebeu o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra.