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‘Meu laboratório é a rua’


Por Tribuna

30/08/2014 às 06h00

Trabalho com os pés no chão, os olhos nas ruas, mas sem perder a arte de vista. Se não puder ser assim, nem entro na brincadeira. É com franqueza, simpatia e em carioquês deshcolado que a consultora de estilo Renata Abranchs começa a falar de seu trabalho à Tribuna. Neste sábado, Renata será uma das palestrantes do evento Moda360, criado para levar aos estudantes um pouco do mercado de moda do país. Criamos pensando na carência desta oportunidade na cidade, quando acontecem cursos, eles são bem caros. Daí a ideia de trazer estes workshops a preços acessíveis, diz Juan Salomão, um dos idealizadores.

A proposta vai ao encontro do que Renata Abranchs tem de moda e, mais além, de estilo: democrática, cotidiana e diversificada. Estilo é muito mais que moda, roupa, cores, modelagens e looks. Passa por isso também, mas está ligado a um conceito muito mais amplo, de hábitos e costumes, estilos e experiências de vida. É como o cliente vê, sente e percebe a marca, explica a consultora. Formada em belas artes pela UFRJ e estilismo pelo Senai, Renata descobriu a aptidão para a moda quando ainda cursava a primeira graduação e se dividia como vendedora. Foi um meio de tornar mais tangível, mais imediata as coisas que aprendia na faculdade de belas artes e também onde eu criei um mantra : ‘servir antes de vender’. A relação com o público de uma marca deve ir muito além da relação de consumismo, destaca ela.

Desde 1997, o Bureau de Estilo Renata Abranchs vem trabalhando junto a grandes clientes de variados perfis, da grife descolada Farm à TV Globo, da popular Leader à sofisticada Afhgan, entre muitos outros. A consultora também está à frente do RIOetc (rioetc.com.br , um site que retrata e exalta o carioca way of life nas ruas do Rio e faz o mesmo em diversos lugares do mundo – daí o etc no nome) e é autora do livro A carioca – Guia de estilo para viver a Cidade Maravilhosa, que mapeia a moda e o jeito de ser e viver das mulheres que nasceram cariocas ou adotaram o título para si. A publicação é coassinada pelo parceiro profissional e da vida, Tiago Petrik, marido de Renata, jornalista, escritor e fotógrafo responsável por campanhas da Adidas Originals, Burberry, Farm, além de colaborador de revistas como Elle, Glamour e Vogue.

Em entrevista à Tribuna, Renata Abranchs falou sobre estilo de vida e suas diversas facetas, consumo, os rumos da indústria brasileira de moda, as tendências para a próxima estação, sobre não ter carro por opção, o boom de blogs de moda e diversos outros assuntos, em um animado bate-papo ao telefone.

Tribuna – Sua concepção de moda me parece ser muito pé no chão, muito conectada ao cotidiano, você concorda? Como procura fazer suas pesquisas de estilo?

Renata Abranchs – Totalmente. Não acredito em criador sem senso de realidade, que não saia de sua zona de conforto, saia do computador e vá para o maior de todos os laboratórios: a rua, e pelo menos uma vez por semana. É assim que elaboro minhas pesquisas. Revistas, sites e outras fontes não dão a dimensão do que representa as pessoas e os lugares culturalmente, e muito desta representação está na moda, na atitude, nas posturas, em coisas que a gente percebe nas ruas. Quando viajo, busco a percepção do que nos diferencia e agremia a outros povos, e transformo estas informações em insights que podem apontar para um futuro da estética. Aqui no Brasil, observo tudo, de A a Z, buscando sempre os alfas (inovadores) e betas (disseminadores) de cada grupo, e sabendo que eles estão em todo lugar: na Vogue e na Caras, no Leblon e no baile funk, na praia e no festival de tecnobrega. Com isso consigo ter uma visão panorâmica de como as pessoas podem dialogar com as marcas que eu atendo.

– No livro A carioca, você fez um mapeamento do estilo das cariocas que, em outras entrevistas, você sintetizou como simples, otimista e verdadeiro. Em linhas gerais, qual o estilo da mulher brasileira?

– A carioca tem uma simplicidade que nem todas as brasileiras têm, mas a baiana tem, a pernambucana, a catarinense… E essa simplicidade tem a ver com o ambiente. Uma cidade de pedra portuguesa não permite que se use salto para cima e para baixo, né? (risos) E praia não é lugar de carregar na maquiagem e fazer chapinha! Se estas mulheres complicarem demais no seu visual, não vivem muito a cidade, então a moda reflete muito o estilo de vida, com roupas que cabem para uma volta de bike na praia, um showzinho e emendado num barzinho. A brasileira, de forma geral, tem em comum o otimismo e a verdade, e é extremamente exuberante, mas de maneira alegre.

– Em todos os desdobramentos do seu trabalho, vejo que você usa a moda também como porta-voz de ideias em que acredita, como a simplicidade, a sustentabilidade, entre outros preceitos. Como seu trabalho sustenta seus ideais?

– O design é a estética de um comportamento, de um estilo. Então tudo que faço vai além do visual, e transparecem questões que são relevantes para mim: simpatia, simplicidade, contemporaneidade, brasilidade, ética, entre várias outras coisas. E isso está traduzido não apenas na moda, mas na estética de meu site, na linguagem sem firula e na conexão com a realidade. No RIOetc, todas as pessoas que são fotografadas são, de fato, encontradas andando nas ruas, na base da espontaneidade. Meus ideais também estão refletidos no meu estilo de vida: ando de bicicleta, pego transporte público, optei por não ter carro. A vida real não tem glamour nenhum (risos)! E digo isso como uma coisa boa, sou uma operária da moda!

– Uma causa que você vem defendendo é a de valorização dos produtos e da cultura nacional por meio da moda, com a campanha #feitonobrasil, que estimula o consumo do nacional. Qual a importância dela?

– No Brasil, a indústria da moda é o segundo mercado empregador do país, e a gente vê que muitos representantes estão fechando, demitindo, sem grana para investir em tecnologia. Os impostos são altíssimos para o empregador brasileiro, é uma concorrência desleal, porque ele tem que repassar esse custo ao público, que não raramente prefere aderir aos made in China, mofar na fila da Forever 21 e comprar itens que não são acrescidos desta carga tributária. Comprar da China – sistematicamente, é claro -, além de tirar a oportunidade de um produto brasileiro no mercado – o que enfraquece a cadeia de consumo e a produtiva -, pode fazer com que as pessoas estejam alimentando cadeias de trabalho duvidosas. Então essa campanha é um trabalho de sensibilização, para que as pessoas comecem a preferir o nacional, porque é natural as pessoas pensarem: ‘Como vou valorizar a produção nacional se ela não cabe no meu bolso?’ Mas é melhor comprar uma camisa nacional, com algodão bacana, com alta durabilidade, do que três da China, feitas com um tecido inferior. Outra frente em que buscamos atuar um dia é também na sensibilização das autoridades, para que haja a tão necessária reforma tributária, que tanto prejudica a indústria da moda no Brasil (e todas as outras também, né?).

– Como a moda brasileira é reconhecida no mundo hoje?

– Uma moda alegre, com personalidade, impregnada de exuberância,sensualidade, estampas e decotes. Nosso design é reconhecido como festivo, mas, em termos de mercado, ainda estamos em um processo de profissionalização, porque muitas vezes as marcas não conseguem entregar sua produção. A moda praia continua sendo um dos pontos fortes, mas uma tendência agora é uma roupa mais casual, associada ao fim de semana, que vem sendo chamado de pleasure wear. É algo um pouco mais urbanizado. A concepção da nossa moda lá fora também está deixando de ser folclórica. É misturar popular com requinte e sofisticação, como o Ronaldo Fraga faz tão bem. É nítida a percepção de marcas universais que vêm copiando shapes da Osklen, estampas da Blueman, os tricôs tradicionais de Minas Gerais e vários outros elementos e movimentos nacionais que estão sendo amplamente estudados.

– O que podemos esperar para as próximas estações?

– A primeira coisa é a estética do esporte inserida no dia a dia, de manhã até a festa, é a junção do sportswear com a funcionalidade. Isso principalmente em função de tecidos tecnológicos. Então a legging da academia, unida a uma bota e um camisão estiloso, vai também para um happy hour. Além disso, a roupa de malhar agrega um valor de saúde. Outra tendência forte é o que vem sendo chamado de ‘normcore’, que representa uma pausa entre uma avalanche de estéticas desta década. A camisa branca e o jeans básicos vão voltar à cena. Há ainda a incorporação do multiculturalismo, influenciado pelo perfil dos mochileiros, aquelas pessoas que têm vontade de largar tudo e desbravar o mundo. A arte também vai estar na moda, dialogando com diversas expressões criativas como poesia, teatro, pintura, música. Podemos esperar estampas de artistas plásticos, shapes que refletem a musicalidade e uma tendência ao experimentalismo, algo inédito na moda brasileira. Por fim, algo que também ganhará muita força é um design inteligente e mutável de peças, com o público como coautor. O estilista cria a base, e as pessoas alteram à sua maneira: estampando, recortando, alterando uma manga, deixando a peça mais ‘a sua cara’. É uma releitura do ‘sob medida’.

MODA 360

Sábado, das 10h30 às 17h30

Ritz Plaza Hotel

(Avenida Rio Branco 2000)