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Fazer fortuna é semear o bem


Por BRUNO CALIXTO

30/04/2011 às 07h00

Quase na metade do sonho, a fantasia é interrompida pela marcação do diretor. Volte e ponha o capacete, ordenou José Luiz Ribeiro ao ator que se esqueceu do adereço, durante ensaio com figurino, acompanhado pela Tribuna. Faz parte do primitivismo do teatro, ele acredita. Não satisfeito, o atento dramaturgo interrompe mais uma vez: Entra na luz, um comando que, coincidências à parte, dialoga com a trama da peça Sonhos da Rainha da Noite, em cartaz a partir de hoje no Forum da Cultura.

Com elementos comuns ao universo infanto-juvenil, o espetáculo narra a história de dois irmãos, Fábio e Lúcio, que, após a ida do pai para a guerra, são enviados pela mãe à Estrada da Fortuna, em busca de riquezas. Estamos na contramão da história com um texto que aposta no ser humano, numa sociedade tridimensional, destaca Ribeiro, autor do enredo cujo mote segue a linha adotada pelo Grupo Divulgação há mais de quatro décadas: cidadania. Nos dias de hoje, tudo passa a ser mediado para este público (infanto-juvenil), enquanto que na arte tribal ninguém está diretamente ligado entre si, diz.

Antes de partir, entretanto, Fábio e Lúcio são orientados pela matriarca, interpretada por Márcia Falabella, a plantarem o bem e destruírem a maldade. Para isso, eles recebem, como herança, uma espada e um livro, fazendo de um deles soldado e do outro um poeta. A peça ocorre em um universo de fantasia, ao qual a criança já está acostumada, reforça Márcia, cujo figurino, marcado por altos coturnos, lembra os personagens do teatro grego. Estreante na trupe, Jefferson de Oliveira concorda com a veterana, ao afirmar que o clima de brincadeira da obra junto à ideia de sonhos é um atrativo a mais. Queremos passar uma boa mensagem para as crianças. É uma peça que prega o bem, para fazer fortuna, e a poesia, mostrando que é possível vencer por um outro caminho que não a guerra, defende.

Destaque para recursos que remontam o teatro político brechtiano, principalmente no discurso oratório da matriarca e em adereços, como pão e dinheiro, que não ganham forma física no espetáculo. Ouvir antes de falar e falar depois que ouvir. Este é um dos conselhos da mãe. Em outro momento, a religiosidade rouba a cena. A velha rezadeira é a mensagem do abandono, uma referência a tantos de sua geração que se tornaram vítimas do descaso.

Segundo José Luiz Ribeiro, mais que codificar o cotidiano, trata-se de uma aventura que mistura características do drama e da comédia, remetendo aos contos de fada, com presença de rainha, cavaleiros, duendes e seres fantásticos. A mensagem é que, nem sempre, as coisas são o que aparentam ser. Como é o caso do Ogro, que só está tentando se transformar, pontua. Precisamos reforçar certas ideias, como aquela do homem diante do homem, num mundo em que, através das redes sociais, todos estão falando pelos dedos.

Pathos no lugar de logos

Além da direção, José Luiz Ribeiro acompanhará a saga de Fábio e Lúcio da cabine de luz, onde contará com Tahuan Monteiro na sonotécnica. O trabalho manual ganha força com o vigor de seis novos atores, resultado do Mergulhão Teatral realizado pelo Centro de Estudos Teatrais (CET/Divulgação) em março. Apesar das dificuldades em ter uma equipe renovada a cada ano, continuo buscando o pathos (termo grego que representa paixão) em vez do logos (em grego, significa a palavra escrita ou falado, o verbo), pondera o diretor, apoiando-se no estudo da ética de Stanislavski, método russo considerado fundamental para o processo de criação do grupo local.

Os frutos desta colheita são expostos no palco, onde, durante sua caminhada, Fábio e Lúcio são acompanhados por Ping e Pong, duendes ajudantes da Estrela da Manhã, um gênio protetor das crianças. Ao anoitecer, os meninos param para descansar, e, quando pegam no sono, seus sonhos se misturam, e os dois se envolvem numa aventura para resgatar o cristal encantado do Reino da Rainha da Noite, roubado por um Ogro com o auxílio de um corvo e uma coruja.

O espetáculo traz três cenários distintos, além de uma iluminação climática que dita o ritmo da peça, dando a ideia de dia ou noite. O cenário é de grande importância, pois ajuda a interagir com o público e a criar o clima necessário. Quando fazemos uma peça que não tem cenário, ou ele não se encaixa na cena, ouvimos reclamações, conta Márcia Falabella. José Luiz Ribeiro detalha que é preciso saber trabalhar com a pobreza. A noite com céu estrelado, por exemplo, não tem brilhos etc, mas um pano escuro com vários furos, iluminado por trás, revela o diretor.

Já o figurino, com uma ligeira reflexão medieval, faz alusão a um tempo de reinados e cavaleiros, ao mesmo tempo em que traz características contemporâneas. Mas, como salienta Ribeiro, isso só é possível por esta ser uma narrativa atemporal, nada que destoe das dezenas de obras do Grupo Divulgação que, sonhando acordado com um mundo melhor e apostando em críticas sociais e políticas para formar plateia, completa 45 anos em 2011.

SONHOS DA RAINHA

DA NOITE

Sábados e domingos,

às 16h45

Forum da Cultura

(Rua Espírito Santo 1.112) 3215-3850

Até 3 de julho