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Outras Ideias – Com Jackeline Augusto dos Santos


Por Tribuna

29/11/2015 às 07h00

Jackeline:

Jackeline: “Quem escolhe o caminho somos nós. Eu escolhi me aceitar” (Leonardo Costa/25-11-2015)

Ninguém está condenado às lágrimas. É possível traçar novos caminhos, me diz Jackeline Augusto dos Santos, de 21 anos, que recusou o desenho que colegas de classe fizeram dela no primeiro ano do ensino médio. “Cheguei na escola, todo mundo me olhava esquisito, perguntei para minhas amigas o que estava acontecendo, mas elas só me falaram uma semana depois. Elas me contaram que arrancaram tudo e entregaram ao diretor”, recorda-se a jovem, referindo-se à imagem colada por todos os cantos da instituição, fazendo troça de seu peso. “Um ano depois de concluir o médio, eles postaram o desenho na internet e ainda me chamaram de bicho”, diz ela, que também recusou a condenação social de ser filha de uma empregada doméstica e de um usuário de drogas.

Ninguém está condenado às lágrimas, parece dizer a jovem a cada desfile do qual participa, quando reforça o melhor desenho que faz de si, retratos de uma confiança inspiradora. “Quem escolhe o caminho somos nós. Eu escolhi me aceitar”, sorri, mostrando-me as quatro faixas que coleciona desde março deste ano – A Mais Bela Gordinha de Minas Gerais, A Mais Bela Gordinha do Brasil Virtual, A 3ª Mais Bela Gordinha do Brasil e Miss Minas Gerais Plus Size. Antes de ganhar os títulos, Jackeline participou, em 2014, de um concurso numa loja na qual comprava suas roupas. Ficou entre as dez primeiras. Dali foi convidada para servir como modelo de uma marca local, e, em março, uma amiga lhe sugeriu que entrasse na etapa estadual do concurso A Mais Bela Gordinha, que aconteceria em Ibirité. Venceu.

A casa certa

Muito antes de vencer outras mulheres acima do peso, Jackeline venceu a si mesma, superou apelidos jocosos como “gorda” e “porca preta”. “Sempre fui gordinha. Desde a infância sofro preconceito, mas nunca me deixei abater. Minha mãe e meus dois irmãos sempre falaram que sou linda assim e que não sou diferente. Ser gorda não é um problema. Não preciso ficar triste, porque posso emagrecer”, afirma com seu sorriso largo e sua simpatia de fazer 50 minutos de entrevista passarem como meros segundos. “A preocupação da minha mãe sempre foi com a saúde, mas tinha muita dificuldade de seguir dietas, ir à academia. Hoje em dia adoro treinar e fiz minha reeducação alimentar. Quando nós queremos é diferente de quando as pessoas querem para nós”, assevera. E Jackeline quer, além do diploma em direito (está no quinto período), que suas íntimas lutas possam se transformar numa bandeira ainda mais poderosa: “Quero ajudar a acabar com a imagem do gordo doente. Tenho saúde, só estou acima do peso”.

O corpo certo

Estar acima do peso não é, então, uma condenação, mas uma condição que, com o passar dos meses, mostra-se passageira. “Já cheguei a 150kg. Hoje minha meta é chegar nos dois dígitos”, conta Jackeline, que na última consulta com a nutricionista descobriu ter perdido 13kg – “Foi uma perda muito significativa, nunca havia conseguido isso”. Com uma família cheia de gordinhos, a jovem acostumou-se com o que considera ser um dado genético e é enfática ao dizer “Não quero ser magra, porque sou muito feliz e realizada assim”. O mesmo orgulho se estende para a raça, valorizada nos altos cachos onde encaixa a coroa. “Alisava cabelo, fazia hidratação, chapinha. Um dia, percebi que tinha virado escrava disso e comecei a usar natural, até que fui ao Rio de Janeiro, cortei curtinho e tirei toda a química.”

A estrada certa

Moradora do Bairro Graminha, a Miss Minas Gerais Plus Size ganhou roupas, acessórios, sapatos, lingeries, ensaio fotográfico, curso e alguns convites, como o que a levará ao paulista Fashion Week Plus Size. “Fui atrás de todas as parcerias que tenho hoje. Escutei muito ‘não’, e minha mãe não me deixou desistir”, diz, mais uma vez demonstrando, no discurso e no brilho do olho, a admiração pela matriarca, que mesmo após um avassalador câncer de mama não lhe negou palavras de incentivo. “Pode ser que a carreira de modelo não dê certo, então, vou conciliar com o direito. O mercado plus size ainda é muito restrito”, lamenta. Sobre o futuro? Uma única certeza: “Não quero me adequar ao que a sociedade me impõe. Quero viver para mim, para minha felicidade. E será ótimo se me quiserem assim…”