Realidade musicada
"Não é nossa culpa/nascemos já com uma benção/ mas isso não é desculpa/ pela má distribuição/ Com tanta riqueza por aí/ onde é que está, cadê sua fração? (…) Posso vigiar teu carro?/ Te pedir trocados? / Engraxar seus sapatos?". Os versos da canção "Até quando esperar?", composta pela banda brasiliense Plebe Rude e interpretada atualmente pelos cariocas do Detonautas, estão no programa do coral formado por pessoas com vivência de rua, assistidas pelo Centro de Referência para População de Rua (Centro Pop), serviço da Prefeitura executado pela Amac. A mensagem passada pela música resume a realidade destas pessoas, que chegaram às ruas por inúmeros motivos, entre eles problemas com a família, dependência química e uso de bebida alcoólica.
Estar em contato com as melodias, para eles, reflete diretamente uma mudança de objetivo de vida. Uma superação diária, que os faz enxergarem suas falhas e se abrirem para novas oportunidades. "O coral acendeu algo dentro de mim que eu achava que não existia mais: a vontade de aprender coisas novas. Fez com que minha autoestima voltasse", relata Jefferson Martins, 31 anos, um dos primeiros a fazer parte do grupo. Jefferson chegou às ruas há três anos, por conta do crack. "Achava que na rua iria me libertar, mas como fui para o Rio de Janeiro, o acesso à droga era muito maior", comenta. Hoje trabalha no ramo da construção civil e conseguiu se livrar do vício. Vitórias como essas ele pretende levar para seus filhos, de 9 e 10 anos.
"O coral ajuda bastante a mudar essa imagem. As pessoas acham que só porque estamos em situação de rua andamos sujos e não sabemos conversar. Somos seres humanos capazes de cantar e levar alegria por meio da música. Com o coral, conquistamos o apoio e a amizade. Ele ajuda a nos unir", ressalta Jefferson, que, hoje, além de trabalhar e estudar informática, tem aulas de violão.
Gilberto Trezi Viana, 32, tem nas ruas o seu projeto de vida. "Não que eu não queira sair, mas quero estar próximo dessas pessoas para poder ajudá-las, assim como elas me ajudaram. Quero ser vereador e defender esta causa", ressalta. Gilberto conheceu a rua há sete anos, mas vive nela há quatro. Ele é um dos mais entusiasmados a levar o projeto à frente, pois, na ausência do maestro, é ele o responsável por fazer os arranjos. "Estou na música há 20 anos. Já tive dois CDs gravados e toco 13 instrumentos. Estou aprendendo piano para desenvolver as técnicas e apurar a mão esquerda." Paralelamente aos projetos musicais, Gilberto tem nos semáforos seu ganha pão, onde vende balas e chicletes, mas, aos fins de semana, é a atração de uma casa noturna, em que se apresenta como cantor de forró.
Arte, disciplina e amizade
"Estar à frente de um coral formado por moradores de rua era uma coisa que jamais havia programado para a minha vida. Assim como a sociedade em geral, tinha em minha mente aquele estereótipo de que pessoas com vivência de rua eram sujas e mal-educadas. Hoje vejo que não é nada disso. São inteligentes e sensíveis, além de serem afinadas, terem musicalidade, bom gosto e percepção musical. Tenho aprendido muito com elas", destaca o maestro do coral, Josias da Costa Pereira. "O acompanhamento da musica é um fluir natural. Alguns possuem o dom, e quem não o tem procura contribuir de outra maneira, com amizade, coleguismo e respeito. A música requer disciplina", destaca a coordenadora do Centro Pop, Fernanda Simião.
Além de louvores, o coral entoa canções populares. Nos últimos ensaios, foram inseridos temas natalinos, presentes nas apresentações de Natal. A primeira acontece neste sábado, às 11h, em frente ao Centro Pop, na Rua Prof. Oswaldo Veloso. No dia 4 de dezembro, a cantata está prevista para a Praça da Estação, às 20h.
Criado há pouco mais de um ano, o coral ganhou força nos últimos seis meses, a partir de uma apresentação realizada em um concurso de redação do Centro Pop. O projeto é uma parceria da Amac com o Grupo Restituir, da Primeira Igreja Batista de Juiz de Fora, que cede o espaço para os ensaios duas vezes por semana. Podem participar homens e mulheres em situação de rua, de todas as idades.
Os objetivos de vida de cada um mudaram a partir da entrada no coral. Segundo a educadora social do Centro Pop, Dayana Souza, no começo, houve muita resistência por parte dos assistidos. "Muitos ficaram com receio em participar, dizendo que a ideia não daria certo. Nosso papel foi convidá-los e mostrar que valia a pena investir no projeto. Hoje percebemos que eles têm outro pensamento e perspectiva, ficaram mais vaidosos e se sentindo mais capazes. O uso de drogas também diminuiu muito", conta.
Quinze pessoas, entre homens e mulheres, participam ativamente do coral, mas, segundo Dayana, esse número varia muito. "A cada encontro, vemos um rostinho diferente. Por isso, pensamos em aumentar os dias de ensaio para atender todos os interessados".
Na última sexta-feira, Carla Cristina da Silva, 32, foi pela primeira vez ao ensaio do coral. Ela acredita que o projeto poderá ajudá-la a recuperar as filhas trigêmeas, de 1 ano e 9 meses, que hoje se encontram com uma família acolhedora. "Não quero ficar na rua bebendo e usando drogas. Quero uma vida melhor, poder ter minhas filhas de volta. O trabalho do coral tocou meu coração", afirma ela, que está nas ruas há dez anos.
CORAL DO CENTRO POP
Amanhã, às 11h, durante ação social
Em frente ao Centro Pop
(Rua Prof. Oswaldo Veloso 190)
4 de dezembro, às 20h
Praça da Estação









