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Dramas que se fazem eternos


Por MARISA LOURES

29/08/2014 às 06h00

Foi o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz que colocou Juiz de Fora na rota da trupe da Casa da Gávea (RJ). Uma das exigências do edital é que o grupo contemplado fizesse apresentação de dez espetáculos em, no mínimo, dois estados brasileiros. Por uma escolha da diretora Vera Fajardo, a cidade recebe "O tempo e os Conways" neste sábado, às 21h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, dentro da oitava edição do Festival Nacional de Teatro. A montagem do clássico de J.B.Priestley retorna ao local no domingo, às 19h.

O festival reúne, até o dia 7 de setembro, mostra de espetáculos e oficinas. Outras três produções convidadas são "Urucuia Grande Sertão", do Coletivo Peneira, e "Calango deu! Os causos da Dona Zaninha", estrelado pela Cia. Caititu, ambos da capital carioca, além de "Shi-Zen, 7 Cuias", do Lume Teatro, de Campinas. Os ingressos podem ser trocados, no CCBM, por um livro de literatura em bom estado.

Atores recebem a plateia cantando uma canção de guerra. Essa é a primeira cena do drama ambientado na casa dos Conways, no início do século XX. Embalados por trilha sonora executada ao vivo em um piano, jovens contarão a história vista pela primeira vez no Duchess Theatre de Londres, em 1937, trajando figurinos de época.

Dividida em três partes, a peça salta da festa de aniversário da filha Kay, em 1919, para a mesma comemoração 20 anos depois, e retorna aos festejos do primeiro ato. Estão reunidos a moça e seus cinco irmãos, a matriarca e alguns agregados. "Mantive-me fiel ao texto sem ser subserviente", conta a diretora, que abriu mão do processo de envelhecimento dos personagens, recurso frequentemente utilizado em outras montagens, para investir no trabalho do intérprete.

"A gente preferiu investir no movimento do ator, na movimentação mais dura, mais pesada, para mostrar o amadurecimento. Na juventude, os personagens, com toda aquela explosão de hormônios comum para a idade, são muito alegres. Depois de adultos, a fala deles traz uma amargura, uma vivência natural. O figurino, a maquiagem e o visagismo também denotam essa mudança", diz Vera. Para ela, que substituirá uma das atrizes na sessão de sábado, o grande mérito do teatro é dar liberdade para a imaginação. "O teatro não precisa desse naturalismo todo. Se o ator conseguir transmitir a verdade com a palavra que está dizendo, é um ganho."

A montagem, que será levada para o CCBM em formato de palco italiano, na Casa da Gávea, foi encenada nos cômodos do espaço. Parte dos atores já tinha passado pelas mãos de Vera em 2009, quando ela ministrou um curso focado em um texto ambientado em 1968, o ano mais duro da ditadura militar. Agora, a diretora ainda realiza o sonho de dirigir a própria filha, Júlia Fajardo, no papel de Kay.

 

Clássico atemporal

Algo que nem de longe passou pela cabeça da mentora do espetáculo era fazer qualquer tipo de adaptação. "Fiz apenas alguns cortes para diminuir a peça em 15 minutos", diz ela, conseguindo chegar a uma hora e 50 minutos de encenação. Como um clássico consegue fazer-se atual a despeito de qualquer marca temporal, a interação com o público é garantida independentemente de conhecimentos prévios sobre o contexto em que foi concebido: o iminente fim do período entre guerras e a ascensão do comunismo na Rússia, só para citar algumas questões latentes no período.

"Os clássicos são eternos e se tornaram clássicos porque foram muito populares em sua época. Eles atingem um grande número de espectador com muita profundidade. ‘O tempo e os Conways’ chega a todas as pessoas com a mesma força, sejam elas intelectualizadas ou não, porque trata de um drama familiar, escrito com muitas verdades", defende Vera.

"Priestley diz coisas de uma maneira coloquial e verdadeira. Fiz questão de manter o cenário e o figurino de época, porque facilitam para o espectador. A plateia gosta de se reconhecer e de, ao mesmo tempo, dizer: ‘olha, isso se passou em 1936, mas acontece até hoje lá em casa’. A minha empregada assistiu e disse: ‘Gente, isso aí é a minha família’." Com a conquista de um patrocínio, o grupo garante a volta ao Rio de Janeiro em 2015 para mais uma temporada.

 

Peças recebem críticas

"Perdida!Electra num mundo de palhaços", da Caravana Mezcla de Palhaços, "Estação dos passageiros invisíveis", da Cia. INMundos", " Casa dos espelhos", do Corpo Coletivo, e "Estranho farol dos cacos", do Afluxo Teatro e Pesquisa, são as quatro produções juiz-foranas já assistidas pelo público local e que representarão a cidade nessa oitava edição do evento, que trará trupes de São Paulo, Rio de Janeiro, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. Entre as opções, há humor, drama, comédia e infantil. Como já aconteceu em 2013, as peças serão avaliadas por especialistas. A diferença é que o bate-papo será feito logo após a apresentação, sendo a crítica publicada no dia seguinte em um jornal produzido pela Funalfa. O exemplar será distribuído antes dos espetáculos. Duas produções do projeto "Diversão em cena" da ArcelorMittal – "Pedro e o lobo", da Giramundo Teatro de Bonecos, e "Romeu e Julieta na era dos recicláveis", de O Trem Companhia de Teatro – integrarão a lista de atrações.

 

Programação

 

"O tempo e os Conways" – Casa da Gávea – Rio de Janeiro/RJ

30 de agosto, às 21h, e 31, às 19h, no CCBM (Av. Getúlio Vargas 200)

 

"Pedro e o lobo" – Giramundo Teatro de Bonecos – Belo Horizonte/MG

31 de agosto, às 16h, no Teatro Solar (Av. Itamar Franco 2.104)

 

"Calango deu! os causos da Dona Zaninha" – Cia. Caititu – Rio de Janeiro/RJ

31 de agosto, às 21h, no Cine-Theatro Central