‘Quando me reconhecem na rua como poeta é quando me vejo nesse lugar’, diz o escritor Giovani Verazzani
Poeta juiz-forano fala sobre a influência da música em sua escrita, a importância da cultura do hip hop e a literatura como um direito que deve ocupar as ruas

Giovani Verazzani não chegou à poesia pelos livros. Embora a literatura sempre tenha feito parte de sua vida, foi na música que ela ganhou outro significado. Primeiro no rap, “quando o funk ainda era rap”, como faz questão de lembrar, depois no punk rock, no hardcore e, novamente, no rap em suas diferentes transformações. Foi ali, entre rimas, ritmo e oralidade, que encontrou uma forma de escrever e de compreender o mundo.
“A literatura esteve sempre presente na minha vida. Mas acho que ela me invadiu quando percebi na música a poesia mais ligada à vida”, conta, em entrevista ao especial Cidade de Escritores. Verazzani nunca planejou ser poeta. Embora tenha experimentado outros gêneros, foi na poesia que encontrou sua voz. O impulso veio antes da decisão.
“A poesia tem um aspecto espontâneo, imediato e urgente. Experimentei outros gêneros, mas a escrita em verso, ritmo, rima, sons semelhantes e toantes… Meu ouvido tem uma preferência que acredito que venha da música.”
Hoje, autor de dois livros — “A poesia tem que acabar” e “Moleque de pena na mão” —, ele começa a explorar novos formatos e se aventura na prosa, em narrativas mais longas. Ainda assim, admite que assumir a identidade de escritor continua sendo um desafio.
“Até hoje tenho uma certa dificuldade com isso. Achei que, depois do primeiro livro, ficaria menos difícil, mas nem após o segundo aconteceu. Diria que quando as pessoas me reconhecem na rua como poeta é quando me reconheço nesse lugar.”
Literatura para além dos livros
Para além da escrita, Verazzani faz da literatura um espaço de encontro. E a relação entre literatura e oralidade ajuda a explicar por que os saraus, slams e batalhas de MCs ocupam um espaço central em sua trajetória. Para ele, esses ambientes não apenas acolhem a poesia, mas representam o lugar onde ela deve existir.
“São lugares aos quais a literatura deveria pertencer. O direito humano universal à literatura precisa atravessar diversos gêneros, especialmente os da oralidade, tão importante num país que até hoje não erradicou o analfabetismo. A literatura (escrita ou oral) inclusive amplia a nossa capacidade de leitura do mundo, nos tornando menos intolerantes uns com os outros.”
Além da produção literária, Verazzani mantém o Elemento X, projeto publicado na plataforma Substack voltado à produção e difusão de conhecimento sobre a cultura hip hop, iniciativa que pretende ampliar nos próximos meses.
A poesia que nasce do coletivo
A relação com Juiz de Fora, porém, é marcada por uma contradição. Depois de uma infância mudando de cidade com a família, ele afirma não se sentir completamente pertencente a lugar algum. Vive em Juiz de Fora há 26 anos, mas diz que seu vínculo não é com o território, e sim com as pessoas.
“Eu não gosto daqui, mas amo as pessoas daqui. O que me liga aos lugares são as pessoas.”
Entre essas influências estão escritores como Edmilson de Almeida, Fernando Fiorese, André Capilé e Alexandre Faria, seu orientador no doutorado, além dos coletivos e movimentos culturais da cidade, como os slams, o Sararau Crioulos, o Espaço Hip Hop, as batalhas de MCs e artistas da cena underground. “Essas pessoas influenciam minha escrita antes mesmo da cidade em si.”
O que há na estante de Giovani Verazzani?
Quando o assunto é indicação de leitura, Verazzani escolhe “Os ricos também morrem”, de Ferréz, obra que considera um marco da literatura marginal brasileira dos anos 2000 e uma referência importante para compreender a potência da escrita produzida nas periferias.









