Quantas línguas fala o jazz?
Juntar Mark Lambert, Marvio Ciribelli, Marcel Powell, Blas Rivera, Tito Cartechini e Dudu Lima numa reserva ecológica brasileira deixou de ser um sonho há 12 anos, quando o compositor e violonista Hérmanes Abreu, literalmente, arquitetou – antes de se formar em composição pela Berklee College of Music, ele se graduou em arquitetura – o que poderia dar nesse encontro que, ininterruptamente, está aí para reunir alguns dos nomes do jazz nacional e internacional. "O gênero tem se tornado mais popular nos dois últimos anos", observa. "Quando o festival começou, o cenário era completamente diferente, o número de grupos instrumentais aumentou muito, além de novos estudantes de música estarem se interessando por essa área, tendo o jazz como primeira linha do gosto musical", completa.
Marcado para hoje e amanhã, o Ibitipoca Jazz Festival, que volta ao Serra de Ibitipoca Hotel de Lazer (situado na estrada que liga a Vila de Conceição de Ibitipoca ao Parque Estadual), traz concertos solos e em duo. Quem abre é o guitarrista e cantor norte-americano Mark Lambert para, em seguida, receber o pianista carioca Marvio Ciribelli, figura sempre presente no encontro anual. No sábado, será a vez do baixista juiz-forano Dudu Lima e dos argentinos Blas Rivera (sax) e Tito Cartechini (bandoneon). A dupla tentará provar que jazz também dá em tango.
A diversidade cultural e étnica será o forte desta edição. Integram a banda de Mark Lambert o saxofonista e clarinetista inglês Nik Payton, o baixista gaúcho Guto Wirtti e o baterista norte-americano Jimmy Duchowny. Por e-mail, Lambert informa que realizará standards de seu último CD ("Mark Lambert – Under my skin", 2009), releituras de diferentes nomes como Cole Porter, Rolling Stones, George Gershwin, Bob Dylan e Sting, além de autorais, "todas elas numa roupagem jazzística/abrasileirada".
"Procuro tocar jazz com suingue, assim como toco música brasileira, sem imitar ninguém. Aliás, não tento fazer o que o pianista faz, mas o que o violonista faz, o que me garante uma forma diferente", destaca Ciribelli, que faz dobradinha com o violonista franco-brasileiro Marcel Powell (filho de Baden Powell), estreante no festival, mas não no repertório de Ciribelli.
"Será um prazer voltar a encontrar o Marvio, um cara que é um empreendedor nato, defendendo sempre a música instrumental e brasileira. Vira e mexe, a gente faz esta mescla", confirma Powell. "Quando nos conhecemos, eu tinha 17 anos (hoje ele tem 29), num lugar onde só tinha pianista. Ele começou a namorar Thaís Motta, minha amiga, desde então tocamos juntos algumas vezes", conta o violonista, convidado de Marvio e Thaís para um recente concerto no Teatro Municipal de Niterói.
O niteroiense Marvio Ciribelli se apresenta em Ibitipoca depois de uma turnê pela Europa, onde participou dos festivais Blue Planet in Concert, na Alemanha (nas cidades de Munique, Kassel e Heillbronn), e Montreux Meets Brienz, na Suíça (na cidade de Brienz). Por aqui, ele promete seu caldeirão temperado com samba, bossa, baião e choro, enquanto se prepara para o 12º álbum, "Theo e seu tio – Dez anos depois", e, ainda, um novo trabalho (ainda sem nome), gravado com integrantes do grupo holandês Focus.
Bastou Marcel Powell ser apresentado ao público pelo pai durante uma temporada no Rio Jazz Club, para o jovem músico revelar o que havia de melhor em seu código genético, chegando, rapidamente, a levar seu som para França, Alemanha, Áustria, Suíça, Itália e Japão, onde, inclusive tem CD gravado. No Brasil, Powell lançou o disco "Corda com bala" em 2009, produzido pelo guitarrista Victor Biglione.
Saxofonista e compositor argentino, Blas Rivera viveu 15 anos no Brasil e vem mostrando ao público da América, Ásia e Europa sua performance que mistura tango, clássico e jazz, uma herança da cultura musical de Astor Piazzolla. "O jazz se popularizou graças à indústria (fonográfica). Hoje, chamamos de jazz muita coisa", observa Rivera, também pela primeira vez no palco da serra, assim como o hermano Tito Cartechini.
"O jazz e o tango nasceram na mesma época, nos mesmos moldes, em bordéis e casas da burguesia, só que nos dois extremos das Américas", considera Rivera. "Minhas músicas têm essa levada, os envolvimentos harmônicos são muito conhecidos, apesar de o tango não ter tanta improvisação quanto o jazz."
Bandoneonista, que aos 24 anos passou a integrar o quinteto de Piazzolla e gravou inúmeros discos com diferentes orquestras, Cartechini é um dos dinossauros remanescentes da era do tango clássico. Mas tantas semelhanças só poderiam gerar afinidade diante do público. Blas Rivera lembra que conheceu Tito Cartechini em Madrid, onde, atualmente, eles residem. "Na bagagem de Tito vem seu envolvimento com as grandes orquestras dos anos 50 na Argentina. Ele traz ainda uma série de canções desconhecidas de Piazzolla", acrescenta Rivera.
Encerrando mais um Ibitipoca Jazz Festival, Dudu Lima, que participou de todas as edições, conta com Ricardo Itaborahy (piano, vocais e escaleta) e Leandro Scio (bateria) para interpretar as faixas do CD/DVD "Cordas mineiras". "O sucesso deste encontro está na forma como ele foi pensado", dispara Lima, referindo-se à sua participação no Festival de Montreaux de 1998, quando Hérmanes Abreu idealizou o projeto. "A gente gosta muito de tocar jazz em Ibitipoca, afinal é um lugar onde a música desperta o sentido, e as pessoas estão abertas a ouvir. Deve ser o astral da serra", arrisca o baixista, anunciando a possível canja do cantor Emmerson Nogueira em seu set.
O juiz-forano, que apresenta ainda arranjos instrumentais de importantes clássicos da música brasileira, como "Amor de índio" (Beto Guedes e Ronaldo Bastos), "Vento de maio" (Lô e Marcio Borges) e "Brasileirinho" (Waldir Azevedo), aposta na renovação. "A partir de concertos assim, que não pregam o jazz como se fosse somente aquele nascido nos EUA, convivemos com concepções que podem transitar também por baião, bossa e maracatu", conclui o músico. Se ele estiver certo, qualquer liberdade de expressão em Ibitipoca, neste final de semana, será bem-vinda.









