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Dependente da paixão


Por RAPHAELA RAMOS

29/06/2011 às 07h00

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Os pés do bailarino e coreógrafo Jaime Arôxa deslizam bem em qualquer salão. O artista, natural de Recife (PE), vai do palco à avenida do samba sem qualquer tropeço, passando pela sala de aula. Quando assume o papel de professor, Arôxa exibe sua faceta mais dedicada. Como coreógrafo, abre-se completamente para o novo, percorrendo todos os campos da arte, inclusive o carnaval. "Agora, se estou em cena dançando, sou vaidoso como um pavão", admitiu ele em conversa pelo telefone na segunda. A entrevista interrompeu os ensaios da carioca Companhia de Dança Jaime Arôxa, que desembarca na cidade hoje para participar da terceira edição do Festival Nacional de Dança de Juiz de Fora, promovido pela Funalfa. A produção "Com o brilho do teu olhar" abre as cortinas do evento e do Cine-Theatro Central às 20h. Os interessados podem trocar um convite por um livro de literatura em bom estado na sede da Funalfa (Avenida Rio Branco 2.234 – Parque Halfeld), com limite de dois por pessoa.

Arôxa se considera dependente da energia que vem do público. Nada acontece se os espectadores não se transportam para a ribalta. "Pensando nisso, escolhi o nome do show", conta, referindo-se à produção que passeia pelos seus 27 anos de carreira. Durante esse tempo, o artista criou inúmeros espetáculos apresentados somente no Rio. Para levá-los a outros cantos, decidiu juntar pequenos trechos em uma única montagem, composta por cerca de 20 bailarinos, entre eles, Arôxa. Assim, "Com o brilho do teu olhar" traz coreografias revisadas e ritmos diversos: samba, zouk, tango, salsa, entre outros. "Eu também converso com a plateia, buscando a troca", adianta o coreógrafo, garantindo que a experiência pode ser acompanhada por crianças, adultos e idosos.

A expressão "fantasia de salão" é usada por Jaime Arôxa para definir seu trabalho. Afinal, os bailarinos não estão em um baile propriamente dito e, sobre o palco, lançam mão de técnicas do clássico e do contemporâneo. "O que fazemos é balé baseado na dança de salão", explica. O recifense, que mora no Rio desde a década de 1980, instituiu um método próprio de ensino, valorizando a expressão dos sentimentos, o autorrespeito e o conhecimento sobre o outro. De acordo com ele, aliás, a dança pode agir como terapia, estando aberta para qualquer corpo e idade. "Ela é um antídoto para a solidão e faz as pessoas renascerem para muitas coisas", atesta, condenando os perfis virtual e efêmero dos vínculos de hoje.

Privilégio

A Companhia de Dança Jaime Arôxa já passou por inúmeros festivais pelo país. Na opinião de seu comandante, eventos do gênero contribuem para a formação de artista e público. Atualmente, Arôxa não vê preconceito em relação à dança de salão quando se une a adeptos de outros estilos. "Os profissionais estão se abrindo para novas experiências. Cada expressão é bela a seu modo", analisa ele. "Só não vale estudar duas semanas e ir para a cena."

Ao contrário do que muitos pensam, os passos a dois não são uma tendência do momento. É o que assegura Arôxa, ressaltando a longevidade e a multiplicidade dessa arte que o levou a coreografar peças, filmes, novelas, shows e comissões de frente. Para o artista independente, uma das justificativas de seu êxito está na propaganda boca a boca. "A dança causa paixão. E quando você está apaixonado, quer logo contar para o primeiro que aparece", menciona. Por outro lado, ele também acredita que não colecionaria tantas conquistas se não tivesse saído de Recife. "Infelizmente, tudo se concentra no Sudeste." Pai de três filhos, somente agora vê seu legado seguindo adiante. "O caçula, de 6 anos, está no caminho. Mas eu sei que é algo complicado. Os governantes entendem a arte como algo supérfluo", pondera, considerando-se um privilegiado.

 

"COM O BRILHO DO TEU OLHAR"

 Hoje, às 20h

 Cine-Theatro Central