Ouça agora

Vai ser dada a largada


Por BRUNO CALIXTO

29/02/2012 às 06h00

Numa articulação de mulheres que se prezem não podem faltar palavras, imagens e muito menos sons arquivados na memória. Para comprovar, o festival Mulheres no Volante (MnV) chega à quinta edição prometendo novidades e uma enxurrada de pretextos para celebrar o Ladyfest, evento feminista criado na cidade de Olímpia (EUA) em 2001 e disseminado mundo afora. Serão quatro dias seguidos de programação em Juiz de Fora (MG), de amanhã até o domingo.

Este ano, o festival traz a cantora Ellen Oléria, de Brasília (DF), e a banda de rock experimental Human Trash (SP) como destaques da programação, além de apresentações dos grupos locais Matilda, São do Mato, Moletones e GLAM. Diversas oficinas, performances, exposições, mostra de vídeos e debate estão escaladas para completar a maratona, cuja abertura acontecerá no Mezcla, e o restante no bom e velho reduto de sempre: Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM).

"Estamos comemorando cinco anos de festival, que só é possível a partir dessa grande rede de parceiros(as), artistas, militantes e apoiadores(as) do projeto", destaca Bruna Provazi, uma das organizadoras do festival, enfocando o tema "Mulheres no volante – Nas ruas e nas redes". "Neste contexto de grandes manifestações organizadas através da internet, como Primavera Árabe, Anonymous, Marcha das Vadias e Marcha da Liberdade, ressaltamos também a importância das redes sociais para nossa articulação e comunicação alternativa", diz.

Apesar de o Mulheres no Volante ter surgido em Juiz de Fora, a proposta fincou raízes em outras regiões, compartilhando, sempre, a ideia de criar uma rede de mulheres no volante pelo feminismo e pela cultura. "Em dezembro de 2011, realizamos nossa primeira edição fora de casa, em Brasília (DF), em conjunto com coletivos, artistas e movimentos sociais da região. Para este ano, são preparadas edições do MnV em Campinas (SP), Rio de Janeiro e São Paulo. Todas as atividades são gratuitas, exceto os shows de sábado e domingo, cuja entrada custa R$ 8.

"Criamos o festival diante da sensação incômoda de ir a shows e só ver homens no palco e produzindo os eventos", dispara Bruna, que toca guitarra nas bandas Top Surprise e Big Hole e idealizou o festival ao lado da artista plástica e professora Tainá Novellino – a produtora Paula Velloso entrou a partir da segunda edição.

 

Articulação em cadeia

Na abertura oficial de amanhã, uma edição revival do Eco Performances Poética vai promover o relançamento de obras inseridas no circuito literário em 2011. No elenco de poetas, Carolina Barreto e Joyce Scoralick acompanham Anelise Freitas e seu "Vaca contemplativa em terreno baldio" e Larissa Andrioli com "No silêncio de um show de rock". "Acho que nossa maior conquista é a criação de uma rede de mulheres atuantes produzindo cultura, inserindo-se em espaços ainda predominantemente masculinos, botando a cara a tapa, saindo de casa", destaca Bruna Provazi, enfatizando o caráter plural das manifestações artísticas, temperadas ainda pela exibição do documentário "Vulva la vida, vida lá vou eu" (Festival Vulva la Vida, Salvador/BA) e discotecagem com as Amigas da Pagu na mesma noite.

O grande destaque, no entanto, fica para o encerramento, no domingo, já que Ellen Oléria é apontada como uma das maiores expoentes do cenário musical brasiliense. "De alguma forma, sinto que a música que me atravessa toca muitas dessas mulheres em movimento. Elas se identificam com a força feminina da minha voz. Não tinha dimensão deste encontro até estar diante das meninas do Mulheres do Volante (edição de Brasília em 2011)", declara Ellen Oléria. No repertório, autorais do último disco, "Peça", de 2009, e inéditas do próximo álbum, ainda sem previsão de lançamento. Pela primeira vez na cidade, a cantora e compositora vai apresentar, em voz e violão, sua mistura de samba, afoxés, jazz e hip-hop. Como ela mesma frisa, sua influência é vasta e permeia a multiplicidade musical de Gilberto Gil, Alceu Valença, Carlinhos Brown e Racionais MCs, além das divas do samba Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus e Lecy Brandão, do suingue africano de Bonga (Angola) e Richard Bona (Camarões) e das vozes do soul e do R&B americano de Jill Scott, Tina Turner e Nina Simone.

Antes da diva da diversidade, o CCBM sediará a exposição fotográfica "Incompletudes", de Thalia Fersi. "Trata-se de uma mostra de olhares através do universo feminino e como este lugar, tendo como suporte água e tecidos, se traduz: misterioso, múltiplo e belo", define Thalia. Duas instalações permanentes contribuem para a cadeia de trocas. A fotógrafa Julia Milward assina "You" e "20 types of woman you should date", enquanto Priscilla de Paula se realiza a partir da construção de um espaço dialógico entre a artista e o participante em "12 cadernos". Já Raíssa Vitral e Bruno Kury apresentam a performance "Descarnadas", que, segundo informações divulgadas pela dupla, "tenta quebrar os paradigmas da heteronormatividade".

O Mulheres no Volante adotou o Catarse, site de financiamento coletivo, a fim de angariar recursos para sua realização. "Preparamos brindes para os apoiadores. Se você ainda não nos conhece, no próprio Catarse tem um vídeo feito especialmente para contar um pouco mais sobre a gente", comenta Bruna Provazi. Tainá Novellino justifica que a medida foi adotada pela dificuldade que a organização enfrenta para captar recursos. "Não conseguimos aprovar lei de incentivo e cansamos de bater na porta dos empresários", completa Tainá, arrematando mais um ponto a favor das conexões propostas pelo Mulheres de Volante com seu público.

 

Formação em pauta e nas telas

Serão oferecidas, gratuitamente, 11 oficinas, voltadas exclusivamente para mulheres. Na sexta, o debate "A mulher na mídia: da representação às formas de intervenção" contará com a atuação do coletivo Maria Maria – Mulheres em Movimento. "Vamos discutir como a mulher é retratada nos meios tradicionais de comunicação (televisão, rádio, jornal impresso) e como podemos utilizar a internet e as novas tecnologias para expressarmos nossas vozes", ressalta Bruna.

Na videoteca do mesmo local, a Mostra Itinerante de Cinema do Festival Primeiro Plano reunirá cinco curtas, entre eles "Uma noite", de Daniela Santos, "Qual queijo você quer?", de Cíntia Domitt Bitar, "A arte de andar pelas ruas de Brasília", de Rafaela Camelo, e "Cine camelô", de Clarissa Knoll. A lista também inclui "A obscena senhora do silêncio", que tem a vocalista da banda Voz del Fuego, Leandra Lambert, na direção. Ela, inclusive, se apresentou com o grupo no palco da primeira edição do Mulheres no Volante em 2007.