Entre o palco e o estúdio, Pablo Bertola lança ‘Retumbante’
Segundo disco da carreira do diretor musical dos grupos Ponto de Partida e Meninos de Araçuaí


Retumbante é o que se faz ouvir longe. Um som alto, mas harmônico. Faz sentido. “Retumbante” é também o nome do segundo disco de Pablo Bertola, cantor, compositor, ator, gestor e diretor musical dos grupos Ponto de Partida e Meninos de Araçuaí, desde 2012. Ele não teve tempo de escolher que viveria de arte. Quando nasceu, em Barbacena, seu pai e sua mãe já estavam imersos nos grupos e o menino vivia viajando junto deles. Aos 5 anos, subiu ao palco com o Ponto de Partida e nunca mais saiu. Agora, no processo de produção do disco recém-lançado, Pablo conta que precisou voltar ao começo de tudo e questionar: “Como é fazer isso? Como eu quero me encontrar?”.
O último disco do artista, “O menino e o poeta”, foi lançado há 16 anos. Por causa disso, nesse, ele decidiu fazer com que o álbum fosse o retrato do agora. “Eu queria me ver.” Para o repertório, ele olhou para toda a carreira e selecionou as músicas que “conversavam entre si, que faziam parte de uma mesma família”. “Retumbante” tem 14 músicas, compostas em diferentes momentos e com letras de vários parceiros, como Lido Loschi, Júlia Medeiros, Érica Elke e Hugo Guedes e os músicos Leandro Aguiar e Pitágoras Silveira. A banda que o acompanhou é formada por Gladston Vieira (bateria), Pitágoras Silveira (piano), Ciro Belluci (violão e flauta) e Marcos Paiva (baixo). Essas parcerias, para ele, são o que o motivam e assinalam o que ele é e como se propôs caminhar na arte.
O frescor do instante
Todos os instrumentos são acústicos. Essa escolha foi também uma das formas de se enxergar no trabalho, já que ele assume que gosta do analógico. Os convidados seguiram esse processo também. Mônica Salmaso foi convidada a participar da música “Par”. Ela foi composta para fazer parte do espetáculo homônimo do Ponto de Partida. Pablo conta que sentiu que a música tinha a ver com a voz da cantora. “E casou.” Além dela, também estão na ficha técnica Toninho Ferragutti (sanfona), Caetano Brasil (clarinete e clarone), Marco Lobo (percussão), Everson Moraes (trombones) e Jorge Helder (baixo).
Duas músicas (“Há de ter alguém” e “Colorido catavento”) foram gravadas em 2019, no estúdio da Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, e tiveram arranjo assinado por Mário Adnet. As outras foram gravadas na Bituca – Universidade de Música Popular. Alguns dos músicos convidados não puderam ir in loco gravar por causa da pandemia. O processo, para ele, foi diferente. A missão foi fazer parecer que estavam juntos. Mas ele percebeu que “o frescor, o instante, é mais importante que o perfeito”: marcas do teatro.
Disco quente, vermelho
Lorena Dini foi quem fotografou a imagem da capa de “Retumbante”. Pablo conta que quando mostrou o disco a ela, a fotógrafa sintetizou como “disco quente”. A capa, inclusive, é quente, vermelha. Ele achou engraçado, porque não imaginava a definição. Para ele, tudo foi natural. O que talvez dê essa sensação são as misturas de ritmos brasileiros que percorrem todo o álbum. “Isso também faz parte do meu processo. Meu ponto é mineiro, montanheiro, interiorano. Por isso é que causa identificação. Todo país é mais interior. Tem mais interior que capital. Então tem uma conversa com outras pessoas a partir dessa visão.”
O disco tem uma história. Tem o pedido de casamento, que deságua em charadas logo decifradas, ainda melancólicas, e começa a subir com “Par”, para findar de maneira esperançosa, que a participação do coro infantil impulsiona. Pablo diz que a história é quase a dele mesmo. “‘Retumbante’ faz um caminho, com curvas.” Esse processo de ter o que dizer com a música é também influência do teatro. “A busca é colocar no disco a energia do espetáculo. A interpretação do palco é diferente. No palco tem o corpo. A interpretação da palavra. A contação de história. Por causa do teatro, eu tenho preocupação com o que falar. O estado de presença é importante. Eu tenho que ter o que dizer”, diz. Ele assume que o teatro está presente no trabalho, é indissociável de quem ele é, mas é diferente. Ele prefere ficar entre o quente da interpretação ao vivo e a poesia da música escutada.










