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O humor nos tempos do Apocalipse


Por JÚLIO BLACK

28/11/2015 às 07h00

Depois de falar do fracasso pessoal em seu espetáculo anterior, Gueminho aposta no fracasso da humanidade em geral para fazer o público rir - quem sabe? - de si mesmo

Depois de falar do fracasso pessoal em seu espetáculo anterior, Gueminho aposta no fracasso da humanidade em geral para fazer o público rir – quem sabe? – de si mesmo

Imagine que o fim do mundo chegou, e Jesus Cristo veio conferir de perto o que a humanidade fez após ter nos deixado, há quase dois mil anos, suas receitas de fraternidade. O filho do Homem, provavelmente, não ficaria feliz com o que encontraria neste mundão de Deus. Pelo menos essa é a ideia do humorista Gueminho Bernardes, que apresenta, neste sábado e domingo, no Teatro do CEU de Benfica, o espetáculo “O fim do mundo é hoje”, que integra o 1º Festival de Comédia da Zona Norte, organizado pela companhia de comédia Teatro de Quinta. Segundo ele, a peça é fruto de um pedido feito após suas apresentações na cidade paulista de São José dos Campos do espetáculo “Como fracassar na vida e ser infeliz no amor”, com a nova atração sendo uma versão macro do sucesso anterior.

“Eu tenho um tipo de humor em que não quero fazer as pessoas rirem, somente, mas também refletirem. O humor, no meu caso, é o meio para isso. O ‘Como fracassar …’ tem esse objetivo de mostrar minhas opiniões sobre a derrota pessoal, e recebi um convite para voltar a São José dos Campos para dar seguimento à peça anterior”, conta. “Resolvi fazer um espetáculo sobre um outro tipo de perspectiva do ser humano, que é a ideia do fim do mundo, essa coisa de que um dia o mundo vai acabar. Somente nos últimos 20 anos, tivemos umas cinco ou seis datas anunciadas para o fim de tudo, fossem de Nostradamus, os maias ou asteroides. As religiões basicamente se alimentam do medo que temos da morte, geram uma série de dogmas inspiradas nisso, e daí resolvi fazer um show que falasse sobre o significado do fim do mundo para nós.”

Gueminho diz ainda que, por mais estranho ou óbvio que possa parecer, o espetáculo serve para que se faça uma reflexão sobre o fato de que “o fim do mundo faz parte do mundo”, mesmo que não seja algo literal. “Durante a vida, temos essa ‘experiência de fim de mundo’ em diversos momentos, como num fim de relacionamento, Tudo perde o sentido, perde-se o ânimo, nada mais importa ou significa. E há a ideia da morte como fim. Acho que a maior parte da minha reflexão é sobre a forma com que ciência e religião tratam disso. Para a religião, por exemplo, o mundo acabou mais de uma vez, como é o caso do dilúvio, em que só se salvou meia dúzia. Mesmo assim, a humanidade continua fazendo tudo errado”, critica. “Ao mesmo tempo – e dizendo assim pode parecer uma coisa assustadora -, para mim, quanto maior a desgraça, melhor a piada.”

“Essas coisas passam pela minha cabeça o tempo todo, e a partir disso criei a peça”, emenda. “As pessoas acreditam que Jesus vai voltar enquanto ainda estão vivas, e isso já tem dois mil anos. A humanidade espera por isso desde aquela época, que ele voltaria para salvar o mundo.

Críticas, mas com respeito e humor

Se a humanidade aguarda há dois milênios pelo retorno do Salvador, isso faz com que as religiões tenham se tornado parte não apenas importante, mas praticamente onipotentes e oniscientes na vida de muitos. E esta é uma questão que Gueminho aproveita para citar e criticar em “O fim do mundo é hoje”, mas sem perder o respeito pela opinião alheia. “A forma como as religiões e o fundamentalismo existentes interferem em nossas vidas é uma das coisas mais importantes hoje. Vivemos um momento em que as religiões estão interferindo na sociedade de maneira equivocada, rejeitando o conhecimento científico, o Estado laico, a liberdade de organização da sociedade, tudo a partir de uma doutrina religiosa. Respeito que cada um tenha sua doutrina, mas vemos que muitos querem impor à sociedade a maneira deles de ver o mundo. Há um abuso mercantil e da boa-fé das pessoas”, aponta. “Essa é uma trincheira importante a ser combatida, colocar as pessoas para pensar sobre isso e a própria ideia de Deus; se quiser acreditar em Deus, é preciso atualizar a forma como se faz isso. Ele não é um velho barbudo, rabugento, que fica trocando favores, que te dá um carro, uma loja, um emprego, que está servindo as pessoas.”

O humorista afirma que é preciso, sempre, acertar tom da piada. “A piada deve fazer a pessoa se ajeitar na cadeira, levá-la do desconforto à gargalhada, que é a recompensa. O básico é a piada ser engraçada ter um nível de bom de senso para saber até onde você agride ideias ou pessoas. Eu prefiro errar por ter arriscado. Se errou, pede desculpa e faz outra.”

 

Dez Mandamentos versão 2.0

“O fim do mundo é hoje” vai discutir ainda a nossa sociedade, tratando de algumas modas, como smartphones, música sertaneja, a rejeição ao glúten e até mesmo os (ainda?) onipresentes livros de colorir. “Essa geração com 6, 10, 12 anos vive em uma realidade totalmente diferente da que tivemos, quando quase ninguém tinha televisão, telefone fixo; é um mundo de consumo muito rápido, da tirania da novidade”, critica.

Sem querer entregar todo o ouro, Gueminho cita um trecho do espetáculo em que, vestido de Jesus, convida o público a ficar de pé e que só devem permanecer assim aqueles que seguirem todos os Dez Mandamentos, mas atualizados para temas atuais. “O ‘não roubarás’ é substituído pelo ‘quem tem Windows pirata no computador?'”, cita. “Eu elaboro uma nova versão para os Dez Mandamentos, que poderiam ser resumido em apena um: ‘eu vou tentar ser uma pessoa melhor que ontem, menos cretina, hipócrita, mentirosa, e mais gentil e educada.'”

Para terminar, o humorista é questionado sobre o que diria aos religiosos radicais, fundamentalistas e obscurantistas se Deus desse a ele, por um dia que fosse, toda sua onipotência e onisciência. “Acho que não haveria nada que pudesse dizer a eles que os fizessem mudarem de opinião ou postura. Penso, inclusive, que eles não acreditariam que era Deus ali. Não seria o discurso que faria com que mudassem, essa mudança precisaria acontecer com o que acontecesse em suas vidas. Ter que aprender na prática, e é o que humanidade vai ter que fazer, senão vai acabar. Não vamos acabar com o mundo, mas sim com as formas de sobrevivência neste planeta. Ou aprendemos com o que estamos fazendo, ou vamos encerrar nossa participação por aqui.”

 

O FIM DO MUNDO É HOJE

Neste sábado e domingo, às 20h

Teatro da Praça CEU

(Avenida Presidente Juscelino Kubitschek 5.599 – Benfica)