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Novo romance de Nara Vidal explora desejos reprimidos de uma mulher do interior de Minas

‘Previsão do tempo para Doralice Antunes’, lançado pela Todavia, joga luz sobre vida secreta e naturalização da violência


Por Elisabetta Mazocoli

28/10/2026 às 06h15

Em “Previsão do tempo para Doralice Antunes”, novo livro da escritora Nara Vidal, desejo e medo disputam o mesmo corpo. A obra de ficção lançada pela editora Todavia se dedica a acompanhar diferentes fases da vida da mesma mulher, que mora em uma cidade do interior de Minas Gerais e busca sempre fazer o que é considerado “certo” — e vive a vida sob essa ótica estrita. Ameaçada pela presença de outras mulheres estranhas da cidade e desde nova já envolvida com Otávio, a personagem se casa para fugir de um destino que considera o pior possível.

Com uma linguagem que capta a infantilização da personagem e a estrutura formal experimental com a qual a autora já costuma trabalhar, o romance se volta para a vida secreta que insiste em existir quando as portas se fecham. A escritora aproveita suas referências ligadas à Zona da Mata mineira para trazer foco para o que não é dito e expandir o universo dessa personagem que vive se escondendo.

nara vidal doralice antunes
(Foto: Divulgação/Todavia)

Ao escrever a obra, Nara conta que teve como inspiração as “muitas Doralices” que existiam ao seu redor enquanto crescia em Guarani, a cerca de 70 quilômetros de Juiz de Fora. “Muitas de nós, da minha geração, somos programadas para sermos uma espécie de Doralice. É esperado que a gente oprima todos os desejos que a gente tem: ainda mais aqueles que não são tão convencionais de acordo com uma configuração conservadora”, explica.

Para a escritora, o que motiva o processo criativo é justamente desvelar o subterrâneo dessas personagens, onde vão sendo abafadas as vontades dessas vidas consideradas sem grandes acontecimentos. “Os medos que ela tem conversam muito bem com esses desejos, porque os desejos são como se fossem ameaças para ela. São ameaças ao bom funcionamento da vida dela. Se ela sucumbir a esses desejos ou resolver ir atrás deles, imagina que a vida dela vá dar errado”, projeta Nara.

Em sua perspectiva, o trabalho do escritor consiste em observar elementos aos quais a grande parte da população não presta atenção — e perceber quando há, ali, elementos para serem desenvolvidos com maior atenção. “Devemos captar elementos muito microscópios, que muitas pessoas podem considerar desinteressantes, para criar. E eu quis criar uma personagem identificável, porque acho que há muitas Doralices por aí”, diz sobre a personagem que também traz à tona a existência de pessoas LGBTQIAPN+ em todos os cenários. Mas também porque ela enxerga na Doralice uma personagem que é tão obediente às configurações sociais e culturais impostas a ela que está acostumada a sempre se subtrair. Processo esse, inclusive, que ela também teve que trazer para a escrita: escrever a partir da falta, do não dito. 

Para construir essa personagem, ela explica que foi essencial entender por meio do que ela se escondia: de uma casa que ela mantém limpa, das comidas que ela faz, do marido que ela suporta, dos filhos que ela cria. “Acho que ela sequer se imagina infeliz, considera que a vida é isso mesmo, não há muito mistério. O que ela sente no escuro do quarto, ela lida de vez em quando, e as pessoas não devem saber”, diz.

Esse processo de criação se deu a partir de detalhes, pois Nara também conta que não gosta de escrever a partir de temas ou de sentir que está se repetindo. São justamente o risco e a possibilidade de “entrar em quartos escuros” para contar histórias que a motiva. “Gosto de pensar na escrita como se fosse uma trepadeira: você planta uma coisa e aquilo vai subindo e subindo, tomando conta, mas não sei muito bem para onde vai, como vai acabar. Eu me proponho a começar a história e a história vai me levando para esses lugares”, diz.

nara vidal doralice antunes
(Foto: Divulgação)

Violência naturalizada

A primeira cena do livro se volta para o momento em que uma criança é pisoteada por um cavalo e, então, é baleada — em uma sequência que mostra a prevalência da rotina da vida daquela comunidade, ao mesmo tempo em que o horror permanece de alguma forma com a personagem. Para Nara, esse momento é simbólico para mostrar como esses espaços podem ser violentos na naturalização da rotina e na supressão dos desejos.

Isso acontece, inclusive, dentro do casamento, na relação entre mãe e filho e até mesmo no modo como as crianças brincam. “Quanto menor a cidade, mais dramática aos nossos olhos ela fica. As vidas ficam muito expostas, porque é menos gente. Tudo fica muito grande, pesado, solene, dramático, às vezes trágico”, explica ela. 

Neste caso, em especial, ela conta que Guarani é sua Macondo, e que serviu como principal referência ao texto, ainda mais do que em romances como “Eva” (2022) e “Puro” (2024), que também tiveram inspirações lá.  Não só a personagem Doralice surge dessa vivência, mas muitas das outras mulheres criadas para o romance também nascem da observação.

Ela explica que personagens como tia Ene, Raimunda Sozinha e Marlene foram criadas a partir de referências da própria vida, e funcionam neste cenário também como pontos de referência para Doralice — inclusive, do que ela tem mais medo de se tornar, que é uma mulher “sozinha” e “sem casa”. “Ela tem fascínio e medo dessas mulheres, ao mesmo tempo”, diz.

Jogo de estátua

Um dos aspectos mais impressionantes de “Previsão do tempo para Doralice Antunes” é justamente a linguagem criada pela autora. Ao usar a primeira pessoa a partir da voz da personagem, intercalada com uma terceira pessoa que parece assumir a narrativa quando ela se exime de assumir o olhar, Nara mantém um tom infantilizado para contar a história.

A autora conta, inclusive, que essa linguagem foi construída com extremo cuidado. “Queria que a voz dela fosse infantilizada, como uma mulher que não se expõe a muitas outras coisas que não o seu universo. Ela fica empacada nesse universo, e fala como uma menina, mas já é uma adulta, ou uma velha. O tempo passa pra ela, mas ela mantém aquele aspecto infantilizado”, reflete.

Para ela, fazer isso criando uma personagem mineira permitiu ainda mais possibilidades, já que é comum no estado a predileção por diminutivos que reforçam essa característica. Por se tratar de uma personagem que tem uma limitação geográfica, ela queria reforçar que fosse uma limitação maior que essa — de alguém que nunca saiu do próprio universo. É como se, como ela define, a personagem vivesse em um constante “jogo de estátua”: “Eu vejo a Doralice como uma personagem que passa a vida sem se mexer, como se não se mexendo pudesse evitar que a vida fosse dura com ela, mas a vida não perdoa. A vida acontece assim mesmo”.