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Cinema-escola


Por JÚLIO BLACK

28/10/2015 às 07h00- Atualizada 28/10/2015 às 08h46

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Iniciada na última segunda-feira, a 14ª edição do Festival Primeiro Plano exibe até sexta-feira – além de longas-metragens – 50 curtas selecionados pela curadoria do evento, incluindo aí os 28 que concorrem ao prêmio de R$ 500 para o vencedor da categoria regional. Deste grupo, ainda há oito produções de alunos da UFJF disputando o Incentivo Primeiro Plano, que oferece R$ 7 mil ao vencedor para produzir outro curta a ser exibido na edição do ano seguinte. Das produções universitárias, três delas estavam programadas para exibição ontem: “Dialética”, de Pedro Soares, “Folífero”, de Karina Orquídea, e “Marlene – Histórias de um forró”, de Jéssica Faria Ribeiro. Para esta quarta, a programação reservou “reLoading”, de Caio Vieira, e “Enfim sós”, de Ariel Andrade. Na quinta-feira, será exibido “Dejavoodoo”, de Paulo Moraes, e, na sexta-feira, serão exibidos “Parapeito”, de Henrique Perissinotto, e “Grave”, dirigido a quatro mãos por Matheus Engenheiro e Tamiris Toschi.

Participando pela segunda vez do festival (a primeira experiência foi em 2014, com “Breu”), o diretor Paulo Moraes usa uma das maiores vergonhas da história do futebol brasileiro para contar a trama que envolve mistério e o sobrenatural. “Dejavoodoo” se passa durante o humilhante 7 a 1 imposto ao Brasil pela Alemanha na Copa do Mundo de 2014. “Um senhor foi ao bar assistir ao jogo e tomar sua cerveja, e a cada tacada que ouve na mesa de sinuca acontece um gol da Alemanha. Ele não se contenta apenas em observar, pergunta para o dono do bar quem está jogando e vai até ele perguntar como está fazendo aquilo. Ele é convencido a dar uma tacada também, e o resto da história não posso contar”, diz Paulo. Segundo ele, a ideia do curta é de um colega que também estuda na UFJF, Pedro Baptista, responsável pelo roteiro, transformado em obra audiovisual ainda no ano passado e que enfim terá sua estreia.

Quem terá sua primeira experiência como diretor no Primeiro Plano é Henrique Perissinotto, responsável por “Parapeito” e que estuda jornalismo na UFJF e publicidade no CES. A realização do curta-metragem foi feita no esquema vapt-vupt, a fim de ser finalizado a tempo para a inscrição no festival. “A ideia surgiu de um exercício de storytelling que tive de fazer, e escrevi o roteiro numa quinta-feira. Conversei com a Deborah Linhares, e já no sábado fizemos as filmagens, que terminaram no mesmo dia”, conta Henrique. Segundo ele, “Parapeito” trata dos dilemas cotidianos passados por todos nós, quando temos que tomar uma decisão. “É sobre uma garota (a própria Deborah Linhares, que também foi a diretora de fotografia) que pensa na vida que tem levado, se é aquilo que pretende seguir, mas particularmente gosto de acreditar que o curta é um elogio à vida, apesar das dificuldades. É uma história bem aberta, que no roteiro era ainda mais poético”, salienta o diretor, responsável também pela narração em off.

Questão de gênero na tela

Outro curta-metragem em que a reflexão é a tônica do trabalho é “Grave”, de Matheus Engenheiro e Tamiris Toschi. A produção, já exibida no festival Filmes da Estação, conta a história de Luciana, interpretada por MC Xuxú, “uma mulher que se vê impedida de realizar algum procedimento cirúrgico, ao que parece, por uma gravidez”, conforme conta Matheus. Ela decide, então, fazer um aborto. “(O curta) Surgiu da vontade de tratar o tema dos papéis de gênero. Acho que vivemos essa temática todos os dias, sabe? Sempre foi uma discussão constante para nós. O fato de a atriz ser uma mulher trans amplia muito as possibilidades de interpretação”, acrescenta, lembrando que MC Xuxú topou no ato protagonizar o curta.

“Nosso objetivo é puxar o assunto. Colocamos a questão e esperamos que as pessoas assistam e tenham oportunidade de conversar sobre isso, porque achamos que é relevante. Sentimos na pele todos os dias os efeitos do véu que cobriu esse assunto por muito tempo e que agora está começando a aparecer”, diz Matheus Engenheiro, que participa pela terceira vez do festival. O primeiro curta, “Sherazade” (também em parceria com Tamiris) é de 2012, e “Apite” foi exibido no ano passado. “Grave”, por sua vez, foi produzido entre 2014 e 2015, durante o curso de comunicação social na UFJF, com apoio do coletivo Centopeia nos equipamentos. “Tivemos a orientação do professor Nilson Alvarenga e co-orientação da Letícia Gonçalves, da Marcha das Vadias de Belo Horizonte. Toda a equipe, também da UFJF (comunicação, artes e humanas) se sentiu tocada pelo tema.”