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Compasso da palavra


Por MAURO MORAIS

28/08/2014 às 06h00

A música e a palavra. No traçado de Fabrícia Valle tem lugar para as letras, na qual se fez diplomada, e para o suingue, com o qual se fez profissional da música. E desses dois espaços, a percussionista formada também em percussão popular pela Universidade de Música Popular (a Bituca) faz diálogos. Em seu mestrado em estudos literários, ela pesquisou a obra de Milton Nascimento e, agora, ao lançar seu livro de estreia, Baião de uma (Aquela Editora), denuncia a força que a música tem em seus escritos. Tenho uma formação acadêmica que passa pela literatura. De uma forma ou de outra, tudo (música e literatura) está inserido na classe da cultura, mas, enquanto linguagem, a música sempre me escolheu, diz.

No lançamento, nesta quinta, às 19h, na Livraria Liberdade, parceiros das duas áreas – poesia e canção – se revezam em leituras dos versos. Participam do evento os poetas André Monteiro, Giovani Verazanni e Laura Assis; os músicos Caetano Brasil, Juliana Stanzani e Laura Januzzi; além de discotecagem do escritor Otávio Campos e pocket show da banda Matilda, da qual Fabrícia é integrante.

Escrevendo desde a adolescência, a escritora estreante cultiva, há pouco mais de três anos, um blog homônimo do livro, do qual surgiram alguns poemas, mas que, na verdade, serviu como processo até a publicação. É um compromisso estético e contra-ideológico. A palavra poética tem muita força, afirma ela, dizendo-se surpresa ao ver o trabalho pronto, as criações agrupadas e uma possível harmonia entre ela. O elo entre os poemas pode estar no ritmo e na subjetividade, mas não sei afirmar, deixo para o leitor. Para mim, essa ligação passa pelo compromisso com o fazer artístico, reforça. Característica já explicitada no título de Baião de uma, há suingue e também uma reflexão de mundo nos escritos de Fabrícia.

A vida não basta

Quando escrevo, não penso racionalmente no ritmo, mas de alguma forma a escrita busca esse movimento. A sonoridade está presente por essa via, mas não tenho um compromisso, acaba acontecendo. O compromisso do que escrevo é com o fato de que a vida não basta, discute. O ritmo não é da métrica poética, a contação de sílabas poéticas, mas tem a ver com uma aproximação com o sentido primário da poesia, completa, afirmando que, objetivamente, há o anseio por expressão. Agora, palavra habitada,/ Rasgo papéis sobre a cama,/ Esquivo-me de violentas passadas,/ E sigo com muitas vozes, pé na estrada, escreve em um dos poemas. Ela se diz influenciada por escritores como João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Paulo Leminski e Wally Salomão.

No compasso de sua geração, Fabrícia diz não ter muitas regras em seu verso livre, mas aponta sua disciplina ao revisar o que redige. Sempre volto no que escrevo. O poema nunca está pronto da primeira vez. Vou buscando o ‘sopapo no cognitivo’, como diria Tom Zé. Meu processo de racionalização talvez seja essa volta, esse retorno ao texto, comenta. Entre seus batuques, Fabrícia conclui: Não esgoto o texto, ele é quem me esgota.

BAIÃO DE UMA

Lançamento de livro

Hoje às 19h

Livraria Liberdade

(Rua Benjamin Constant 801)