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Os fantasmas de Murilo


Por MAURO MORAIS*

28/01/2016 às 07h00- Atualizada 28/01/2016 às 14h55

Respeitado cineasta, Luis Carlos Lacerda dirige séries, ministra oficinas e, aos 70, não pensa em parar de filmar (Léo Lara/Universo Produção/Divulgação)

Respeitado cineasta, Luis Carlos Lacerda dirige séries, ministra oficinas e, aos 70, não pensa em parar de filmar (Léo Lara/Universo Produção/Divulgação)

Tiradentes (MG) – Inicialmente, Murilo estaria no museu que leva seu nome, escrevendo. Não foi possível. Então, o poeta deixou Juiz de Fora e foi para o Rio de Janeiro, onde um documentário sobre ele seria exibido. O escritor, não, seu fantasma. Depois de mortos, Lúcio Cardoso e Murilo Mendes se encontram para falar do que fizeram. “O que seria deste mundo sem paixão?”, questiona o título do novo filme do carioca Luis Carlos Lacerda, em processo de finalização. A pergunta é extraída de uma frase dita pelo travesti Timóteo em “A crônica da casa assassinada”, de Cardoso, e representa não apenas o amor dos autores por suas penas, mas de um veterano cineasta por seu ofício.

Há alguns anos, o cineasta independente Cavi Borges sugeriu que rodasse um filme em Juiz de Fora. Ele disse não. Depois pensou melhor. Lembrou-se do Museu de Arte Murilo Mendes e quis ocupar o lugar. “É um museu de uma excelência impressionante. Parece que está na Europa”, elogia. Então, inventou uma história: “O fantasma do Lúcio vai visitar o Murilo, no museu, para reclamar que seus personagens estavam lhe perseguindo e lhe cobrando coisas”. As filmagens aconteceriam em setembro passado, na cidade, com o apoio da UFJF. Não deu. Depois pensou melhor.

“Como não deu para fazer em Juiz de Fora, depois dos cortes da universidade, transpus a história para o Museu de Arte Moderna do Rio Janeiro. O fantasma do Lúcio, então, fica sabendo que vai ser exibido o curta do José Sette sobre o Murilo na cinemateca e vai até lá para se encontrar com ele”, conta. No desenrolar da trama, os personagens surgem para discutir os livros com os autores. “Até que chega um momento em que o Lúcio diz que passou a ter menos medo dos personagens, e o Murilo fala: ‘A minha Passárgada é Juiz de Fora! Vou me embora!.”

O elenco de peso, formado por nomes como Paula Burlamaqui, Erom Cordeiro, Eriberto Leão, Natália Lage, Tonico Pereira, Carla Daniel e Nívea Stelmann é encabeçado por Armando Babaioff no papel de Lúcio, e Saulo Arcoverde como Murilo. Ainda assim, a produção é independente. “Não consigo incentivo desde que comecei a criticar publicamente o governo que ajudei a eleger. Parei de ganhar editais, meus filmes foram para a lista negra, mas faço série para o Canal Brasil, vendo trecho de um curta, dou oficinas e vou fazendo filmes, não paro. Vou vivendo do jeito que dá, inventando”, afirma o cineasta, com mais de 50 anos de estrada e sucessos no currículo como “Leila Diniz”, de 1987.

‘Não faço filmes’

Aos 70 anos, cabelos e bigodes brancos, Luis Carlos Lacerda, o Bigode, circula por Tiradentes com familiaridade. Nos últimos anos ministra a oficina “Realização em curta-metragem” e apresenta seus filmes. Na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, ele lança “Introdução à música do sangue”, com Ney Latorraca, Bete Mendes, Armando Babaioff e Greta Antoine, no próximo sábado, no Cine-Tenda, às 18h. Baseado num argumento original escrito por Lúcio Cardoso, o filme fala sobre uma família na roça e suas muitas opressões e desejos. Lúcio, mais uma vez. O primeiro curta e o primeiro longa eram sobre a obra do escritor mineiro. Depois ainda veio um documentário. E, agora, mais duas produções.

“É um filme pequeno, mas que vai ficar. Tem um tempo muito fiel à literatura do Lúcio, da introspecção psicológica”, adianta Bigode, que contará com a distribuição do conceituado produtor Marcelo Maia, que também distribui os filmes de Júlio Bressane e Cláudio Assis. Na equipe técnica, mais uma vez, nomes novos, como o do diretor de fotografia Alisson Prodlik, que passou de aluno a amigo. “Cheguei à oficina dele em 2007 como um fotógrafo de casamento, não gostava de filmar e não me dava bem com uma câmera. Hoje fotografo pouco, começo a fazer uma foto e rapidinho começo a filmar. Fui abduzido pelo cinema”, diz Alisson, que entrou numa sala de cinema pela primeira vez aos 25 anos.

Já com um olhar sofisticado e sensível, o diretor de fotografia se baseia em grandes pinturas para fazer sua leitura dos roteiros de Lacerda. Em “Introdução à música do sangue”, um pouco de Rembrandt e Volpi. “Tudo luz ambiente, sem refletor. Ele estudou o movimento do Sol, tirou telhas do teto e colocou de vidro. Só há luz quando, na dramaturgia, a mulher pede para que o marido ligue a energia”, pontua Bigode, que pouco a pouco vai contaminando os que estão à sua volta com um amor sobretamanho pela arte, que também guiou Lúcio Cardoso e Murilo Mendes. O que seria deste mundo sem paixão? Atento e ligeiro, Bigode lança: “Quero a poesia. Meus primeiros filmes ainda são exibidos. Os jovens assistem. Cadê daqui a 40 anos o ‘De pernas pro ar’? Não faço filmes, faço cinema.”

* O repórter viajou a convite da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes