Aqueles 15 minutos

Filme juiz-forano, lançado em Tiradentes, reúne atores do RJ e SP, com experiência em TV e cinema (Diego Zanotti/Divulgação)
O assunto é simples. O tempo é curto. E a narrativa, veloz. “Aqueles cinco segundos”, filme de Felipe Saleme que estreou na noite da última terça na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, alcança a leveza na despretensão. Um casal de amantes se encontra num quarto de hotel e tenta se recordar do primeiro beijo. O curta-metragem financiado com recursos da Lei Murilo Mendes poderia ser frágil, não fosse o trabalho de se voltar inteiramente para a interpretação. Com roteiro de Tairone Vale, também ator, e dirigida por outro experiente ator (Saleme integrou o Grupo Ponto de Partida), a produção traz para a cena dois rostos conhecidos na telinha: Gabriel Godoy (de “O negócio”, da HBO) e Luciana Paes (da global “Além do tempo”).
Milimetricamente afinados, os atores dão vigor aos diálogos, além de nuances dramáticas e humorísticas. Em 15 minutos, surgem risos na sala e também uma tensão por aquele caso extraconjugal que se descobre, passados dois anos, debilitado. Segundo o diretor de fotografia, presente na exibição, Kiko Barbosa, “a proposta era inserir na fotografia o que acontece entre os personagens”, dando enlevo ainda maior às atuações. “A própria geografia do quarto ajudou a criar uma distância no início e uma aproximação depois”, comenta. Para o produtor César Campos, “durante as filmagens foi muito diferente trabalhar com eles, porque a compreensão dos atores era imediata”. “Essa experiência de trazer atores com estrada na televisão e no cinema dá para ser percebida na tela”, defende.
E as novas caras para o cinema feito em Juiz de Fora também ajuda a refrigerar a cena, que tem perseguidos os mesmos rostos – apesar de bons, cansativos. Produtora de “Aqueles cinco segundos”, a Impulso Hub também finaliza outro curta-metragem com atores “estrangeiros”. Segundo o diretor Daniel Couto, “Barbante”, com a veterana Laura Cardoso, deve ficar pronto em março. “Quem tem que assistir primeiro são os moradores do bairro. Passado isso, vamos planejar uma agenda em festivais”, adianta, referindo-se ao Bairro Poço Rico, onde foi rodada a trama.
Apresentado em Tiradentes dentro da Mostra Dissonâncias, de filmes que não foram unanimidade entre os jurados, “Aqueles cinco segundos” dividiu sessão com produções completamente distintas. Incompreensível, no entanto, já que sete curtas juiz-foranos foram exibidos no domingo, e o trabalho de Saleme se afinaria perfeitamente com as outras obras, ajudando ainda mais na leitura do momento cinematográfico local. Talvez, a discordância da seleção se deva, justamente, à falta de hermetismo tão presente no festival, se deva à palatável história e estética que o curta enseja. Mais um ponto para Juiz de Fora, que ao longo da mostra tem se apresentado multifacetada, navegando por entre linguagens comerciais e experimentais com uma desenvoltura por si só marcante.
* O repórter viajou a convite da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes









