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Papo de elevador


Por JÚLIA PESSÔA

27/11/2015 às 07h00- Atualizada 27/11/2015 às 08h33

Jovens atores contracenam dentro de um elevador

Jovens atores contracenam dentro de um elevador

Sobe? Sobe. Muitas vezes, o diálogo entre os passageiros de um elevador se reduz ao trajeto do mesmo, ou a conversas fáticas e genéricas sobre o tempo e as últimas manchetes nos jornais: “Que calor danado, hein?” “Mas disseram que vai chover”, “Você viu que roubalheira?”, “Isso é o Brasil”. Ao ter acesso às emoções explosivas que se dão entre um andar e outro do trajeto de um elevador no espetáculo “Relatos não oficiais sobre o andar 43″, o público assume o papel de um voyeur, acompanhando cada descoberta dos personagens, cada transição de comportamento, cada nova sensação, tudo isso em um espaço cênico de somente 2m². ” Sempre pensei em criar, para teatro, uma história que se passasse em um espaço reduzido e cheguei ao elevador, que me levou a soluções cênicas muito desafiadoras. Fui impulsionado a criar algo que fosse capaz de exprimir transições, dar agilidade e movimento às cenas, e toda a dramaturgia e a cenografia giram em torno disso”, diz Thiago Cazado, diretor, autor e um dos roteiristas da peça.

Entre subir e descer, a montagem narra o encontro entre Maurício e Bernardo, dois funcionários de uma mesma empresa, chamados ao andar 43, onde se situa a sala do Dr. Lustosa, dono do império farmacêutico que emprega os personagens. Durante o trajeto entre os andares, o elevador para, e os personagens passam por diversas descobertas, de fatos macabros sobre a firma em que trabalham a manifestações íntimas de seus desejos e de sua sexualidade.

“Escrevi o texto em um momento em que as pessoas começaram a levantar bandeiras muito estranhas, como a volta do golpe militar e o repúdio ao beijo das personagens de Nathália Timberg e Fernanda Montenegro em uma novela. Esse reacionarismo me provocou como artista de alguma forma e quis questioná-lo na peça” explica o autor, destacando que o espetáculo, em linhas gerais, é um desafio a pensamentos autoritários e repressores.

“É uma crítica à privação da liberdade individual, tanto dentro de uma empresa, quanto no que diz respeito à sexualidade das pessoas, mas não quis dar ênfase a uma causa propriamente dita. A peça tem dois homens que por acaso se desejam e decidem viver isso ou não. A ideia é mostras às pessoas que a sociedade pode nos privar de nossos direitos mais individuais se cedermos a normas e preconceitos velados.”

Tempos de segregações

Para o ator Joheber Duarte, que contracena com Thiago Cazado, tratar de questões como o preconceito sexual e o abuso de poder institucional, ambos instituídos de forma velada na atualidade, é fundamental. “Vivemos em tempos de grandes segregações. Todo mundo quer defender suas opiniões e interesses de maneira cada vez mais intolerante. Mas as mudanças vêm acontecendo, e a peça mostra isso, tanto as transformações quanto o medo delas. Toca em temas essenciais, desvenda sentimentos muito próprios do ser humano, do mais conservador ao mais livre, vítima ou algoz do preconceito, e no fim, todo mundo se redime, é impactado”, pondera.

Durante o espetáculo, há cenas de nudez e violência psicológica, mas para o diretor Thiago Cazado, a exploração dos recursos não é polêmica em si, mas pelas reflexões que causam no espectador. “É claro que mexem muito com a curiosidade, desperta a atenção do público. Mas esse voyeur vê muito mais que o físico, expomos muito mais que os corpos, e isso provoca sensações que vão muito além do desejo de ver e da sexualidade”, diz Thiago. O diretor relata que a realização do espetáculo foi permeada por um preconceito velado, quando a relação afetiva/sexual e a nudez de dois homens em cena era revelada.

“Percebi algumas coisas. Em algumas cidades, normalmente as menores, a imprensa não quis divulgar o espetáculo e simplesmente ignorava o material de divulgação. Outro problema foi com empresas apoiadoras da peça, muitas não queriam associar seu nome a um trabalho artístico que explorasse uma relação gay – ainda que não fosse centrado nisso – ou a relação abusiva entre empresa e funcionários, comum em muitos ambientes de trabalho”, revela o diretor.

Na visão de Joheber, mesmo partindo de uma situação extremamente peculiar, o espetáculo é capaz de tocar o público de maneira universal. “Até porque as pessoas têm uma visão claustrofóbica: as coisas vão acontecendo ali, diante delas. A metáfora do elevador é muito bonita e cotidiana, uma situação que todo mundo já enfrentou, ou pensa que pode enfrentar em algum momento. Várias questões sociais são abordadas de uma maneira muito urgente e causando muitos impactos sobre a existência de nossos tantos preconceitos”, observa o ator.

Esquizofrenia criativa

Para Thiago, desempenhar estas múltiplas funções na realização da peça é um processo um tanto “esquizofrênico”. “Preciso desligar uma chavinha cerebral mesmo. Quando vou entrar em cena, digo para mim mesmo: ‘esquece, diretor, esquece autor, meu compromisso agora é dividir este momento com o Joheber e responder ao que ele me oferece em cena”, conta ele, em referência a Joheber Duarte, o outro ator “preso” neste elevador cênico. Segundo Thiago, com a evolução do espetáculo, que já está em sua segunda montagem, foi também um fator para sua constante reformulação. “As apresentações vão dando sinalizações sobre o que dá certo ou não. Então minha direção vai até certo ponto, a melhor ferramenta, na verdade, é a estrada, o trabalho em equipe. Acabo vendo o trabalho como se outra pessoa tivesse escrito”, contra o dramaturgo, referindo-se ao Teatro Express, coletivo que produziu o espetáculo mesmo não tendo base territorial fixa e reunindo integrantes em Brasília, São Paulo e Rio.

Eternamente em construção, segundo ator e diretor, o espetáculo tem, inclusive um momento com participação ativa do público. “A determinada altura da peça, a plateia faz a iluminação, podendo optar por lançar luz sobre o que quiser, o que é um experimento muito interessante”, adianta Thiago. Depois de Juiz de Fora, a montagem continua rodando o país, com planos de passar pelo eixo Rio-São Paulo e várias capitais em 2016, arrebatando o público que mal sabe o que espera quando adentra o elevador. Sobe? Definitivamente, sobe.

“RELATOS NÃO OFICIAIS SOBRE O ANDAR 43”

Neste sábado, às 19h e 21h, e domingo, às 18h e 20h

Espaço Cultural Diversão e Arte

(Rua Halfeld 1.322)