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Por experiência própria


Por JÚLIA PESSÔA

27/11/2013 às 07h00

Sentados à beira da estrada, um casal de irmãos deixado ali pelos pais como castigo compartilha uma música, usando o mesmo par de fones de ouvido. A imobilidade dos adolescentes contrasta com todo o pulsar de uma típica rodovia brasileira: carros em alta velocidade, moradores dos arredores que têm o cotidiano cortado pela estrada e passam vez ou outra pelos acostamentos, sutis movimentos da paisagem. Se o prólogo do longa de Marcelo Lordello parece sugerir uma narrativa de abandono, todo o filme é permeado por uma série de encontros transformadores, sempre – com maior ou menor intensidade – sob a promessa de um maior, já sugerido no título: "Eles voltam".

Aplaudido no circuito de festivais do Brasil e do exterior, o filme foi premiado em Brasília como melhor filme (dividiu com "Era uma vez eu, Verônica", de Marcelo Gomes), prêmio da crítica e melhor atriz (Malu Tavares, de apenas 12 anos), além de ter sido contemplado o Prêmio de Distribuição TVCine, na 10ª edição do Festival Indielisboa, em Portugal. Em entrevista à Tribuna, o diretor Marcelo Lordello, que também assina o roteiro, conta que a ideia original foi para um curta que chegou a ser roteirizado e premiado. "Isso foi em 2006, mas o roteiro falava mais sobre a solidão como um estado primário do existencialismo humano, e quando fui realizá-lo com a verba do prêmio em 2009, não queria dizer mais aquilo. Então reescrevi o roteiro e decidi que faria um longa."

Lordello foi além da ousadia de abandonar o roteiro pronto, ao encarar o desafio de fazer o longa com os recursos que teria para o curta-metragem, provenientes do edital Firmo Neto de roteiros e de R$ 47 mil, orçamento baixo para o cinema. "Fiz o filme com meus amigos e fui abrindo mão das coisas de que a produção me permitia. Acho que vivemos um momento no cinema nacional – especialmente no Nordeste – em que as pessoas descobriram caminhos interessantes para fazer filmes bons de forma barata, usando redes de colaboradores, que vêm se fortalecendo", pondera o diretor.

A protagonista da trama, Cris, é vivida por Malu Tavares, que, como quase todo o elenco, não é atriz profissional. "Tive certeza que a Malu seria a protagonista, o que pode até ter sido uma escola ousada, mas muito acertada. O roteiro foi sendo ajustado depois que eu já a conhecia, e senti isso com vários outros atores, sendo que todos têm um pouco essa vivência local. Isso deu mais liberdade para que a interpretação fosse natural, que eles emprestassem mais de suas dimensões e histórias aos personagens", opina o cineasta, destacando que nem por isso descartou uma cuidadosa preparação de elenco e uma rotina de ensaios.

 

‘Sair das fronteiras’

Cansado de esperar pela volta dos pais, o irmão de Cris decide ir procurá-los e obriga a menina a ficar no local onde foram deixados. E é esta solidão que retira a adolescente da inércia, levando-a a uma jornada de engrandecimento, ainda que de maneira contemplativa. "É o momento de construção de uma consciência própria, adquirida apenas por conviver em um espaço. Em outro nível, acho que o filme também é uma metáfora sobre este medo contemporâneo de viver, de sair das fronteiras e das zonas de conforto, medo de alguma coisa ruim acontecer", opina o cineasta Marcelo Lordello.

Emblemática no repertório cultural da sociedade em fábulas como "O mágico de Oz", "Alice no País das Maravilhas" e "João e Maria", a busca pelo caminho de casa, também em "Eles voltam", leva a improvável heroína a encontros pouco plausíveis em sua realidade cotidiana, mas que transformam profundamente a personagem e suas visões de mundo, como quando chega a um assentamento de trabalhadores sem-terra. Para Lordello, foi essencial dirigir estas passagens de modo a deixar que o público tirasse suas próprias interpretações sobre os possíveis contrastes entre os universos. "Fico muito incomodado com algumas representações na TV e no cinema, que sublinham demais as coisas. Procurei deixar que a Malu atuasse sem muitas ações, sem muitas exposições. Só de a personagem lidar com aquele ambiente, um discurso muito forte já é criado, e ele fala de uma maneira que não aponta o dedo, não é didática, mas compartilha uma experiência com o espectador."

Ansioso com o lançamento nacional do filme em 7 de fevereiro do ano que vem, aumentando seu alcance, Lordello confessa que tem se surpreendido com a receptividade, até o momento restrita aos festivais por onde passou – e tem agradado. "Não fiz o filme para ganhar público, foi uma história que eu quis contar e não descansei enquanto não o fiz. Ter sido o guia narrativo da Cris me colocou muito na posição dela, de me lançar no mundo mesmo, que talvez seja uma necessidade de todo mundo em algum momento."

 

"ELES VOLTAM"

De Marcelo Lordello

Hoje, às 20h

No Alameda (Rua Moraes e Castro 300 – Alto dos Passos)