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‘Interessa-me abrir espaço para o discurso do outro’


Por MARISA LOURES

27/10/2015 às 07h00- Atualizada 27/10/2015 às 08h35

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“Eu tava picando um molhe de cebolinha-de-cheiro pra botar na vaca-atolada quando ela me disse: ‘já vou indo, mãe’ a única coisa que me ocorreu foi perguntar: ‘Você não vai comer nem uma coisinha?'” Dona Jovita estava preocupada, não queria que a filha deixasse São João Grande, município de Ponto dos Volantes, de estômago vazio. Contudo, o destino de Betinha era seguir viagem e procurar novos horizontes na cidade grande. Nem mesmo o filho Biel, parido alguns anos depois de várias indas e vindas, a segurou naquela pequena localidade de pouco mais de 11 mil habitantes.

Não fosse um trágico acidente, a história dessa mãe e dessa filha, com sua maneira simples de falar, faria parte de um documentário sobre o trecho mineiro da Rio-Bahia (antiga BR-4 e atual BR-116), realizado pelos amigos Humberto e Murilo. Interrompida quase no fim, na madrugada do dia 16 de setembro de 2011, com a morte de Murilo, o trabalho não foi editado, mas o material chegou às mãos do escritor e professor Fernando Fiorese, que o leva para “Um chão de presas fáceis” (Escrituras, 279 páginas), livro lançado em Juiz de Fora, nesta terça-feira, com patrocínio da Petrobras.

“Eu tive que fazer esse processo de seleção das histórias, transcrevê-las, dar uma ordenação, tentar fazer uma linha que não é propriamente narrativa, é mais uma linha geográfica da viagem mesmo. Eu creio que o leitor poderá, de alguma maneira, construir uma linha narrativa. Em geral, os textos dizem respeito à experiência dessas pessoas em torno de uma paisagem muito transitória, de uma paisagem de atravessamento, de uma paisagem cultural muito complicada”, revela o poeta, nascido em Pirapetinga, a 45km da BR-116. Para a produção do livro, parte das cidades percorridas pela dupla de documentarista foi revisitada por Fiorese.

“Quem nasceu muito próximo da Rio-Bahia sempre a teve como rota de fuga, e eu pensava que esse era um fenômeno muito ligado aos anos 60, 70, no máximo, 80. No entanto, muito recentemente, percorrendo estas cidades, comecei a observar que ela continua a ser a promessa do grande centro, a promessa de alcançar uma experiência de vida melhor, mais rica, face ao empobrecimento e à falta de horizonte das comunidades. Em geral, os jovens veem a Rio-Bahia como uma rota de fuga em relação a uma realidade muito reduzida.”

A pedido do próprio Humberto, o sobrenome da dupla de documentaristas não é revelado por Fiorese. “Eu e o Murilo, o que a gente mais queria era desaparecer atrás daquela câmera, (…O Nós somos apenas mais dois personagens dessa história. Então, você inventa os nomes que quiser para a gente, mas não põe sobrenome, não. Sobrenome é coisa de gente metida a besta.”

Tribuna – Existe um pouco de ficção nestas histórias?

Fernando Fiorese – Como qualquer documentário, é tudo verdade. De fato, esses depoimentos foram colhidos, estas histórias foram contadas, mas, para que elas literariamente funcionassem, para que elas se convertessem numa narrativa que pudesse ser lida sobre a página de um livro, foi preciso que eu tornasse isso alguma coisa de sustentável em termos literários.

– “Um chão de presas fáceis” é seu primeiro romance. O que tem do poeta no romancista?

– Existe uma coisa que é comum a todos nós que lidamos com a escrita, que é uma preocupação com a linguagem, com o texto. Elaborar um texto que seja agradável ao leitor, que cause algum tipo de resposta, seja mais intelectual, seja mais afetiva. Eu quero que a fala do narrador que reside no Vale do Jequitinhonha, por exemplo, seja identificável como alguém que é do Vale do Jequitinhonha. Tenho esse cuidado de aproximar a fala local do registro no papel.

– Como um escritor que surgiu em meio à geração que produziu a aplaudida revista “D’Lira”, considerada pela crítica a melhor revista literária da época, como avalia a literatura que era produzida nos anos 1980 e a produzia hoje?

– A literatura que se fazia naquela época em Juiz de Fora tinha lá as suas qualidades, mas era infinitamente inferior ao que se produz hoje, e não estou falando dos escritores que começaram lá e continuam escrevendo, porque isso seria óbvio. O Edmilson (de Almeida Pereira) escreve muito melhor hoje do que escrevia naquela época. O Iacyr (Anderson Freitas), da mesma maneira, e o Júlio Polidoro, também. A gente padecia, naquela época, de uma inocência, de uma falta de acesso à informação que as gerações que escrevem hoje não têm. Tudo está muito acessível.

– Você é leitor dessa nova geração de escritores?

– Tenho acompanhado, feito alguns prefácios, algumas orelhas para o pessoal que está publicando hoje e fico surpreso com o que vejo. Eu poderia citar, por exemplo, o Otávio Campos, a Maria Diva Boechat, que está publicando o seu segundo livro e para quem eu fiz o prefácio. Os primeiros livros desses autores são muito melhores que as nossas primeiras obras. Embora isso não signifique que vá se construir uma obra. Muitos, lá dos anos 80, escreveram ali naquela época e depois abandonaram e nunca mais escreveram nada ou partiram para outras experiências, como é o caso do José Santos, que começou como poeta nos anos 70 e 80 e hoje se dedica com brilhantismo à literatura infantil.

– Qual o papel do escritor na sociedade?

– Continua a ser muito político, no sentido de que ele é uma voz que se coloca na cidade como uma maneira de causar incômodos, de chamar atenção para determinadas questões, de envolver as pessoas numa reflexão a respeito da sua própria realidade. Talvez a gente pudesse dizer que existia naquela época (anos 80) uma ilusão de que a poesia fosse contribuir para um processo revolucionário imediato, e hoje a gente compreende que as revoluções não se dão no grande plano da sociedade. O que é preciso revolucionar são as pessoas. A poesia, como a literatura, como as artes em geral, pode contribuir mudando as pessoas, mudando a cabeça das pessoas, criando novas sensibilidades, chamando a atenção para as pessoas refletirem sobre novas questões e, talvez, a partir disso, com outras forças que se juntam às artes, que possam efetivamente transformar a sociedade ao longo do tempo.

– O que te instiga hoje a escrever? Quais são suas inquietações?

– Acho que cada vez mais a possibilidade de flagrar as histórias das pessoas. Seja na poesia, seja na prosa, me interessa muito abrir espaço para o discurso do outro, para que outras vozes, que nem sempre têm possibilidade de se manifestar na literatura, possam falar. Não é uma preocupação muito diferente, por exemplo, do que a gente vai encontrar nos documentários de um Eduardo Coutinho, que abre o seu microfone e a sua câmera para que as pessoas falem a respeito da sua experiência. Não é alguma coisa diferente de determinadas práticas dos meios de comunicação alternativos, rádios, jornais, canais de vídeo no YouTube, que dão oportunidade ou que são feitos por pessoas que não têm acesso à grande mídia. Gosto dessa possibilidade de pluralizar o discurso que é veiculado no interior da sociedade.

LANÇAMENTO DE LIVRO

“Um chão de presas fáceis”

27 de outubro, às 20h

Forum da Cultura

(Rua Santo Antônio 1.112 – Centro)