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Nely Gonçalves, pioneira do samba na região, celebra uma vida dedicada à música

Artista de São João Nepomuceno recebeu homenagem no 9º Encontro das Mulheres na Roda de Samba


Por Elisabetta Mazocoli

27/09/2026 às 06h00

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Homenageada no 9º Encontro das Mulheres na Roda de Samba, Nely Gonçalves segue compondo e celebrando a música que atravessou toda a sua vida (Foto: Leonardo Costa)

“Eu comecei muito zureta, tudo que eu aprendi foi por vontade própria”, diz Nely Gonçalves. Ainda menina, em São João Nepomuceno, ela começou a se interessar por música e a cantar em igreja. Como mulher negra, no entanto, sabia que a sociedade da época tinha muitas limitações para aceitá-la cantando. Passou então a ensinar à irmã, branca, as mesmas músicas de que gostava, para que ela se apresentasse em concursos de rádio no seu lugar — e ganhar. Mas quem tinha a paixão mesmo era ela. E, principalmente, pelo samba.

Vendo nomes como Beth Carvalho com seu cavaquinho na mão, se pôs a copiar os gestos, sozinha, e fez tudo que pôde para ser também uma pioneira na música. Foi um amor que se estendeu pela vida inteira e que gerou muitas criações: ela e a sobrinha, Roseane Messias, já perderam a conta das “trocentas” marchinhas que Nely criou para escolas de samba da cidade e que carregou na voz para que outras pessoas conhecessem. Aos 86 anos, ela recebeu homenagem no 9º Encontro das Mulheres na Roda de Samba, ao lado de nomes como Zezé Motta e Jovelina Pérola Negra, trazendo destaque para a Zona da Mata. 

A vontade de trazer o samba para própria vida não foi ensinada por terceiros — foi ela que trouxe para a família. Tanto no canto quanto no violão e no cavaquinho, ela disse que também precisou aprender por conta própria para depois ganhar espaço onde queria chegar. “Negócio de música, comigo, tem que ser sozinha. Eu não peço a ninguém, só olho. Sempre fui assim”, relembra.

Mas a “estrela” que havia nela começou a chamar a atenção, a tal ponto que, ainda na juventude, ela se recorda de quando frequentava programas de calouro ou os típicos festivais de música e já ser reconhecida de cara pelos concorrentes. “Fazia muita raiva nos outros. Eles falavam: ‘Cheguei pra concorrer, mas a Nely vai ganhar’. Ficava até com vergonha, mas já era certo.” A sobrinha se lembra de, ainda criança, ver a tia sair de premiações com mais de três troféus, que Nely ainda guarda em casa.

Parte importante dessa trajetória se deu no carnaval, que na cidade sempre foi marcado como um dos períodos mais agitados do ano. Nely é reconhecida como a primeira puxadora de samba da cidade, que ela carrega com orgulho e espanto. “Eu era muito doida”, diz e ri. “Já arrumei tanta confusão na minha vida, que tem hora que eu nem lembro mais”, afirma.

Por isso, a sobrinha ajuda a relembrar parte dessa história, que se deu com colaborações muito importantes, com sambas criados todo ano para a escola de samba do coração, Esplendor do Morro, assim como para o Bloco da Girafa. Desse último ela se lembra com a maior diversão. “Sempre fazia música de gozação e todo mundo se divertia. Era bom demais. Todo ano a gente estava ocupada com o carnaval. Era bloco de não sei o quê, escola de samba, era 24 horas”, diz.

Ser a responsável pelo que canta, no entanto, é bem diferente de apenas interpretar. E ela sabe bem o peso disso. “Eu nem gosto muito de cantar música minha, mas canto, porque para os outros aprenderem tenho que cantar. Mas a responsabilidade é muito maior”, afirma. Parece fazer isso inclusive porque sabe a importância de usar a própria voz para criar, já que tantas mulheres como ela tiveram esse espaço negado antes. “São João era uma terra muito preconceituosa. Só depois o pessoal começou a abrir mais os olhos, e aí eu pude começar a ir nos bailes, cantar e dançar”, diz.

Entre as músicas que fez e de que mais gosta está uma composição em homenagem a Clara Nunes, que passou a integrar o repertório de rodas de samba com protagonismo feminino em Juiz de Fora: “Oh Clara, oh Clara, claridade, clareia/No palco do firmamento/Brilha mais que a lua cheia/Iluminada pela deusa dos orixás/Ela já nasceu estrela/Com o canto dos sabiás/Talento musical, jeito faceiro/Voz doçura mineira, guerreira”. 

Nely Gonçalves, pioneira do samba na região, celebra uma vida dedicada à música
Foto: Leonardo Costa

A melhor parte do samba

Desde 2018, Nely está mais afastada da rotina intensa da música devido a uma trombose. Isso significou redesenhar a rotina, que antes era agitada todo fim de semana (“e também dia de semana”, como complementa a sobrinha). Mas não a afastou do samba e muito menos da criação. “Outro dia, ela fez uma marchinha pra Ana Maria Braga vendo ‘Mais Você’”, conta a sobrinha. De onde vêm tantas ideias? Não sabe explicar: “De repente, assim”, diz Nely. O que sente que precisa, agora, é dar um jeito de registrar tudo que fez e também parte desse trabalho longo que continua guardado com ela. 

Além de São João Nepomuceno, Nely também morou parte da vida em Juiz de Fora, onde fez parte do grupo musical Exodus. Antes disso, na sua cidade natal, também foi responsável pelo grupo “Os cobrinhas”, que contava com crianças tocando instrumentos, incluindo seu irmão, que era responsável pela bateria. Além disso, foram muitos os casamentos em que marcou presença com a voz, além do trabalho como locutora da Rádio Difusora de São João.

Apesar de guardar com carinho cada prêmio e celebrar cada homenagem, Nely não se deslumbra. Para ela, não é isso o mais importante, mas sim cada momento com a música — e pretende que ainda sejam muitos. A melhor parte do samba, para ela, é ver todo mundo junto, dançando e cantando. “É muito bom, Nossa Senhora! Tem gente que gosta de chegar no meu ouvido e vem cantar um pedacinho da música que eu fiz. Arrepia tudo.”