Como no tempo dos barões
Mesmo distantes da Corte, os barões do Império não deixavam de usufruir de certas sofisticações que o nome e o dinheiro lhes ofereciam. Contra a rudeza do meio rural, traziam músicos e outros artistas do Rio de Janeiro para promover atividades culturais em suas propriedades. De certa maneira, essa tradição é retomada quase um século depois na programação do Festival do Vale do Café. Durante este mês, não só os teatros e praças públicas dos municípios do Vale do Paraíba abrigam concertos, exposições e espetáculos de dança. Diversas fazendas centenárias da região abrem suas portas para atrações do evento, que encerra sua nona edição neste domingo.
Contando com uma imponente sede, que já foi cenário de novelas como "Escrava Isaura" e "Sinhá Moça" (ambas na primeira versão) e mais recentemente do remake de "Paraíso", a Fazenda Florença é uma das propriedades que participa do festival, recebendo o concerto do cravista Roberto Regina no domingo. A ocasião também marcará a estreia de uma novidade entre as atrações culturais da fazenda: um circuito com modelos reproduzindo ao vivo quadros do pintor Jean-Baptiste Debret, que retratam flagrantes do cotidiano brasileiro durante o período imperial.
A atividade é mais uma das empreitadas do dono da fazenda Florença e presidente do Conselho de Turismo da Região do Vale do Café (Conciclo), Paulo Roberto dos Santos, confesso apaixonado por história e responsável pela organização de saraus oferecidos a hóspedes e visitantes da região. A ideia surgiu como maneira de incrementar a visita à fazenda, agregando outras formas de entretenimento às informações históricas. Assim, os turistas podem ser recebidos com canções e "causos" contados por personagens em trajes de época, misturando uma tradição do século XIX a um olhar estratégico bem afiado do século XXI.
O visitante não precisa necessariamente estar hospedado para conhecer as fazendas do Vale do Café. Das cerca de 200 propriedades da região, cerca de 20 são abertas à visitação, com agendamento prévio. O interesse vem crescendo nos últimos anos, o que tem impulsionado outros fazendeiros a abrirem suas porteiras. "Vimos que a região forma uma espécie de parque cultural", afirma Sônia Mattos, diretora de produção da Fazenda Vista Alegre e superintendente da ONG Preservale.
Na fazenda Vista Alegre (1860), é a própria Sônia Mattos quem se encarrega de receber os grupos. Instalada no alto de uma colina, a sede prima por um horizonte que justifica o nome da propriedade. Além da beleza arquitetônica, o local guarda curiosidades referentes não só ao ciclo do café, mas também ao capítulo seguinte na história da região, a pecuária leiteira. Em 1879, foi criada ali a primeira escola do Brasil dedicada a ensinar filhos de escravos. A forma humanizada com que o ex-proprietário, Visconde de Pimentel, tratava seus cativos ficou marcada pela formação de uma pioneira banda de música, sob o comando de um certo maestro Raposo, trazido da cidade mineira de Baependi.









