‘Tudo que ela não conseguiu fazer em vida, deixou para eu terminar’, diz filha de Carolina Maria de Jesus que vem a Juiz de Fora
Vera Eunice de Jesus irá participar do encontro ‘Memória e luta social na obra de Carolina Maria de Jesus’ no campus IF Sudeste neste sábado

Carolina Maria de Jesus escreveu “Quarto de despejo”, uma das obras mais importantes da literatura brasileira do século 20, enquanto catava papel e outros materiais recicláveis para vender. As páginas que até hoje figuram entre as mais vendidas do ano foram grafadas principalmente em papéis de pão jogados no lixo. “Me lembro de ver ela escrevendo assim a vida inteira”, conta a filha, Vera Eunice de Jesus, de quem a narradora fala logo no primeiro parágrafo de sua obra mais famosa, que registra a vida repleta de dificuldades que levavam juntas na favela. Quase 50 anos após a morte da mãe, a filha, que nunca conseguiu ler o livro inteiro, leva a missão da qual foi incumbida em carta de preservar o legado da mãe e fazer com que a literatura dela pudesse ser conhecida pelas próximas gerações. Em visita a Juiz de Fora, ela participa do encontro “Memória e luta social na obra de Carolina Maria de Jesus”, promovido pelo IF Sudeste MG – Campus Juiz de Fora, neste sábado (28), das 15h às 18h, no qual se discutirá a obra da autora.
A preservação da obra de Carolina é um assunto caro a Vera há muitos anos — pelo menos desde que recebeu uma carta da mãe, escrita um ano antes dela falecer e entregue a ela no dia do seu enterro, na qual ela lhe fazia alguns pedidos. “Nessa carta, tudo que ela não conseguiu fazer em vida, deixou para eu terminar. Vieram vários pedidos: dentre eles, que eu não deixasse a memória dela morrer, que eu nunca vendesse o sítio dela e que eu fosse atrás dos manuscritos dela”, conta. A filha, que hoje tem 72 anos e se aposentou como professora de Português (também um desejo antigo da mãe), também ficou por conta de colocar livros no túmulo dela e cuidar do irmão, que já estava doente e faleceu apenas meses depois. O mais difícil, no momento, como conta, está sendo conseguir reunir esses manuscritos, já que eram feitos muitas vezes em condições precárias e foram espalhados por muitas pessoas.
O pedido foi feito, inclusive, em um papel à parte, como se ela tivesse feito a carta e depois se lembrasse de mais um detalhe. É o que Vera tem se dedicado a fazer, inclusive com a ajuda da ministra Margareth Menezes, que foi até Sacramento para ajudar a reunir o acervo. “Quero que esteja em um local onde possa estar bem acondicionado, com climatização, e que todas as pessoas possam ter acesso, principalmente as crianças e os adolescentes. Minha mãe escrevia em papéis de pães, restos de cadernos que encontrava nos lixos. Esse acervo dela serve pra mostrar para essas crianças que, quando você quer escrever, você escreve”, destaca. A escolha foi pelo acervo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde Carolina será a primeira mulher negra a ter sua obra preservada junto com outros autores mineiros.
A vida das duas mudou a partir da escrita de “Quarto de despejo” (1960). Para Vera, muito disso aconteceu porque o livro estava à frente do seu tempo. “Eu sempre digo: se ela levantasse hoje e escrevesse um livro, seria a mesma história. Não mudou quase nada ou nada. A política é a mesma, a fome é a mesma, a violência é a mesma, as promessas dos políticos são as mesmas, a fome”, diz. Na trajetória das duas, a obra também representou um momento do qual sempre vai se lembrar: “Minha mãe teve momentos felizes, poucos. Mas um momento em que eu vi a felicidade estampada no rosto foi quando ela leu o nome dela na capa do livro ‘Quarto de despejo’. Eu tinha 8 anos e ali eu percebi que ela estava feliz”. A dificuldade que tem em ler essa obra, como explica, se dá justamente pela proximidade que sente e que a faz parar, hesitar e refletir a cada memória despertada.

Uma obra vasta
Apesar desse livro ser o mais conhecido da autora, sua obra não se resume a ele. É o que a filha também busca mostrar, a partir dos vários títulos que estão sendo publicados recentemente e que estão em processo de edição. “Se você pegar o acervo dela, encontra tudo: poemas, romances, provérbios, peças teatrais”, enumera. Para que a mãe fique no patamar de outros grandes escritores da literatura brasileira, como Clarice Lispector e Machado de Assis, assim como ela entende que a autora também sonhava, entende, inclusive, que mostrar essa variedade é preciso — e não apenas os diários, pelos quais Carolina ficou mais conhecida.
Na obra “O escravo”, por exemplo, escrita em 1950 e publicada em 2023 pela Companhia das Letras, ela conta que, a princípio, achou que a mãe abordaria a escravidão à qual os antepassados foram submetidos. “Mas o escravo sobre o qual ela escolheu escrever é o escravo atual, o escravo do dinheiro”, diz. Isso mostra, em sua visão, como a mãe mantinha um olhar fresco e que faz tanto sentido no tempo atual. O desfile da Unidos da Tijuca, que contou a história da autora, assim como a cinebiografia de Jeferson De, protagonizada por Maria Gal e com previsão de lançamento este ano, também devem ajudar no processo.
A ligação das novas gerações com a obra da autora é algo que segue emocionando a filha, e que ela espera que se intensifique no futuro. “Vejo muitas mulheres negras, muitas crianças e adolescentes querendo escrever, querendo ser uma Carolina. Então eu acho que isso é uma maneira que eu tenho de propagar a memória dela e deixar que eles sejam os multiplicadores da história dela”, diz.
Sempre juntas
Quando perguntada como era ser filha de Carolina Maria de Jesus, Vera se lembra de uma das visitas que fez a uma escola de classe alta, em São Paulo, que estava prestando vestibular. Eles leram “Quarto de despejo” e fizeram perguntas para Vera. Ao final, a questionaram sobre o que tinha achado do ambiente, que tinha ginásio, piscina, anfiteatro e jardim. Ela respondeu que tinha gostado muito. “Até que um dos adolescentes me disse: ‘Sabe há quanto tempo eu não vejo a minha mãe? Mais de um mês. Ela paga o meu almoço aqui, eu levo marmita para comer em casa e como sozinha. Você não, você tinha uma mãe, vocês passavam fome juntas, sua mãe cantava para vocês, sua mãe dançava para vocês’. Aquilo ficou na minha cabeça. A gente fazia tudo juntas, eu posso falar que tive uma mãe.”









