A cor na direção


Por MAURO MORAIS

27/02/2016 às 07h00

No mercado e na luta: Alyne Oliveira, Giovana Castro, Raquel Alves e André Noronha

No mercado e na luta: Alyne Oliveira, Giovana Castro, Raquel Alves e André Noronha

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Em alguns dicionários, não existe. Talvez por que, de fato, nunca exista e seja sempre processo. Empoderamento é uma palavra que deriva do infinitivo “empoderar” e significa “conferir poder”. Em outros dicionários, remete a “apoderar”, tomar posse. Nada disso. A palavra apoderamento, tal qual é tratada pelas militâncias, não se relaciona a posse. Não tem a ver com moeda. Simboliza conquista. Para os negros, um processo que a Lei Áurea não deu conta de resolver. Empoderar-se é exercício diário, prática de sobrevivência.

Enquanto uma pensa na necessidade de se orgulhar das raízes dos cabelos e das raízes familiares, outra se atenta para a valorização das canções e, outra, ainda, para o fortalecimento da religiosidade primeira. Em Juiz de Fora, ao longo de 2015, foram muitos os eventos de cunho afirmativo do negro na sociedade, de uma exposição com belos retratos de mulheres negras, no Espaço Cultual Correios, aos turbantaços no Calçadão e o Encrespa Geral, no Centro Cultural Dnar Rocha.

Tudo para dizer (e, absurdamente, ainda é preciso dizer) que há uma cena, uma luta, uma bandeira. Nesse sentido, o Mercado das Pretas, que acontece neste domingo, 28, no CEU da Zona Norte, das 13h às 18h, se une aos outros tantos discursos para reforçar o vigor de mulheres negras que produzem, além de um arejado pensamento, peças de roupas, alimentos e muito mais. De pretas para pretos e pretas. De pretas para brancos e brancas. “É um mercado em franco crescimento”, diz Giovana Castro, professora do Centro Universitário Estácio de Sá e organizadora do evento.

Reconhecer-se: imperativo

“Há uma intensa movimentação com base no afroempreendedorismo que articula ações pelo Brasil e mundo afora, e que contempla um público ansioso por se ver em suas relações de consumo”, observa Giovana. “Abrir espaços para discussão é sempre válido. O debate traz à tona questões antigas somadas a novas agendas, mas precisamos ir além. Faz-se necessário, com urgência, que não negros se atentem para os efeitos danosos que o racismo traz para negros e não negros, e que saibam que o racismo é um problema da sociedade brasileira como um todo e não das vítimas que o sofrem.”

Se reconhecer, assim, é saber que na infância não existem apenas Barbies, mas bonecas negras como as produzidas pela marca Cabeça Feita, da artesã Renatta Estevam. Adereços como turbantes, estampas com padrões étnicos, tranças nos cabelos, camisetas com negros estampados, são, entretanto, armas contra um sistema de opressão. Sendo assim, o Mercado das Pretas não se basta em comércio. “Reconhecer-se negro numa sociedade que insiste em propagandear a mestiçagem, que alardeia aos quatro cantos o mito da democracia racial, que classifica e hierarquiza as pessoas de acordo com a cor da pele é, sim, um ato de coragem cotidiano e muito, muito árduo e doloroso”, lamenta Giovana.

Para a historiadora, a demanda é por uma visibilidade efetiva. “As pessoas confundem velado com não verbalizado. Não tem nada de velado no racismo no Brasil. Ele é explícito nos olhares, na linguagem corporal, na contratação em empregos, na hora da promoção, nas piadas, e por aí vai”, discute, certa de que o trabalho é longo, são necessárias muitas outras Beyoncé e seus “Formation”. “Preciso acreditar (num fim para o racismo), por que, senão, boa parte das minhas lutas perde o sentido. Só não creio viver para ver.”

Entrevista: Aline Maia, jornalista, professora e pesquisadora

Como mudar os frutos, se a raiz é negligenciada? Jornalista por formação, professora por paixão e pesquisadora por determinação, Aline Maia se volta às raízes para compreender as desigualdades. Doutoranda em comunicação na PUC-Rio, atualmente estudando na norte-americana Tulane University, em Nova Orleans, a juiz-forana estuda as práticas de comunicação e de consumo entre jovens moradores de favelas e periferias. “Por questões históricas e sociais, parte considerável dos residentes destas áreas periféricas são negros”, observa. Em conversa por e-mail, a pesquisadora fala sobre a urgência de edificação de uma sociedade múltipla, abertas às diferenças e, portanto, justa. As representações, segundo ela, cumprem papel fundamental nesse percurso. E a cultura, por consequência, não pode ser subestimada. “Não dá para caminhar separado: os campos sociais e culturais devem seguir juntos, para que tenhamos efetivo avanço. E, claro: quanto mais democratizada for a cultura, quanto mais acesso às políticas públicas de cultura houver, melhor será.”

Tribuna – Em nossa intelectualidade ainda faltam negros. A que se deve isso?

Aline Maia – É histórico. E acredito que a justificativa está lá em nosso passado, se desdobrando em nosso presente. A partir do momento em que você trata determinado povo como “coisa”, mercadoria a ser vendida/usada em dado período histórico, mesmo que depois haja o reconhecimento de que “somos todos iguais, cidadãos de direito”, é difícil reorganizar o contexto sócio-cultural. Tanto que estamos tentando até hoje. Saímos com a carta de alforria para… tentar a sorte. Assim, da mesma forma que no campo cultural, haverá menos representatividade negra. Assim também o será em outros segmentos. A alforria não funcionou como um botão de apagar ou acender a luz. Não é trocando a posição do interruptor que mudamos mentes e comportamentos. É muito mais complexo, por isso sentimos os reflexos ainda hoje. Basta observar a sociedade.

– Na academia também falta representação…

– A Diretoria de Ações Afirmativas da UFJF lançou uma campanha bem instigante em função do Dia da Consciência Negra. Com a pergunta “Quantos professores negros você tem?”. No campo acadêmico, a UFJF provoca a necessária discussão sobre desigualdade (de oportunidades, de recursos, entre outras). Enquanto aluna de graduação na UFJF, por exemplo, não tive professores negros. Hoje, no doutorado no Rio de Janeiro, também não tenho… Mas, felizmente, já conheço alguns. Mas, este exemplo – simplório – diz muito sobre os reflexos de nossa História. Faltam negros em nossa intelectualidade porque, para este cidadão, o caminho para alcançar este espaço, este lugar, é ainda mais árduo. Não basta a carta de alforria em mãos.

– Por ser negra lhe é exigido que sua raça seja seu tema?

– Nunca senti ou percebi este tipo de exigência, esta imposição externa. Mas, naturalmente, me interessei pelo tema e correlações, muito possivelmente porque estão diretamente relacionados às minhas vivências. Acredito que a pesquisa no campo das Ciências Sociais Aplicadas (minha área) tem certa dependência, entre outras coisas, da biografia do pesquisador. Foi refletindo sobre o fazer jornalístico, minha experiência, minha trajetória, meu lugar – de busca intelectual, de mulher, de jovem, de negra, de moradora da periferia de uma cidade do interior mineiro – que comecei a percorrer os trilhos da investigação acadêmica.

– Pelas representações culturais conseguiremos avançar?

– Sem dúvida é um caminho importante, que não pode ser negligenciado. Mas, também, é preciso lembrar que não é a única via. A conquista deve ser atrelada a outras ações e políticas que, de fato, mudem a vida das pessoas. Desta forma, acredito, teremos um bom cenário para acabar com a situação de marginalidade e precariedade de determinados grupos sociais.

– A representação do negro na cultura avançou?

– Acredito que estamos avançando, inclusive como resultado de ações de movimentos sociais e lutas políticas e culturais. Mas, certamente, a caminhada ainda é longa e não podemos desanimar. Vivemos em um contexto de rica produção cultural oriunda da população negra, o que necessariamente não é proporcional ao reconhecimento dado a estes sujeitos. Ao contrário, em alguns contextos, não é difícil encontrar o olhar (histórico) de desconfiança sobre aquilo que parte de artistas negros (por exemplo, pense nas músicas e danças afros, no próprio funk, no cabelo black power). Fato é que a média geral da sociedade ainda vai tomar como “cultura” a produção do sujeito “branco, homem, hétero, de classe média”. O que vem depois disso ainda precisa vencer resistências. E quando consideramos o negro retratado em produções culturais, concluiremos que ainda há certa continuidade de representações perversas, só que talvez mais “brandas”, mediadas, se assim posso classificar. A trajetória de movimentos sociais e lutas políticas também têm colhido como fruto de suas ações o impedimento de discursos explícitos de racismo, de discriminação, de preconceito em relação a esta população. Mas, é sempre bom lembrar: a perspectiva da marginalidade, infelizmente, ainda não desapareceu.