O último fôlego

Cotidiano de comunidades localizadas em pontos de difícil acesso no Parque Estadual do Ibitipoca rendeu documentário que rodou por festivais de 16 países (Divulgação)
Fazer cinema no Brasil, ainda mais quando se trata do chamado “cinema de autor”, é ver a ideia surgir, ter que descobrir meios de torná-la realidade, filmar, editar, batalhar festivais, eventualmente exibir no circuito comercial. E saber que sempre haverá uma hora em que o ciclo se encerra e partir para o próximo. Não poderia ser diferente com o cineasta juiz-forano Marcos Pimentel, que fez questão de batalhar para dar o fim que sonhava para sua criação: exibir no programação comercial de Juiz de Fora o seu primeiro documentário em longa-metragem, “Sopro”, que terá lançamento nesta quinta-feira no Cine Palace, com direito a debate no final da exibição com a presença do produtor Cristiano Rodrigues. O evento também marca o lançamento do filme em DVD pela distribuidora Lume Filmes, que, além do longa, terá as dez outras produções de Marcos em 35 milímetros, entre curtas e médias-metragens.
A exibição na cidade marcará o fim de um ciclo iniciado em 2010, desdobramento inesperado da produção do curta-metragem “A poeira e o vento”. Como explica o diretor, a produção do documentário anterior gerou a necessidade de se fazer um documentário sobre o cotidiano da população dos recantos mais isolados do Parque Estadual de Ibitipoca, o que foi feito entre 2010 e 2011 com todo o dinheiro que surgisse – fossem os prêmios recebidos por “A poeira e o vento” ou do próprio bolso. O dinheiro que entrava, porém, não era suficiente, e a solução foi mandar o primeiro corte do filme para concursos de finalização. “Ganhamos alguns prêmios nisso e avançamos mais. Também apresentamos para a Lei Murilo Mendes e conseguimos verba para finalização digital (tratamento de imagem e som), design gráfico e prensagem de DVDs para enviar em festivais. Depois vencemos outros concursos, como o programa Filmes em Minas. Tenho muito orgulho de ter a Lei Murilo Mendes me ajudando a finalizar o filme, faço questão de informar isso nos diversos festivais que participamos para saberem que Juiz de Fora incentiva e pratica a arte, a cultura.”
Após sua finalização, “Sopro” passou por inúmeros festivais ao redor do mundo, totalizando 16 países. O primeiro deles, o “Vision du Réel”, na Suíça, foi considerado o evento que ajudou a abrir as portas para o documentário. “O filme se comunica com públicos variados em todo o mundo. A linguagem é universal, tocamos as audiências de diferentes países, foi gratificante ver a forma como as pessoas assimilavam a história de sair dali e conversar sobre o filme, refletir, olhar para dentro, pensar sobre os valores essenciais da vida, de ter o mínimo necessário para viver. É um filme existencialista e que reflete sobre o que precisamos para sermos humanos”, destaca.
Os temas tratados serão os mesmos do debate a ser realizado após a exibição do filme em Juiz de Fora. “Todo mundo tem curiosidade de saber onde ‘Sopro’ foi filmado, sobre o modo de vida do pessoal que vive lá. Ele é muito silencioso, os personagens falam muito pouco. As pessoas se relacionam aos lugares afetivos delas e começam a falar de suas aldeias. Tinha gente que falava que o curta era filmado na Mongólia, ou que poderia ser no Irã, nos campos italianos, na Sérvia. Imagino que não será diferente em Juiz de Fora. E é curioso, porque este é o meu filme mais mineiro, fiz no meu ‘quintal’, basicamente”, destaca Pimentel.
Santo de casa
A participação em festivais foi seguida por um desafio então desconhecido para o diretor: a batalha por conseguir espaço no circuito de cinemas. Apesar das dificuldades que o cinema de autor encontra por aqui, “Sopro” passou por 12 capitais brasileiras – entre elas, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Fortaleza, São Luís, Porto Alegre, Salvador, Brasília, Aracaju e São Paulo – de dezembro de 2014 e abril de 2015. “Foi a primeira vez que tive de enfrentar esse processo, pois foi o meu primeiro longa, mas por sorte tinha o apoio de uma distribuidora relacionada a filmes de autor. Tivemos exibições com debates, é importante esse trabalho de conversar e criar um boca a boca com quem está acostumado com esse tipo de filme. Isso fez com que ele tivesse um período de exibição maior do que teria se tivesse ido para um circuito mais comercial. Foi a questão de ir aos lugares certos”, comemora.
O mais difícil, porém, foi conseguir espaço justamente em sua terra. “A briga, o tempo inteiro, era chegar a Juiz de Fora, que é a minha cidade. Queria fechar o ciclo aqui, onde ficam os cinemas mais próximos aos locais onde filmamos. E isso só foi possível graças ao apoio da Lume Filmes, pois de outra forma nem haveria negociação.”
Em retrospectiva
A celebração do lançamento de “Sopro” em terras juiz-foranas tem ainda o lançamento do documentário em DVD duplo, acompanhado pelos outros dez trabalhos do cineasta, indo de “Cemitério da memória” (2003) a “Sanã” (2013). “O dia em que recebi o DVD foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Como faço um tipo de filme muito íntimo e trabalho com cinema de autor, assistir a todos eles em ordem cronológica era relembrar o que estava pensando quando filmava cada um deles. E você vê nos créditos muita gente que me acompanhou nesse tempo todo, ou que entrou no meio do caminho e também quem já fez parte e não faz mais”, diz. “São experiências que não vou esquecer jamais. Os fotogramas registram muito da minha vida, os filmes mostram tudo que pensei, experimentei e refleti antes de fazê-los. Só pude fazer o ‘Sopro’ porque fiz esses dez curtas e médias”, encerra Marcos Pimentel, que no momento trabalha em seis projetos diferentes, em estágios diversos. “Há longa para cinema, TV, uma série de documentários, curtas, um monte de coisas acontecendo. Estou fazendo tudo ao mesmo tempo, mas nenhum dos projetos em 35 milímetros.”
“SOPRO”
Palace 2, às 17h,
a partir de quinta-feira, 28
Classificação
14 anos









