‘O Brasil é um país machista’
Tiradentes – Em determinado momento de sua carreira, a cineasta Ana Rieper tinha duas ideias em mente. Queria falar sobre como as pessoas, na região em que ela vivia, podiam tratar a sexualidade de maneira pouco tradicional. Ao mesmo tempo, pensava em fazer um filme sobre a música que se denomina brega. Resolveu juntar as coisas em Vou rifar meu coração, documentário que teve pré-estreia nacional na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes e deve chegar às salas nacionais em abril.
Segundo Rieper, seu longa transita por romantismo e machismo. Os temas começaram a visitar os planos da artista carioca quando ela morou em Aracaju (SE), de 1998 a 2002. Embaladas por canções de nomes como Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, Nelson Ned, Amado Batista, Lindomar Castilho e Wando, histórias amorosas de pessoas comuns se apresentam ao público, que, em Tiradentes, aplaudiu longamente o filme.
Para selecionar os personagens, Ana fez inúmeras viagens nos meses de outubro e novembro de 2010 pelos estados de Sergipe e Alagoas. Também contou com a ajuda dos pesquisadores Raphael Borges e Ivy Almeida. Sei que fui um pouco psicanalista dos entrevistados, mas eles também foram meus, comenta, confessando que o documentário diz muito sobre ela. Odeio o machismo, mas não sou feminista. O Brasil é um país machista, e eu queria tocar nessa questão.
Sobre a relação com os personagens, a cineasta refere-se a uma negociação de subjetividades, citando o modo de trabalho do documentarista Eduardo Coutinho. Mesmo sabendo que, diante das câmeras, todos construíram figuras de si mesmos, ela procurou não ultrapassar os limites colocados por eles. Essa foi a justificativa lançada por Ana ao crítico Heitor Augusto Souza, presente na mesa de debates sobre o documentário durante a Mostra de Tiradentes. Souza, que elogia muitos aspectos do longa, questiona a ausência da informação a respeito do assassinato, cometido por Lindomar Castilho, da segunda mulher do cantor. Mais importante que a biografia era o substrato cultural e pessoal que levou à biografia, explica a diretora.
O crítico compara Vou rifar meu coração ao longa As canções, de Coutinho. Rieper concorda, ressaltando que não pretendeu colaborar com a história oficial da música popular e, por isso, não se preocupou em definir a música brega. Talvez a leitura feita do Fagner não represente o todo de sua carreira, observa Souza. A obra de Ana também se assemelha, segundo o crítico, a Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Os dois são de estrada, mostram a interioridade a partir de experiências amorosas, no Nordeste e com música brega. Mas as propostas são diferentes, compara Rieper.
Disposta a abordar o machismo, a cineasta buscou entender que tipo de sociedade é capaz de produzir essa relação. De acordo com Ana, o ponto de vista feminino também esteve em foco, o que a fez chegar a uma antítese. Vejo que as coisas são assim e não são assim, pois há um movimento contrário, o das mulheres. Mas eu não poderia ter feito o filme se tivesse feito julgamentos, menciona.
As risadas surgidas durante a pré-estreia também pontuaram as discussões no seminário em Tiradentes. Minha intenção não era fazer piada, mas muitas situações realmente provocam riso, analisa Rieper. Já a produtora Suzana Amado acredita que, por mostrar feridas abertas, o documentário atraia risadas nervosas e, por vezes, cruéis. Mas quando, ao final de uma das histórias de amor, a plateia faz junta ‘ah…’, sabemos que ela embarcou naquilo. A 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes segue até amanhã. Confira a programação completa no site da Tribuna, no link http://migre.me/7GCVX.








