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Hábito que não se perde


Por BÁRBARA RIOLINO

26/11/2013 às 07h00

Comprar, abrir, formular a mensagem, escrever e postar nos Correios. Os verbos na oração anterior determinam como funciona a forma de expressar votos de "Feliz Natal" por meio de um cartão de papel, a ser enviado a um amigo ou familiar distante. Em plena era digital, em que a comunicação está na palma da mão, este processo parece ter caído em desuso pela maioria das pessoas, mas, como se "déssemos um Google" em Juiz de Fora, conseguimos encontrar quem ainda cultiva este hábito e preserva cada registro recebido.

"São lembranças de uma vida, guardo cartões de pessoas que não estão mais entre nós. É uma forma de resgatar o passado e manter viva esta memória. Tenho amigos tão fiéis neste hábito que digo que nossos cartões se abraçam no caminho, e não sei se estou recebendo ou retribuindo", ressalta a professora aposentada Maria Assunção Rocha e Silva, 66 anos, que coleciona inúmeros cartões de Natal, enviados por amigos e familiares espalhados por todo o mundo.

Ela é uma das participantes da exposição sobre cartões de Natal, que entra em cartaz, a partir do dia 4 de dezembro, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM). Desde o começo do mês, a Funalfa convocou a população que tem acervos natalinos – cartões e presépios – a exibir o material em duas mostras, que farão parte da programação de Natal deste ano em Juiz de Fora. Os cartões irão compor a Galeria Narcisse Szymanowski, que fica no térreo do CCBM, enquanto a Galeria Arlindo Daibert, no segundo andar, será ocupada com os presépios. "Queremos mostrar não apenas a capa dos cartões, mas a mensagem impressa e escrita", explica o diretor do CCBM, Zezinho Mancini.

 

O valor da lembrança

Para a presidente do Clube dos Colecionadores de Juiz de Fora (CCJF), Solange Barcellos da Cunha, colecionar objetos, como os cartões, é um hábito salutar. "Ao guardar certos objetos, guarda-se também história, cultura, memória e o prazer lúdico de se fazer amizades. Colecionar traz muitos ‘hábitos colaterais’, como o desenvolvimento do senso estético e o cuidado para se manter as peças sempre conservadas."

Integrante do conselho deliberativo do CCJF, Waltencir Costa, 63, cultiva um acervo pessoal de cartões e postais natalinos, muitos enviados por amigos correspondentes do clube. Entre seus arquivos, ele destaca alguns confeccionados à mão por uma amiga de Novo Hamburgo (RS). "O artesanal tem essa magia de transmitir mais carinho e afeto, a vontade que a pessoa tem em nos abraçar, mesmo estando distante." Maria Assunção completa: "Alguns nem preciso olhar o remetente, conheço de quem são pela letra. Para mim não importa o tamanho, mas a mensagem escrita. Sinto um carinho tão grande quando recebo um cartão pelo carteiro. Percebo o cuidado que aquela pessoa teve em escolher aquele cartão e escrever aquela mensagem diretamente para mim. É muito significativo".

Mesmo favorável aos cartões personalizados, Waltencir ressalta que prefere comprar cartões prontos a testar suas habilidades. "Sempre os envio pelos Correios, nunca pela internet. Chego a adquirir e a mandar mais de 30 unidades em cada Natal, tanto para amigos e familiares de Juiz de Fora, quanto para aqueles que residem em cidades da região e em outros países."

 

 

Feliz Natal virtual

O funcionário público, Igor Cell, 25, conta que desde que criou sua conta de e-mail, há pouco mais de dez anos, sempre encaminha mensagens de Natal aos amigos e familiares. "Procuro fazer artes natalinas ou criar cartões em sites que disponibilizam este material on-line. Pelas redes sociais, uma imagem compartilhada por mim pode ser vista por muitos amigos. Acredito que isso estimula o contato entre as pessoas, cativando-as pelo espírito de Natal."

Ao contrário do que possa parecer, a internet utilizada em datas comemorativas não "matou" o hábito da escrita, pelo menos, na visão do professor de literatura da Faculdade de Letras da UFJF, André Monteiro. Para ele, a possibilidade de um meio instantâneo de se comunicar estimulou ainda mais esta prática. "Vejo que as pessoas escrevem muito mais hoje que no período pré-internet. Nas décadas de 70 e 80, o ato de escrever era atrelado a um ritual, no qual as pessoas tinham que se sentar e formular o texto com cuidado. Não que isso não possa ser feito atualmente, mas mudou o meio como esta mensagem é escrita. Na internet, a pessoa deixou de ser um consumidor de conteúdo e passou a ser um produtor de informação."

Por mais que Maria Assunção afirme que, enquanto estiver viva e puder escrever seus cartões, jamais deixará de mandá-los, ela destaca que precisou se atualizar. "Tenho amigos que não gostam dessa papelada, então mando mensagens pelo computador. Acho que um hábito não anula o outro, mas, para mim, tudo aquilo que é feito à mão tem muito valor e toca meu coração."