Ouça agora

Apesar de vocês


Por JÚLIA PESSÔA MAURO MORAIS

26/08/2015 às 07h00- Atualizada 26/08/2015 às 15h16

Brune é a primeira transgênero mestranda em psicologia pela UFJF (Fernando Priamo)

Brune é a primeira transgênero mestranda em psicologia pela UFJF (Fernando Priamo)

‘Meu nome não me pertence’seloAs ordens do pai, do irmão mais velho e de professores, para que o pequeno Bruno falasse, brincasse e agisse “como homem” nunca foram capazes de fazer com que ele se sentisse como tal. “Por mais que tentassem me rotular, fosse pelos xingamentos de ‘bichinha’ na escola, fosse pela pressão em ser ‘macho’, eu não me via em nenhum destes padrões. Quando era criança não pensava sobre isso, mas sempre fui muito feminina, tinha traços e gestos delicados. Tentaram me corrigir, dizer que eu que era errada”, conta Bruna Leonardo, 34 anos, que só a partir de 2013, quando passou pelo processo transexualizador, pôde olhar para o espelho e finalmente reconhecer-se no reflexo. Na infância, a hoje mestranda em psicologia pela UFJF Brune Coelho dava vida a Batgirls, Heras Venenosas e Xenas nas brincadeiras com os primos, mesmo sendo um “menino”. Foi só durante a graduação que se permitiu experimentar viver como suas heroínas, como mulher. “Não sabia como me expressar em relação à minha identidade de gênero: não estava satisfeita com minhas roupas e meu corpo. Primeiro comecei a usar roupas e maquiagens mais andróginas, depois que me senti segura, passei a me expressar e a me desconstruir externamente, usando cabelão, vestido e maquiagem”, conta Brune, que teve o apoio da família durante todo o processo, da aceitação do nome social ao tratamento hormonal e à prótese dos seios. “De início, não é fácil, mas nunca me senti ameaçada em casa, meu pai foi comigo ao hospital quando fiz a prótese, e minha mãe, que tinha salão, faz meu cabelo e unhas.”

bruna abandonou a escola por nao se reconhecer nos documentos marcelo ribeiro
Bruna interrompeu os estudos por não se reconhecer nos documentos (Marcelo Ribeiro)

Se Bruna e Brune hoje sentem-se à vontade para se reconhecerem como mulheres trans, o reconhecimento de outrem sobre suas identidades de gênero está longe de ser aquele com a qual elas se identificam. Um dos grandes entraves é a dificuldade de retificar o prenome (nome de registro). Embora a Lei 6.015/73 (Lei de Registros Públicos) estabeleça, no artigo 55, parágrafo único, a possibilidade de o prenome ser modificado quando expuser seu titular ao ridículo, a mudança efetiva cabe, em última instância, “à boa vontade dos juízes”, como explica Bruna. “Entrei com o processo de retificação antes mesmo da cirurgia, e a juíza na época disse que, se eu trocasse o nome, aí sim passaria por constrangimento, pois seria um homem com nome de mulher. Mas eu já me reconhecia como Bruna e era tratada assim no convívio social”, relembra.

 

Para continuar com o processo para retificar seu nome, ainda em andamento, Bruna já apresentou laudos psicológicos e psiquiátricos que excluem a existência de transtornos mentais, passou por perícias médicas que atestam caracteres femininos e por uma avaliação psicossocial, para verificar se vivia e era reconhecida como mulher. “São sempre terceiros que precisam atestar quem sou, nunca minha voz tem relevância”, desabafa. “Se cometer um crime, responderei por ele. Se tiver uma dívida, tenho que quitá-la. Meu nome só não me pertence quando serve para dizer quem sou”, lamenta Bruna, que vê a atitude como um preconceito velado. “Não é como a violência verbal dos tempos de escola, mas ainda me impede de viver uma vida plena. Não trabalho e não estudo, porque não vou apresentar um documento que me identifique como Bruno. Não sou eu.”

 

Duas, três, muitas cabeças

Se o direito e as instituições calam os discursos e negam a identidade de Bruna e Brune é a militância que promove acolhimento e legitimidade, como acontece para grande parte da comunidade LGBT. As duas são integrantes do grupo Visitrans (voltado para transgêneros) e do Coletivo Duas Cabeças (de conscientização para a diversidade sexual), vinculados à UFJF, mas abertos à comunidade. “A militância é meu empoderamento, o que me permite existir plenamente. Ouvindo outras pessoas e compartilhando o que vivi, posso gritar pelos meus direitos e os delas. E é também o que nos torna fortalecidas pela informação, já que as identidades de gênero e sexualidade são tabus na escola e em casa. Conquistei muitos direitos depois que grupos de apoio, ONGs e coletivos me deram uma arma que eu não tinha: conhecimento”, diz Bruna, que foi a primeira trans brasileira a conseguir a depilação a laser pelo SUS na Justiça e a primeira mineira a obter tratamento hormonal também custeado pelo estado, abrindo jurisprudência para outros transgêneros nos dois casos.

transgenero masculino joao nery fez nova carteira de identidade por sua conta arquivo tm
Transgênero masculino, João Nery fez nova carteira de identidade por sua conta ( Arquivo TM)

Companhia nas redes

[Relaciondas_post]

“Na época, para sobreviver, tive que tirar uma nova documentação por minha conta”, diz João Nery, primeiro transgênero masculino no Brasil a entrar numa sala de cirurgia para a retirada do útero, ovário e seios. “Não mudei meu nome, simplesmente fiz outra carteira. Tenho dupla identidade, e isso é crime. Tenho dois CPFs. E, com isso, perdi todo o meu currículo escolar. Era psicóloga, dava aula em três universidades, fazia mestrado, tinha consultório e, ao tirar a nova documentação, me tornei um analfabeto. Passei 30 anos de minha vida trabalhando em profissões que não exigiam currículo”, conta. “Perdi tudo em troca da minha identidade de gênero, não queria passar a vida como uma mulher, o que não me sentia”, emociona-se ele, aos 65 anos, pai e avô. João, se tivesse nascido hoje sofreria menos? “Muito menos. Primeiro porque a viagem não seria solitária e teria um monte de amigos nas redes. Até os 30 anos, não conheci ninguém igual a mim para trocar ideias. Também não tinha fontes de informações fáceis como tem hoje. Através do Google é possível saber qual hormônio usar e como usar. Fora que, na minha época, não havia profissionais específicos na área, meu médico foi condenado pela justiça porque fez a operação de transexualização, que era considerada uma mutilação do ser humano. Foi uma luta”, diz ele, autor de “Viagem solitária”, livro no qual retrata todos os desafios enfrentados desde que abandonou Joana e, no final dos anos 1970, abriu as portas para João. Depoimentos como o dele, editado em livro e traduzido para diferentes línguas e países, e discussões como as promovidas por coletivos como o Visitrans e o Duas Cabeças demonstram o crescimento do pensamento acerca dos temas ligados ao universo LGBT no país. Um dos reflexos desse desenvolvimento, ainda bastante restrito ao meio, sem grandes espaços para debate social amplo e irrestrito, está expresso no projeto de lei 5.002/2013, de autoria dos deputados Erika Kokay (PT/DF) e Jean Wyllys (PSOL/RJ), que aguarda parecer do relator na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. A proposta, que carrega o nome de João W. Nery, dispõe sobre o direito à identidade de gênero, regulando a mudança dos documentos e alterando o artigo 58 da lei que rege os registros públicos, de 1973. Com um infarto, artrose crônica e quatro próteses no corpo, João fundou, junto a outros transgêneros, um portal chamado “TransEmprego”, que serve como elo entre empregador e empregado. Segundo ele, é urgente fortalecer as interlocuções, até mesmo para mostrar que, mesmo diante de todo um histórico de marginalidades, é possível dizer, como ele, orgulhosamente, afirma: “Consegui tudo o que quis e me sinto realizado e feliz.”