Diretor da Ancine vê Juiz de Fora entre os principais polos audiovisuais do interior do país
Em entrevista à Tribuna durante visita a Juiz de Fora, Paulo Alcoforado analisou o cenário local

Paulo Alcoforado, diretor da Agência Nacional do Cinema (Ancine), esteve em Juiz de Fora na última semana e pôde ver de perto o cenário audiovisual da cidade com a consolidação do Polo JF Cine. A visita aconteceu a convite da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa) e contou com a participação de representantes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e da iniciativa privada. Depois de conhecer os equipamentos da cidade, ele conversou com a Tribuna sobre as perspectivas para ampliar o acesso ao financiamento para produtores independentes no interior do país e as perspectivas para JF. “Uma cidade que se prepara e se coloca de forma qualificada para estabelecer uma parceria, deveria ser atendida. Não tenho nenhum medo de afirmar, já tendo vindo na Zona da Mata antes, que Juiz de Fora está entre as mais importantes experiências do interior do país, se não for a mais importante”, afirmou.
Durante a conversa, ele explicou que, em um cenário em que há recurso, acredita que as políticas públicas do audiovisual estão devendo ações de regionalização mais efetivas. Mas que, para isso, os municípios devem estar preparados. “Eles precisam ter uma clareza da vocação local e do ambiente econômico local, e ter um diálogo franco com o setor audiovisual. Isso não significa atender a tudo que o setor audiovisual quer, mas ter um diálogo franco porque são responsabilidades compartilhadas. É uma maturidade e uma consciência desse processo que ajudam muito”, explica.
Diante desse contexto, ele entende que Juiz de Fora pode ser um exemplo importante dos caminhos que precisam ser traçados, pois a Zona da Mata já dispõe de características, variedades de agentes econômicos e um histórico de captação de recursos públicos e federais que podem fazer com que seja possível engajar e dar suporte às melhores condições de competitividade para esse mercado. “Trata-se de conseguir financiamento para estruturar uma atividade econômica local. Posso simplesmente atender a uma solicitação de realizar um edital e aquilo ter um impacto, mas aquilo não ser pensado como uma política estruturante do negócio na cidade”, diz.
Sua visita pela cidade incluiu uma série de atividades voltadas à apresentação do projeto do Parque Científico e Tecnológico de Juiz de Fora e Região (PartecJF), em que também foram apresentadas o que a estrutura tem de diferencial quanto a sua localização e a capacidade de atender demandas de produções audiovisuais de grande porte.
Papel regulatório da Ancine
O diretor da Ancine destacou que a agência não tem papel apenas de fomento — e que inclusive enxerga esse aspecto como coadjuvante à regulação. “Não adianta financiar produto se ele não circula, e ele só vai circular se houver regulação de serviços. Se a regulação não for bem feita, haverá desequilíbrios que prejudicarão a atividade empreendedora dos agentes econômicos brasileiros”, explica. Por isso, também entende que ter um cenário favorável, como o que está acontecendo em JF, é tão importante para os eixos de trabalho do setor. “A partir do momento que existe uma maior possibilidade de diálogo, conseguimos estender a conversa para outras direções”, diz.
Quando perguntado sobre como essa regulação atua nas cotas de tela, tendo em vista a investigação da Folha que aponta para uma tentativa de burlagem do Cinemark ao exibir a mesma animação centenas de vezes por dia, ele respondeu sobre a atuação nesse caso: “Se a obra tem menos de 70 minutos, não é longa-metragem. Se não é longa-metragem, mesmo que seja exibido, não cumpre cota de tela. A Ancine tem a atividade de fiscalização, e a empresa foi notificada e está respondendo, mas isso não será considerado para fins de cota de tela”, explica. Para ele, no entanto, a matéria chama a atenção para esse aspecto da regulação e pode alertar para um aperfeiçoamento na lei.
Isso, inclusive, o fez refletir sobre o potencial desse recurso e o quanto pode alterar o cenário nas salas de cinema. “A cota de tela, por si só, não fará aumentar o público para o cinema brasileiro. Precisa estar acompanhada de ações de fomento, fiscalização e regulação. É importante a gente entender que, no caso das salas de cinema, estamos falando da presença física das pessoas”, explica ele, em um cenário de crescimento do streaming e de pressão por regulação desse âmbito.
Quanto às salas, ele entende que esses espaços de exibição em cidades de pequeno e médio porte, como acontece em Juiz de Fora, são estratégicos para que a população também assista aos filmes que produz. “Não dá pra fazer isso sem a parceria dos municípios, porque as salas de cinema estão nas cidades. Ter uma política que consegue se aproximar dos exibidores e estimular essa relação é algo que pode gerar espaços para obras de produção independente e gerar receita para os produtores”, afirma.









