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Essa angústia tem cura?


Por Raphaela Ramos

25/12/2011 às 07h00

Não faz muito tempo, o ator francês Jean-Louis Barrault ofereceu ao mundo sua definição de teatro: primeiro soro da humanidade para se proteger da angústia. Um refúgio, ao que parece, insubstituível. Rádio, cinema, TV e internet já tentaram desertá-lo, mas ele continua vivo, ainda que não tão povoado quanto deveria. No encontro de estreia do I Ciclo de Debates da Tribuna "Dois pra lá, Dois pra cá", atores e bailarinos escancararam a cena local em busca da resposta para o enigma: como seguir adiante? Ao longo de quatro segundas-feiras consecutivas entre novembro e dezembro, estiveram sob o foco, além do teatro e da dança, as áreas de música, literatura e artes visuais. As reuniões na videoteca do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) estiveram cheias e apontaram temas semelhantes, como formação de público e artistas, ampliação e revisão das políticas culturais e adequação dos espaços. Com base nessas conversas, a Tribuna inicia hoje uma série de reportagens sobre a produção contemporânea atual.

Já acostumados com o palco, os primeiros convidados – José Luiz Ribeiro, diretor do Grupo Divulgação; Alexandre Guttierrez, diretor do GTMG / Companhia Tralha; Carú Rezende, atriz e produtora da Funalfa; e Sylvia Renhe, coreógrafa e diretora da Companhia Inércia Zero – não tiveram dificuldade para levantar as principais inquietudes das artes cênicas juiz-foranas no momento: formação e profissionalização. No segundo caso, os debates atingiram o olho do furação.

O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de Minas Gerais (Sated/MG) havia encaminhado uma carta aos núcleos teatrais no início do ano, exigindo que regularizassem sua situação em dez dias e adquirissem registro profissional (DRT). Na opinião de Ribeiro, a medida desconsiderou o perfil da realidade local. Amador, o Grupo Divulgação existe há ininterruptos 45 anos. "Sempre paguei para realizar minha arte." Após alguns fóruns da classe, que se posicionou contra a imposição, o Sated decidiu tornar nula todas as afirmações emitidas.

Os participantes questionaram a obrigatoriedade do DRT. "As pessoas têm direito de optar pela produção amadora", disse Carú Rezende, ressaltando que a profissionalização não é sinônimo de qualidade. Na plateia, o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, engrossou o coro. "Não podemos aceitar ações aplicadas de fora. Nossos teatro e dança possuem características próprias." Entre elas, conforme destacou José Luiz Ribeiro, está a carência de formação. De acordo com ele, o seminário "Os caminhos do teatro", promovido pelo Divulgação há 26 anos, não é frequentado pelos artistas locais. "Sou do tempo de se tatear a informação. Hoje, ela está aí para qualquer um, mas poucos a aproveitam realmente."

 

Segundo os convidados, o período atual é de possibilidades. Além de cursos livres, como o do CCBM, a cidade oferece graduação (produção cênica, da Fundação Machado Sobrinho) e pós-graduação (comunicação e arte do ator, da UFJF, e dança e teatro no contexto da educação, do Diversão & Arte, em parceria com a Faculdade Angel Vianna). Na opinião de Alexandre Guttierrez, o interesse pela ampliação dos conhecimentos deve vir com o tempo. "A procura, talvez, ainda não seja intensa. Mas temos que seguir nesse caminho." Para Sylvia Renhe, é preciso estimular o interesse por leitura e estudo, em todos os campos, desde cedo. A coreógrafa saiu do país, na década de 1980, para se especializar em dança moderna e contemporânea.

Outra questão que precisa ser resolvida na base, como salientaram os debatedores, é o interesse do público. José Luiz Ribeiro comentou que nem mesmo os universitários têm o costume de assistir às artes cênicas, embora frequentem cinema e casas de show. "Depois que eles descobrem o Privilège, fica difícil", brincou. O produtor Beto Campos contrapôs, sugerindo que os artistas pesquisem o perfil dos espectadores antes de levar adiante as montagens.

Associadas a tal assunto, surgiram na discussão algumas desvantagens trazidas pelas leis de incentivo. De acordo com Guttierrez, garantindo os custos totais, as leis podem causar a acomodação de certos produtores em relação à busca por mais plateia. "Muitos grupos de fora vêm à cidade cumprir tabela, e os teatros ficam vazios." Toninho Dutra complementou ao destacar as dificuldades locais de captação dos projetos aprovados na leis Rouanet e Estadual. "Os artistas ganham, mas não levam."

A Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, realizada por aqui em janeiro há mais de dez anos, também esteve entre os temas protagonistas. Toninho Dutra mencionou sua importância para a união dos grupos, mas afirmou que essa não pode ser a única ação da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (Apac / JF). Sobre a pequena participação da dança no evento, Sylvia Renhe explicou que, no período, as academias estão de férias. "Eu tentei dar voz em alguns anos para estimular os pares, mas não consegui", disse, valorizando a continuidade de qualquer ação cultural. Sobre a campanha, José Luiz Ribeiro criticou a invasão de comédias stand-up. E advertiu: "em todos os gêneros, precisamos repensar a qualidade dos espetáculos".

O diretor do CCBM, Guy Schmidt, pediu a palavra para convocar os presentes à participação nas discussões do Concult. Para Carú Rezende, todo artista possui responsabilidade política e deve levantar suas reivindicações em coletivo. Uma delas diz respeito à falta de espaços de encenação. Segundo Alexandre Guttierrez, são bem-vindas as parcerias entre as companhias e os teatros convencionais, ainda que sejam criados lugares alternativos. A questão estará na pauta do próximo fórum da classe, marcado para janeiro.