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Cineasta Tomyo Costa Ito participa do forumdoc.bh 2020

Diretor foi selecionado com dois documentários filmados no Camboja em 2019

Por Júlio Black

25/11/2020 às 07h00- Atualizada 25/11/2020 às 07h35

Em “Sob a sombra da palmeira”, poeta cambojano Chheangly Yeng conta a história de sua família, especialmente a de seu pai (Foto: Divulgação)

O cineasta juiz-forano Tomyo Costa Ito foi para o Camboja em 2019 com um propósito: fazer pesquisa para seu doutorado em comunicação pela UFMG sobre o cinema do diretor Rithy Panh. Porém, os sete meses no país do Sudeste Asiático renderam mais que o projeto acadêmico: ele voltou de lá com os documentários “Sob a sombra da palmeira” e “Poemas do Camboja”, que foram selecionados para a edição 2020 do festival de cinema forumdoc.bh. As produções integram a programação da Mostra Contemporânea Brasileira e podem ser assistidos até o próximo sábado (28) no site do festival.

“Sob a sombra da palmeira” fez sua estreia em festivais no mês de outubro, no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, participando da Mostra Competitiva Minas. A produção acompanha a poesia e o relato do poeta local Chheangly Yeng sobre a história de sua família e de seu pai, Chea Yeng, trabalhador rural dos arredores de Phnom Penh, capital do Camboja. Já “Poemas do Camboja” é composto de uma série de poemas de diferentes autores; além de Chheangly Yeng, participam com poemas e vozes os artistas Phina So, Yin Louth, On Kunthea, Chin Meas e Tenzin Tsundue, com suas obras acompanhadas por imagens de vários pontos do país.

Tomyo Costa Ito conta que conheceu Chheangly Yeng logo em sua segunda semana no Camboja, em uma sessão de curtas de realizadores cambojanos. A partir desse primeiro contato, eles passaram a se encontrar toda semana. “Conversávamos sobre ideias de filmes. Havia uma preocupação com a situação social do país. Com as minhas idas aos eventos de poesia, fui experimentando a beleza da sonoridade da língua khmer, às vezes sem entender o que era dito, em outros momentos tendo acesso às traduções. Havia algo ali cujos sentidos eu não podia compreender, mas que eu experimentava com muita intensidade”, relembra. “Da mesma maneira se dava a minha relação com os lugares que vinha visitando no país. Eram imagens filmadas numa relação de não compreensão pelo meu olhar estrangeiro, mas que ao mesmo tempo suscitavam diferentes afetos. Pensei que seria interessante juntar nossas habilidades, ele com a poesia e eu com a imagem. Propus, então, a realização de um filme com poemas em khmer (língua falada no Camboja) e com imagens das cidades, campos e templos do país que eu vinha filmando.”

Um país em poesia e imagens

Para os vídeo-poemas de “Poemas do Camboja”, eles partiram de imagens que Tomyo já havia captado em suas viagens pelo país. Segundo ele, as cenas noturnas do poema “Luz de boate”, do mercado de rua de “Tartaruga” e dos muros dos canteiros de obras do poema “Proposta” são de Phnom Penh, onde morou. As ruínas do poema “Povo Khmer” são do templo Beng Mealea, que faz parte do complexo de Angkor Wat, da cidade de Siem Reap; no poema “Brincadeira de criança”, os templos foram filmados na cidade de Battambang. Os prédios em construções com os enormes guindastes no topo do poema “Eles estão indo” são da cidade Sihanoukville, e as praias são da ilha Koh Rong Samloem. “Nós pensávamos no poema que poderia casar com as imagens, ou Chheangly sugeria um poema e buscávamos juntos as imagens, antes de sairmos para filmar. As filmagens duraram os vários meses que estive lá.”

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Tomyo Costa Ito foi para o sudeste asiático por causa de sua pesquisa de doutorado, e voltou com dois documentários (Foto: Divulgação)

Em memória do pai

No segundo mês de convivência, Chheangly convidou Tomyo para conhecer sua vila natal e passar um fim de semana na casa de sua mãe, o que resultou na ideia de “Sob a sombra da palmeira”. “Aos poucos, ele me contou de sua história e de sua família, o único entre seus irmãos e irmãs para quem seus pais tiveram condição de pagar os estudos. Disse a ele que gostaria de fazer um filme sobre sua história, mas sem estipular perguntas ou um roteiro. Não havia um compromisso de fazer um filme, abordando questões específicas de sua vida. Eu estava interessado em filmá-lo, em estabelecer uma relação com ele através da lente da câmera, de tal modo que ele teria liberdade para se movimentar diante da câmera, para falar o que quisesse, para propor um caminho para a filmagem.”

A maior parte das imagens que compõem o filme foi captada em um espaço de duas a três horas, em que os dois visitaram o pedaço de terra que pertence à família do poeta cambojano. Para Tomyo Costa, o modo de filmar a história do novo amigo, com uma câmera leve junto ao corpo, fez com que os afetos que o atravessam diante do relato de Chheangly fossem, de alguma forma, transmitidos pela câmera. “A relação estabelecida foi, ao mesmo tempo, de aproximação, todas as experiências que trocamos, nossa amizade, mas também de distância da língua, de nossas culturas. E no filme há este jogo em que me aproximo bastante de seu rosto e da história que ele narra, mas me distancio quando ele vai para perto da palmeira. Deixo-o desenvolver a relação dele com o lugar, me coloco à distância e não filmo a palmeira, deixo que apenas ele a filme.”

“Penso que a experiência de realizarmos juntos os vídeos-poemas abriu uma possibilidade de expressão por meio das imagens que ele ainda não havia utilizado”, prossegue. “Isso contribuiu para que ele tomasse a iniciativa de filmar o pedaço de terra onde o pai dele plantava arroz e a palmeira, onde os dois fizeram uma última refeição juntos.”

Tomyo acrescenta que Chhyangly continuou a filmar depois que o juiz-forano retornou ao Brasil, e que propôs ao grupo de escritores realizar uma nova série de vídeo-poemas. “Um filme já está concluído e começará a ser inscrito para participar de festivais de cinema. Fiquei muito contente com isso, de ver que contribuí com essa iniciativa de produção.”

Diversidade cultural

Em sua primeira experiência no país, Tomyo Costa diz ter vivenciado tudo de forma muito intensa. E isso incluiu, claro, viver a cultura local, além do cinema. “O Camboja possui uma cena cultural extremamente rica e diversa, o que eu não esperava. Existem centros culturais com programações bem variadas. Tive a oportunidade de conhecer poetas e escritores, e também artistas visuais, fotógrafos, cineastas. Dos trabalhos que tive a oportunidade de conhecer, destaco os filmes de ficção e documentário de Kavich Neang e a fotografia contemporânea de Sophal Neak, dois jovens artistas muito atentos a experiência social cambojana e, ao mesmo tempo, com uma abordagem inventiva em seus trabalhos.”



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