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Instrumentos e parcerias que levam a um só caminho


Por JÚLIO BLACK

25/11/2015 às 07h00- Atualizada 25/11/2015 às 09h54

integrante do duolhodagua alexandre moraes diz que a ligacao com outras expressoes artisticas resultou na invencao de moda do projeto grafico de circo cigano
Integrante do Duolhodágua, Alexandre Moraes diz que a ligação com outras expressões artísticas resultou na ‘invenção de moda’ do projeto gráfico de “Circo cigano” (Foto: Olavo Prazeres/25-11-15)

Em um mundo tão plural, nada mais natural que a arte siga o mesmo caminho. Foi com este norte que o trio juiz-forano Duolhodágua chega ao seu álbum de estreia, “Circo cigano”, lançado este mês por meio da Lei Murilo Mendes. Formado em 2010 por Alexandre Moraes (violões), André Oliveira (violino) e Lula Ricardo (contrabaixo), o grupo apresenta um trabalho orgânico, em que a música erudita e popular se encontram por meio de suas diversas expressões, instigando o ouvinte a partir dos improvisos que integram as oito faixas do álbum.

O trabalho, diz Alexandre, traz as canções que existiam mesmo antes da aprovação do projeto pela lei, o que aconteceu em 2013. O primeiro passo, então, foi partir para Ibitipoca, no mesmo ano, e ficar dez dias em estúdio para trabalhar as músicas que entrariam no álbum. Com exceção de duas canções (“Caos” e “Porto inseguro”, gravadas em 2012 no espírito “ao vivo em estúdio” ainda em 2012, no estúdio A Casa), “Circo cigano” foi gravado no segundo semestre de 2014 no estúdio Animasom, com produção do próprio trio. “Tentamos fazer um CD ‘orgânico’, tanto que não há qualquer instrumento ‘dobrado'”, explica Alexandre Moraes.

“Mesmo em estúdio, procuramos manter o clima de improviso que rola nos shows. Podemos ir por caminhos diferentes, mas a convergência nos leva ao mesmo ponto.” Dentro desse contexto, acredita, a escolha pela música instrumental em 2010 – quando o grupo ainda era uma dupla formada por Alexandre e André – foi considerada natural.

“Fomos nos aproximando dessa coisa ‘fora de métrica’ que se vê no teatro, com quebras, improvisos, descompassos. E temos influências bem diferentes, que resultam nessa convergência. O André é professor de violino e faz bacharelado em música na UFJF. Ao mesmo tempo, porém, em que tem essa ligação com a música erudita, também é ligado à boemia de Juiz de Fora. O Lula tem ligação com a música popular, o samba, a MPB, e eu venho da escola entre o popular e o erudito. Isso faz com que a nossa música passe pelo rock, a música celta, erudita, o baião e o frevo, entre outros. Juiz de Fora tem público para esse tipo de som”, analisa Alexandre.

Dialogando com outras artes

Há tempos, não faltam críticas a determinados artistas que são vendidos como se fossem uma nova “marca de sabão em pó”, em que a forma se sobrepõe ao conteúdo. No caso do Duolhodágua, porém, a embalagem serve para mostrar a ligação do trio com outras expressões artísticas: de acordo com o projeto aprovado pela Lei Murilo Mendes, “Circo cigano” seria lançado numa embalagem tradicional de CD, mas outras ideias foram surgindo no meio do caminho. Uma delas foi trocar o invólucro de plástico por um embornal, aquela bolsa que tantos carregam a tiracolo, a outra foi convidar diversos artistas para criarem pequenos cartões com artes que tivessem alguma ligação com determinada música. “Convidamos artistas de diversas expressões, como escultura, fotografia, dança, gastronomia, teatro, bordado, desenho, prosa. Mostramos a música reservada a cada um e deixamos bem livre a leitura (de cada uma), e mantivemos o respeito em relação a essas visões”, destaca.

Essa “invenção de moda”, como disse Alexandre, porém, atrasou o lançamento do disco, pois foi preciso buscar patrocínio para fechar os custos do projeto gráfico, a cargo de Daniele de Sá Alves. Conseguimos convencer a Gabriela Machado (produtora executiva) e a Daniele, mas elas compraram a ideia”, conta. A batalha para conseguir o apoio fez com que os custos fossem fechados apenas em abril, mas a concepção visual pensada pela equipe acabou resultando num trabalho que impressiona pelo cuidado e esmero em sua realização, capaz de rivalizar com o produto sonoro contido na bolachinha prateada.