Laura Assis lança livro de contos ‘Enquanto elas crescem no escuro’
O lançamento é nesta sexta-feira (26), na Autoria Casa de Cultura, às 18h

A escritora e professora Laura Assis lança o livro “Enquanto elas crescem no escuro”, pela editora Urutau. Em cinco contos, ela traz histórias de mulheres em diferentes fases da vida, da infância à vida adulta, sempre em momentos de descoberta e iminente transformação — de si, do redor ou de absolutamente tudo. Esses momentos decisivos partem do cotidiano, como a tarde em um clube, o lanche coletivo do fim de ano na escola ou o enterro de um conhecido, e criam uma tensão que mistura o que não está sendo contado e os piores temores que esses silêncio causam. A obra é a primeira em prosa da escritora, que também é autora do livro de poemas “Parkour” e “Depois de rasgar os mapas”. O lançamento será nesta sexta-feira (26), na Autoria Casa de Cultura, às 18h, e terá bate-papo com Prisca Agustoni.
Os contos que compõem a obra foram escritos dois anos antes de Laura começar, em 2024, a Oficina de Criação Literária da PUC do Rio Grande do Sul, ministrada pelo professor Roberto Assis Brasil. Mas foram totalmente reescritos ao longo do ano em que fez parte da 40a. turma, e pôde trabalhar nos textos, trazendo mais concisão para a linguagem. A reunião de contos também surgiu quando ela percebeu o que essas histórias tinham em comum, e as selecionou dentre outras que já tinha escrito: “Fui percebendo que tinha uma unidade em relação às meninas e mulheres se deparando com algo que era complicado pra elas, mesmo que parecesse algo pequeno. O que eu tentei foi trabalhar a subjetividade desses momentos e como as personagens lidam com isso”, conta.

Na obra, as protagonistas enfrentam as mudanças do tipo que poderiam começar em dias azuis de terça-feira ou quando uma lembrança invade a cabeça no banho: sem ter hora pra acontecer, mas também impossíveis de se evitar. É o que acontece em “Vermelho”, quando uma pré-adolescente começa a descobrir o seu próprio desejo e as mudanças no corpo; em “A paz”, quando a vida e os silêncios da filha escapam à percepção da mãe; “Esquiva”, quando uma menina que não tem a quem pedir ajuda precisa descobrir como ganhar força; “Vida em Marte”, no momento em que a protagonista se coloca em uma perspectiva completamente diferente; “O novo mundo”, quando uma professora precisa descobrir o que a motiva e como fazer as contas com o passado.
Essas trajetórias são atravessadas por questões estruturais de gênero, raça, orientação sexual e classe social, que são definidoras, ao mesmo tempo que aparecem mantendo os traços únicos de cada trajetória. Para tanto, a autora conta que se interessou especialmente pelo uso da terceira pessoa e até da segunda pessoa em um dos contos, que possibilitaram que ela criasse uma densidade psicológica. “É uma tentativa de criar uma narrativa de atmosfera, que coloca os personagens a partir de um ponto em que elas não podem não reagir. Algo precisa acontecer, algo vai acontecer, mas a gente não sabe o que é. E acho que esse é o mistério da vida, do ser humano mesmo”, explica.
Espaço de possibilidades
Professora de Literatura no Colégio de Aplicação João XXIII e no Mestrado Profissional em Letras, ambos da UFJF, Laura encontrou na sala de aula um “espaço de possibilidades” para criar. Ela, que conhece muito bem as escolas, entende que seu olhar não é só de quem passa pelos anos de aprendizado, mas sim de quem fica. “Os alunos saem e nós continuamos. Então a escola como esse espaço de conflitos, independente de como foi minha vida como aluna, hoje como professora é algo que vivo todo dia, que imagino todo dia ou prevejo de algum modo”, conta.
Ainda que seja leitora de autoficção, não é esse caminho que planeja trilhar com sua escrita. Mas reconhece nesse espaço um potencial criativo contínuo, e que gosta de explorar. “Não existe um dia em que eu pise na escola e não aconteça algo diferente do que eu imaginava, pro bem e pro mal. É um lugar efervescente, com muita gente, muitas vontades, muitas subjetividades e muitas dificuldades. Mas não necessariamente a escola vai aparecer como algo que aconteceu de fato nela, acho que me interessa mais até como cenário da escola, como esse lugar em constante agitação. Só de passar em frente a uma escola sabemos onde estamos, aquele barulho é muito marcante”, conta.
Quem tem medo do escuro?
O título “‘Enquanto elas crescem no escuro’’ sintetiza bem o projeto do livro, e por isso ela também selecionou a dedo os contos que se encaixavam na obra. Além disso, também foi pensando nos epílogos, de Paulo Henriques Britto (“Vim, como todo mundo, do quarto escuro da infância”) e de Carolina Maria de Jesus (“Eu ouvia e via essas confusões que ficavam condicionadas na minha mente como se fossem roupas dobradas dentro de um armário. Todos os dias havia coisas para entrar dentro da minha cabeça”). Esses dois nortes, para ela, ajudaram a perceber a importância de se pensar no que não vemos e não entendemos da infância e da vida — e do que é possível criar a partir disso.
Para ela, ainda, é notável que as mulheres continuam a crescer no escuro: quando ninguém vê ou escondido até delas mesmas. Mas há algo de incontrolável nesse crescimento, que também mostra a força de trazer à tona essas narrativas. “Tem uma questão social, cultural, machista, misógina e patriarcal que coloca essas subjetividades como menos importantes. Esse ponto de vista dessas personagens é diretamente ligado a isto: contar histórias que ou não são contadas ou são contadas de um modo em que esse não é o foco”, ressalta.









