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Vestid@s com o movimento


Por JÚLIA PESSÔA e MAURO MORAIS

25/08/2015 às 07h00- Atualizada 26/08/2015 às 14h26

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Titiago representa a nova geração de militantes (Foto: Leonardo Costa)
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“Bichinha”, “viadinho”, “menininha”, “gazelinha”. Os gritos de ontem estão nos olhares de hoje. A crueldade é a mesma, e o cenário, também. Só Tiago Capuzzo mudou. E, agora, diante das hostilidades, reage como sempre quis: não se esconde. Enquanto é entrevistado pela Tribuna em frente ao Instituto Estadual de Educação (Escola Normal), onde estudou parte do ensino fundamental e médio, não se esconde dos olhares e gestos agressivos. Como os ofensivos, ele também não tem pudor de ser verdadeiro. Existe e coexiste demarcando seus espaços como Titiago, nas performances que faz, nas músicas que canta e no discurso que não o vitimiza. “Gosto de brincar com a androginia, tudo que é diferente chama atenção. Assim, a sociedade vai aos poucos mudando. Não vou mudar quem sou hoje por ninguém”, diz.

De aplique loiríssimo, bota “over the knee” e vestido preto com franjas douradas, Tiago (Titiago nos palcos) representa a nova geração de militantes que encontraram na cultura LGBT uma forma de existência de si mesmos e de suas bandeiras. À base do “bate cabelo” (momento de um show em que o performista gira freneticamente a cabeça balançando as madeixas, símbolo de apresentações LGBT), ele demanda por seus direitos, tendo o microfone como arma. “Não vim ao mundo para passar despercebido, vim para marcar meu território. Ser como quiser e ser feliz assim”, diz o artista, que faz shows na cidade e em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, além de já ter levado suas músicas a Argentina e dublado divas pop como Britney Spears, Katy Perry e as Spice Girls.

Ao trazer à memória os tempos em que para ser Tiago era preciso ser “normal” (como o nome da escola), o artista, que não se importa em ser tratado por “ele” ou “ela” quando está caracterizado majoritariamente de forma feminina, relembra histórias de negação e silenciamento. “Não era feliz. Tinha medo de que as pessoas descobrissem minha homossexualidade, que desde criança compreendi. Não sabia como me portar diante da sociedade”, diz ele, que hoje sai às ruas sem hesitar em “misturar os dois mundos, masculino e feminino, cabelão e roupas de menino, cara limpa e salto alto”. Confirmado como uma das atrações do Rainbow Fest deste ano, Titiago demonstra a força que a cultura LGBT tem ganhado no movimento que antes tinha como principal voz as organizações sociais.

‘O mais importante é a cidadania’

No país que vê crescer em 4,1% o número de assassinatos a homossexuais de 2013 para 2014, de acordo com o último relatório anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), o isolamento social causado pelo medo da violência dificulta ainda mais o fortalecimento da militância e a formação de um elo comum que não sejam as experiências traumáticas. “O Brasil continua sendo o campeão mundial de crimes motivados pela homo/transfobia: segundo agências internacionais, 50% dos assassinatos de transexuais no ano passado foram cometidos em nosso país. Dos 326 mortos, 163 eram gays, 134, travestis, 14, lésbicas, três, bissexuais e sete, amantes de travestis (T-lovers). Foram igualmente assassinados sete heterossexuais, por terem sido confundidos com gays ou por estarem em circunstâncias ou espaços homoeróticos”, apresenta o documento.

“Ainda temos muita dificuldade de criar uma ligação em nossa comunidade. Não é à toa que temos tantas letras. Começa a se discutir semântica, enquanto o mais importante é a questão da cidadania”, diz Marco Trajano, presidente do Movimento Gay de Minas (MGM). Segundo ele, apesar da redução de outros espaços de militância, pela via cultural o movimento LGBT se mostra cada vez mais fortalecido em seu potencial de empoderamento da comunidade. É o caso do Rainbow Fest, festival promovido há 17 anos, que antes acontecia associado ao Miss Brasil Gay e hoje continua sendo realizado, a despeito do cancelamento do concurso. “O Rainbow Fest consegue eliminar diferenças sociais e econômicas. Tem a música, a dublagem, a performance, que é a cultura LGBT, um ponto de aglutinação”, pondera Trajano.

‘Representações não bastam’

Além da impotência de mecanismos legais como a Lei Rosa e resoluções federais, Juiz de Fora vê o enfraquecimento de espaços como o Miss Brasil Gay – que atraía milhares de pessoas à cidade anualmente e foi cancelado – e o esmorecimento da Parada do Orgulho LGBT, que já chegou a tomar a Avenida Rio Branco com milhares de participantes e este ano terá seu trajeto reduzido e desviado para a Avenida Getúlio Vargas, além de ser realizada na véspera de um feriado (11 de outubro), quando a cidade está mais vazia. “Vejo certo retrocesso no Brasil, nos últimos anos, inclusive em Juiz de Fora. Temos uma ala conservadora que está se mostrando muito mais raivosa. E ela é mais poderosa, porque tem canais de TV, mandatos eletivos, e dinheiro, coisa que os movimentos sociais não têm”, explica Marco Trajano.

Segundo o presidente do MGM, além do conservadorismo, as diferentes demandas do movimento, com o passar do tempo, também contribuíram para o esvaziamento destes pontos. “A Madonna só é um sucesso até hoje porque ela se reinventa. O Miss Brasil Gay, apesar de ser o maior evento LGBT do país – e quem sabe no mundo -, ainda tinha uma administração muito antiga. As paradas também precisam se reinventar, porque, afinal, já cumpriram um papel. Quando surgiram, em 1969, serviam para dizer: existimos, estamos aqui e queremos nossos direitos”, analisa. “Agora, não precisamos mais pensar em visibilidade, porque já temos. Estamos na mídia: o papa fala da gente, Malafaia fala da gente, Obama fala da gente. As representações não bastam, mas são o caminho. Precisamos, então, ocupar a política. Precisamos de mais Jean Willys, mais mandatários com essa pauta”, completa.

‘Você não está só’

Em meio a sacos de cimento, muita poeira e móveis fora do lugar, Marco Trajano reavalia 25 anos de militância, tempo em que conviveu literalmente com a organização dentro de sua casa, fechada desde janeiro para o MGM. “É hora de passar a bola. Estou cansado e acho que tudo tem um prazo de validade. Está na hora de a juventude assumir esse protagonismo”, diz, na expectativa de que o espaço reabra em outubro, ainda que sem o importante repasse do Ministério da Cultura, presente nos últimos anos, compreendendo a organização como um Ponto de Cultura no país.

Ainda que de maneira subjetiva, a bola já está nas mãos de Titiago e outros artistas locais que assumiram a bandeira e o palco como locais de afirmação. Segundo Titiago, a cultura LGBT legitima sua identidade de uma forma que as carteiras escolares e a sociedade jamais puderam fazer integralmente. “Nada me traumatizou, mas isso depende de como cada pessoa sente o que viveu. Hoje, quando estou cantando, espero que outros gays não sofram como sofri. Eu soube me reerguer e agora tento ser uma representação para pessoas como eu. Qualquer espaço que os gays ocupem na cultura abre portas para mais tolerância e aceitação. É a importância de dizer: você não está só.”