Roberto DaMatta revive a antiga Juiz de Fora
A edição deste mês do projeto "Sesc literatura: grandes escritores" traz um niteroiense de nascimento, mas que também carrega Juiz de Fora na memória e no coração. O professor, antropólogo e escritor Roberto DaMatta estará nesta terça-feira (26) no Teatro Pró-Música a partir das 20h, conversando sobre seu trabalho, contando histórias de quem já conheceu alguns dos rincões mais distantes do país e falando ainda sobre o nosso momento atual. A entrada para o evento é gratuita, e os ingressos podem ser retirados no local uma hora antes.
O motivo para o acadêmico ter uma ligação com a cidade é simples: ele viveu em Juiz de Fora em dois momentos, entre o final dos anos 40 e meados dos anos 50. Sua chegada se deu aos 11 anos, quando foi morar no Bairro Fábrica. Esse primeiro período se estendeu até os 13 anos, quando seu pai teve de se mudar para São João Nepomuceno, mas aos 14 já estava de volta, ficando por aqui por mais quatro anos até voltar para a Niterói natal e concluir seus estudos no antigo curso científico e servir ao Exército Brasileiro. "Juiz de Fora é uma das três cidades que ajudaram na minha formação intelectual e sentimental, com São João Nepomuceno e Niterói. Morei também na Rua Doutor Romualdo e estudei no Colégio São José. Joguei basquete pelo time do colégio e no Sport Club Juiz de Fora, onde cheguei a ser capitão. Eu tinha 1,70m na época, era considerado alto", diz ele.
A conversa foi longe ao telefone na tarde ontem, indo das amizades que fez até a descoberta do amor. Entre os amigos do período, estava Maurício Macedo. Era com ele, entre outros rapazes, que se encontrava após sair do São José para conversar, jogar basquete, sinuca no Círculo Militar e flertar com as garotas. "Era só olho no olho, então", conta DaMatta, explicando as diferenças entre os tempos antigos e os atuais. "A cidade era bem menor, basicamente havia a parte alta e a baixa. Era normal os rapazes ficarem andando em um lado da rua, e as meninas do outro. Foi em Juiz de Fora que me apaixonei pela primeira vez e tive a sorte de namorar com ela. Ficamos juntos até eu ter que voltar para Niterói."
Da missa para o cinema
Roberto guarda na memória detalhes de uma cidade que não existe mais. "Naquela época, andávamos de bonde ou a pé, não havia tantos carros assim. A gente podia saber onde cada um estava só de ver o local em que o automóvel estava estacionado. Aprendi a dirigir aí, entre os 17 e 18 anos. Mas era raro dirigirmos, às vezes eu saía com um amigo no carro do pai dele, um Oldsmobile automático. Meu pai comprou um Chrysler 1948, que mais parecia um tanque de guerra", relembra, citando a dificuldade que era conduzir o veículo. Ele citou, ainda, vários locais, como o Cine Palace, o Cine-Theatro Central, uma loja que vendia artigos como terços e até mesmo uma pastelaria na galeria Pio X, entre outros pontos que reuniam os jovens da época.
"No domingo, o costume era irmos à igreja, pela manhã, e, à tarde, assistirmos às matinês no cinema, com musicais da Metro (Goldwyn-Mayer, a MGM) como "Cantando na chuva" e filmes da Doris Day, de quem também comprei muitos discos quando ia ao Rio. Toda vez que volto a Juiz de Fora me impressiono como a cidade cresceu, ficou mais massificada e impessoal. E como aumentou a quantidade de carros. Quando fui receber o título de Cidadão Honorário, anos atrás, me instalaram em um hotel próximo ao antigo prédio da Prefeitura e enviaram um carro para me buscar. Acabei indo a pé e cheguei antes."
Essa vida centrada no esporte, estudo, amigos, religiosidade e relacionamentos é considerada por ele, em muitos aspectos, a base da pessoa que se tornou com o passar dos anos. "Foi aí que fumei pela primeira vez e percebi que nossas atitudes geram consequências. Foi quando iniciei meu amadurecimento, tudo isso influenciou na minha entrada na vida acadêmica. Juiz de Fora me ajudou muito a ser uma pessoa correta, honesta, a tentar ser generoso", diz ele, lembrando ainda da importância da família nesse processo. "Isso também afetou muito minha vida e meu trabalho. Minha mãe era de Manaus, uma cidade cosmopolita para a época mesmo na Amazônia, e ela tinha uma sensação de estranhamento quanto à rotina mineira. E é esse sentimento que temos na antropologia."
Vida dedicada ao estudo
Roberto DaMatta é conhecido pelos seus estudos antropológicos, que vão desde os costumes indígenas até o jeito de ser da sociedade urbana. Formado em história pela UFF, ele se especializou em antropologia social no Museu Nacional e teve a oportunidade de estudar, ainda, na Universidade de Harvard, sendo atualmente professor emérito de outra instituição norte-americana, a Universidade de Notre Dame. Entre suas pesquisas mais destacadas, estão os estudos com os índios das tribos Gaviões e Apinayé e dos rituais e festivais da sociedade brasileira, entre eles carnaval, futebol, música, morte e jogo do bicho. O professor da PUC-Rio tem entre seus livros mais conhecidos "Carnavais, malandros e heróis", "Fé em Deus e pé na tábua – ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil" e "O que é o Brasil?".
ROBERTO DAMATTA
Hoje, às 20h
Teatro Pró-Música
(Av. Rio Branco 2.329)
Ingressos retirados com uma hora de antecedência na bilheteria









